Docentes da Universidade de Brasília (UnB) decidiram manter o estado de assembleia permanente enquanto aguardam novos acordos com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) sobre a Unidade de Referência de Preços (URP). A decisão foi tomada durante reunião realizada na tarde desta terça-feira (18) na sede do sindicato da categoria no Campus Darcy Ribeiro.
A maioria dos professores assumiu uma postura cautelosa e preferiu dar continuidade nas negociações ao invés de optar por uma greve imediata. Segundo a Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) a decisão sobre uma eventual paralisação será submetida a uma nova assembleia da categoria.
“Os professores entenderam que hoje não era o dia de deflagrar a greve. Vamos dar um voto de confiança ao processo de negociação estabelecido entre a Advocacia-Geral da União (AGU), o MGI e a categoria. Vamos manter a mobilização e decidir sobre a deflagração da greve apenas em uma futura assembleia a ser marcada, dependendo do andamento das negociações”, afirma Pedro Gontijo, membro da diretoria ADUnB em entrevista ao Brasil de Fato DF.
Na última sexta-feira (14), O MGI apresentou uma proposta para tentar avançar no trâmite em torno da URP. O texto estabelece a absorção de 60% dos acréscimos remuneratórios sobre o valor da parcela, percentual que já é aplicado atualmente e que segue o acordo firmado anteriormente com os servidores técnico-administrativos.
Outro ponto envolve os professores que ingressaram recentemente na universidade. Atualmente, docentes que ingressaram a partir de dezembro de 2025 não recebem a URP. O texto original previa novembro de 2023, mas a proposta foi alterada e o novo marco temporal passou a ser dezembro de 2025. O governo propôs ampliar esse marco temporal, inicialmente até março de 2025, quando houve a decisão de mérito do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o tema. A Adunb considerou a proposta insuficiente, e o MGI se comprometeu a analisar outra data.
A proposta também prevê que promoções e progressões concedidas até 31 de março de 2026, com efeitos financeiros em abril, não sejam utilizadas para reduzir o valor da URP. Segundo a ADUnB, valores que já foram absorvidos nestes casos deverão ser restituídos. A organização reivindica que a mesma regra seja aplicada às progressões e promoções posteriores a março, ponto que ainda não houve acordo.
Greve agora ou mais negociações?
A resposta apresentada pelo governo provocou diferentes avaliações durante a assembleia. Enquanto parte dos docentes considerou insuficientes os resultados alcançados após seis rodadas, outros professores defendem que houve avanços e que as possibilidades de negociações devem continuar sendo exploradas.
Liliane Machado, professora da Faculdade de Comunicação da UnB, fez uma avaliação crítica da proposta apresentada ao MGI e defendeu a intensificação da mobilização da categoria. “O que o MGI apresentou nessa sexta mesa foi nada, absolutamente nada. […] Tudo que a gente reivindicou, a gente não conseguiu. Então são seis mesas, é zero de obtenção de qualquer coisa”, afirmou.
Professora do Departamento de Artes Cênicas Júlia Guimarães, pertence ao grupo de docentes que nunca recebeu a URP. Segundo ela, cerca de 200 professores estão atualmente nessa situação e avaliou que a possibilidade de ampliar o grupo de docentes contemplados pela parcela deve ser considerada um avanço, ainda que a reivindicação seja pela inclusão de todos.
“A discussão é sobre quanto vai ser absorvido, mas tem grupo que nunca viu essa rubrica e sabe como é o contracheque”, acrescentou. Para ela, os resultados obtidos até agora são insuficientes, mas não desconsiderados. “Pode ser um ganho pequeno, mas não é ganho zero”, afirma.
A situação dos aposentados também apareceu durante o debate. A professora Eliene Novaes, ex-presidenta da ADUnB, afirmou que 84 docentes aposentados tiveram reduções significativas no valor recebido a título de URP após decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo ela, parcelas que variavam entre R$ 3 mil e R$ 4 mil foram reduzidas para cerca de R$ 600.
A docente também avaliou que houveram avanços nas negociações e defendeu a continuidade das tratativas do governo. “São avanços dolorosos perto daquilo que a gente gostaria, mas são avanços”, afirmou.
Para Novaes, negociação e mobilização devem caminhar juntas enquanto houver espaço para diálogo com o governo. “A nossa tarefa aqui é continuar o processo de negociação e de mobilização até quando a gente tiver espaço junto à mesa de negociação”, disse.
Negociações se arrastam há meses
A negociação é resultado de uma mobilização iniciada ainda em setembro de 2025, quando os docentes aprovaram a participação da Adunb em uma mesa específica para discutir os desdobramentos referentes à Unidade de Referência de Preços (URP). A abertura formal das tentativas, no entanto, ocorreu apenas em junho deste ano, após meses de articulações com órgãos do governo federal e a mobilização da categoria.
O impasse se intensificou em abril, quando o MGI determinou que a UnB aplicasse absorção de parte dos reajustes salariais sobre a URP. Naquele mês, os professores realizaram duas paralisações e atos públicos contra a medida.
A URP é uma parcela que representa 26,05% da remuneração que remonta às perdas salariais provocadas pela extinção, em 1989, de um mecanismo de correção de salários pela inflação. Na UnB, após decisões judiciais favoráveis a grupo de trabalhadores, o pagamento foi estendido administrativamente aos servidores da universidade em 1991 pelo então reitor Antonio Ibañez Ruiz. Desde então, a manutenção da parcela é alvo de disputas judiciais e administrativas
A primeira rodada de negociação ocorreu em 18 de junho. Desde então, os docentes têm levado quatro reivindicações centrais à mesa: a inclusão dos professores que ainda não recebem a URP, com pagamento retroativo; a revisão dos descontos aplicados aos aposentados; a discussão sobre o percentual de absorção da parcela; e a não incidência dessa absorção sobre promoções, progressões e outros acréscimos permanentes da carreira.
Apoie a comunicação popular no DF:
Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]
Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.
Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.
Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304-0102

