O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) publicou na última semana o relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025”, que aponta aumento de conflitos territoriais, suicídios e assassinatos de indígenas, em meio a impasse jurídico, pressão política e econômica contra demarcações de terras indígenas.
Segundo o relatório, esse contexto de insegurança se reflete em ataques contra povos em luta pela terra, na vulnerabilidade de povos desterritorializados e na continuidade de invasões a terras indígenas.
Um dos primeiros casos de violência registrados em 2025 foi no Paraná: quatro indígenas do povo Avá-Guarani foram baleados durante um ataque armado contra uma comunidade na Terra Indígena (TI) Tekoha Guasu Guavirá, área em processo de demarcação e sob intensos conflitos possessórios no oeste do estado. Um dos indígenas, atingido na coluna, perdeu os movimentos das pernas. Este é um dos principais exemplos de ataques em TIs já oficialmente delimitadas pelo Estado.
Atualmente, no estado, existem oito territórios incluídos no programa da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para futura identificação e delimitação. Três constam como identificados, ou seja, reconhecidos como território tradicional por grupo de trabalho da Funai, mas aguardando portaria declaratória do Ministério da Justiça. Outros três territórios constam como declarados, aguardando homologação e registro. Há ainda 20 reivindicados pelas comunidades indígenas sem nenhuma providência administrativa para sua regularização.
Entre as etnias mais atingidas no estado estão os povos Guarani, Avá-Guarani, Guarani-Mbya, Guarani Nhandeva, Kaingang, Xetá, Tukano e Krahô.
O relatório classifica três categorias de violência: contra o patrimônio, contra a pessoa e por omissão do poder público.
Conflitos, invasões e mortes
No Brasil, foram registrados 169 conflitos territoriais em Terras Indígenas não regularizadas ou sem providência do Estado. No Paraná, quatro ocorrências foram registradas na TI Tekoha Guasu Guavirá, envolvendo ataques a tiro, ameaças e intimidação. Neste mesmo território foram registradas queimadas e uso de agrotóxicos por um proprietário vizinho à aldeia, contaminando a plantação e causando complicações de saúde em crianças.
Na TI Mangueirinha, território dos povos Guarani Nhandeva e Kaingang, a Polícia Federal (PF) investigou um esquema de extração, transporte e comercialização ilegal de madeira, especialmente araucárias. Segundo a PF, a investigação apontou 255 pontos de desmatamento no território.
Cerca de 33% dos casos de ameaças de morte aconteceram no Paraná. Os incidentes se concentram nas cidades de Terra Roxa e Guaíra.
Oito pessoas indígenas foram assassinadas no estado, duas mulheres e seis homens. Houve ainda três casos de homicídio culposo decorrentes de atropelamentos. Ao todo, foram 258 casos de homicídio registrados no Brasil.
Violência por omissão
Os casos de desassistência do poder público no estado envolvem denúncias de falta de energia elétrica, insegurança alimentar, falta de água potável, falta de servidores e de apoio à migração indígena.
Segundo o relatório, os relatos apontam para o agravamento das condições de vida para comunidades, afetadas pelas mudanças climáticas, com alagamentos e isolamento que se repetem, sem sinais de planejamento de soluções por parte das autoridades.
As TIs Apucarana, Tekoha Guasu Guavirá, V’ya Renda, Tekoha Mokoy Joegua, Ara Porã, Tape Jeree Pyahu também relatam falta de escolas, casos de precariedade e de abandono escolar devido à falta de infraestrutura.
Os casos de mortalidade infantil são ainda mais preocupantes. Dos 1.024 registrados no país, cerca de 586 ocorreram por causas evitáveis, ou seja, em decorrência de enfermidades, transtornos e complicações que poderiam ser controladas por meio de ações de atenção à saúde e tratamento adequado.
No Paraná, foi registrado o óbito de 15 crianças. Por fim, o relatório aponta para a falta de políticas públicas que abordem o tema do suicídio entre indígenas: cerca de 70% dos casos ocorrem entre homens, 34% tem até 19 anos. Em 2025, o Paraná registrou oito casos e, no Brasil, foram 215 casos registrados.
Para o Cimi, as múltiplas faces da violência contra os povos originários são cruéis e parecem incessantes. O Cardeal Leonardo Ulrich Steiner afirma que “diante dessas realidades, as feridas não cicatrizam: continuam abertas, sangram. E os lábios dos povos indígenas seguem clamando por justiça, proteção e vida”.
Já o secretário executivo do Cimi, Luís Ventura Fernández, comenta que raramente a conciliação se orienta a proteger a permanência dos indígenas frente à posse ilícita de fazendeiros, empresários e outros atores privados. “O estado negociador e mediador sempre foi, historicamente, o representante dos interesses particulares frente ao direito das comunidades e dos povos”, declara.

