Educação Pública

Professores da UnB aprovam indicativo de greve e aguardam novas negociações com o MGI

Assembleia realizada nesta terça-feira (18) manteve estado permanente de greve; URP representa 26,05% nos salários

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Professores participam de assembleia no auditório da ADunB
Professores participam de assembleia no auditório da ADunB | Crédito: Assessoria de Comunicação/ADUnB

Docentes da Universidade de Brasília (UnB) aprovaram o indicativo de greve enquanto aguardam novos acordos com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) sobre a Unidade de Referência de Preços (URP). A decisão foi tomada durante reunião realizada na tarde desta terça-feira (18) na sede do sindicato da categoria no Campus Darcy Ribeiro.

A categoria decidiu que a deflagração sobre a greve será submetida a uma nova assembleia da categoria. A maioria dos professores assumiu uma postura cautelosa e preferiu dar continuidade nas negociações ao invés de optar por uma greve imediata.

“Os professores entenderam que hoje não era o dia de deflagrar a greve. Vamos dar um voto de confiança ao processo de negociação estabelecido entre a Advocacia-Geral da União (AGU), o MGI e a categoria. Vamos manter a mobilização e decidir sobre a deflagração da greve apenas em uma futura assembleia a ser marcada, dependendo do andamento das negociações”, afirma Pedro Gontijo, membro da diretoria da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), em entrevista ao Brasil de Fato DF.

Na última sexta-feira (14), O MGI apresentou uma proposta para tentar avançar no trâmite em torno da URP. O texto estabelece a absorção de 60% dos acréscimos remuneratórios sobre o valor da parcela, percentual que já é aplicado atualmente e que segue o acordo firmado anteriormente com os servidores técnico-administrativos.

Outro ponto envolve os professores que ingressaram recentemente na universidade. Atualmente, docentes que ingressaram a partir de dezembro de 2025 não recebem a URP. O texto original previa novembro de 2023, mas a proposta foi alterada e o novo marco temporal passou a ser dezembro de 2025. O governo propôs ampliar esse marco temporal, inicialmente até março de 2025, quando houve a decisão de mérito do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o tema. A Adunb considerou a proposta insuficiente, e o MGI se comprometeu a analisar outra data.

A proposta também prevê que promoções e progressões concedidas até 31 de março de 2026, com efeitos financeiros em abril, não sejam utilizadas para reduzir o valor da URP. Segundo a ADUnB, valores que já foram absorvidos nestes casos deverão ser restituídos. A organização reivindica que a mesma regra seja aplicada às progressões e promoções posteriores a março, ponto que ainda não houve acordo.

Em nota, a UnB informou que “acompanha a paralisação docente realizada nesta terça-feira (18), em razão das reivindicações da categoria relacionadas à URP. A Universidade reconhece a legitimidade da mobilização e respeita o direito de manifestação da comunidade universitária.”

Greve agora ou mais negociações?

A resposta apresentada pelo governo provocou diferentes avaliações durante a assembleia. Enquanto parte dos docentes considerou insuficientes os resultados alcançados após seis rodadas, outros professores defendem que houve avanços e que as possibilidades de negociações devem continuar sendo exploradas.

Liliane Machado, professora da Faculdade de Comunicação da UnB, fez uma avaliação crítica da proposta apresentada ao MGI e defendeu a intensificação da mobilização da categoria. “O que o MGI apresentou nessa sexta mesa foi nada, absolutamente nada. […] Tudo que a gente reivindicou, a gente não conseguiu. Então são seis mesas, é zero de obtenção de qualquer coisa”, afirmou.

Professora do Departamento de Artes Cênicas Júlia Guimarães, pertence ao grupo de docentes que nunca recebeu a URP. Segundo ela, cerca de 200 professores estão atualmente nessa situação e avaliou que a possibilidade de ampliar o grupo de docentes contemplados pela parcela deve ser considerada um avanço, ainda que a reivindicação seja pela inclusão de todos.

“A discussão é sobre quanto vai ser absorvido, mas tem grupo que nunca viu essa rubrica e sabe como é o contracheque”, acrescentou. Para ela, os resultados obtidos até agora são insuficientes, mas não desconsiderados. “Pode ser um ganho pequeno, mas não é ganho zero”, afirma.

A situação dos aposentados também apareceu durante o debate. A professora Eliene Novaes, ex-presidenta da ADUnB, afirmou que 84 docentes aposentados tiveram reduções significativas no valor recebido a título de URP após decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo ela, parcelas que variavam entre R$ 3 mil e R$ 4 mil foram reduzidas para cerca de R$ 600.

A docente também avaliou que houveram avanços nas negociações e defendeu a continuidade das tratativas do governo. “São avanços dolorosos perto daquilo que a gente gostaria, mas são avanços”, afirmou.

Para Novaes, negociação e mobilização devem caminhar juntas enquanto houver espaço para diálogo com o governo. “A nossa tarefa aqui é continuar o processo de negociação e de mobilização até quando a gente tiver espaço junto à mesa de negociação”, disse.

Negociações se arrastam há meses

A negociação é resultado de uma mobilização iniciada ainda em setembro de 2025, quando os docentes aprovaram a participação da Adunb em uma mesa específica para discutir os desdobramentos referentes à Unidade de Referência de Preços (URP). A abertura formal das tentativas, no entanto, ocorreu apenas em junho deste ano, após meses de articulações com órgãos do governo federal e a mobilização da categoria.

O impasse se intensificou em abril, quando o MGI determinou que a UnB aplicasse absorção de parte dos reajustes salariais sobre a URP. Naquele mês, os professores realizaram duas paralisações e atos públicos contra a medida.

A URP é uma parcela que representa 26,05% da remuneração que remonta às perdas salariais provocadas pela extinção, em 1989, de um mecanismo de correção de salários pela inflação. Na UnB, após decisões judiciais favoráveis a grupo de trabalhadores, o pagamento foi estendido administrativamente aos servidores da universidade em 1991 pelo então reitor Antonio Ibañez Ruiz. Desde então, a manutenção da parcela é alvo de disputas judiciais e administrativas

A primeira rodada de negociação ocorreu em 18 de junho. Desde então, os docentes têm levado quatro reivindicações centrais à mesa: a inclusão dos professores que ainda não recebem a URP, com pagamento retroativo; a revisão dos descontos aplicados aos aposentados; a discussão sobre o percentual de absorção da parcela; e a não incidência dessa absorção sobre promoções, progressões e outros acréscimos permanentes da carreira.


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Editado por: Flavia Quirino

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