Jovens nascidos e criados na comunidade tradicional localizada dentro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro criaram, em 2022, o Museu Popular do Horto. A iniciativa tem o objetivo de preservar a memória histórica das lutas e fortalecer a identidade dos moradores que passaram por inúmeras tentativas de remoção ao longo das últimas décadas.
Os moradores têm raízes ancestrais com o território devido ao trabalho de seus antepassados na jardinagem do parque, remontando ao século 19. “Somos uma comunidade que está em um dos IPTUs mais caros da cidade. É um contraponto muito forte. Existe muito uma apropriação da nossa história, do que é o Horto, então a gente faz isso para fortalecer a identidade da comunidade”, explica uma das diretoras do Museu do Horto, Laura Paiva.
O acordo coletivo que garantiu a permanência definitiva das 621 famílias vai completar um ano. A solução mediada pelo Ministério Público Federal (MPF) conciliou direito à moradia, preservação ambiental e patrimonial em um desfecho histórico para a comunidade. No entanto, anos de conflito fundiário deixam marcas. O período mais conturbado ocorreu entre 2012 e 2018, associado à especulação imobiliária da região e à ampliação do parque.
Os diretores do Museu Popular, Laura Paiva, Felipe Vieira e Luiz Antonio, vivenciaram esses conflitos na adolescência. A partir de 2022, o projeto surge como continuação dessa luta, com foco no pertencimento ao próprio território e na preservação da memória coletiva.
“Por muito tempo, a gente passou por muita violência em relação à ameaça de remoção. Todos nós não tivemos adolescência, ficamos traumatizados com esses processos. A gente tenta usar tudo que ficou guardado de uma forma boa, para construir uma nova realidade para a nossa comunidade”, conta Laura ao Brasil de Fato.
Ela acrescenta que os acordos individuais para permanência das famílias ainda estão em andamento. “Acreditamos que não vamos ter mais remoção, mas existe todo um processo e também queremos o retorno da família do Marcelo, que foi removida em novembro de 2016. A história da comunidade é nosso instrumento de luta, pela resistência e permanência”, completa.
Projetos
O Museu Popular desenvolve e tem parceria com diversos projetos na comunidade, principalmente relacionados ao meio ambiente. Um deles é o Formiguinhas, que envolve mais de 50 crianças do Horto em atividades de educação ambiental e plantio.
Felipe Vieira também destaca o trabalho externo, que leva palestras sobre a importância do cuidado com a natureza para escolas. “Falamos da nossa própria comunidade e de educação ambiental, já que muitas das escolas das adjacências, principalmente as públicas, são de crianças da comunidade do Horto e da Rocinha. É muito importante que eles se entendam como protagonistas da sua própria história e que também cresçam com a educação ambiental alinhada com a comunidade e com o planeta”, afirma.
Ele também é um dos autores do livro Raízes Ancestrais, que conta trajetórias de moradores do Horto a partir de coletas documentais e histórias orais. Uma das descobertas de Felipe foi o RG do seu bisavô, o Seu Cipriano. Esse projeto vai se desdobrar na primeira exposição física do museu.

Educação popular
O Museu ocupa um espaço conhecido como marco de resistência do Horto, transformado há quatro anos em sede da iniciativa. “A exposição vai contar com o material que conta a história dos moradores centenários do Horto e a permanência dos seus familiares até os dias de hoje na nossa comunidade”, adianta Laura.
A proposta vai além do registro da memória, construindo também o dia a dia e o futuro de quem habita o território por meio da educação popular. A importância da frente educacional do Museu nos últimos anos vai ganhar um reforço com o lançamento da Escola Popular Raízes, previsto para o dia 24 de outubro.
Outra novidade para este ano será um documentário articulando cinema, território e memória, além de projeções de cinema negro para os moradores. Luiz Antonio ressalta o papel do audiovisual nessa construção.
“O cinema é responsável pela construção de espaços, memórias e identidade dentro de um território. O filme não registra apenas uma paisagem física, ele transforma o espaço em território político, cultural e afetivo por meio da câmera”, finaliza.
