Entrevista

‘Tenho 73 anos e nunca vivi tempos tão perigosos’: ativista de esquerda conta como é fazer política nos EUA de Trump

Medea Benjamin, cofundadora da Code Pink, quer expor a 'máquina de guerra' dos EUA e eleger progresistas no Congresso

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Medea Benjamin: 'Trabalho de todo estadunidense é expor a máquina de guerra'
Medea Benjamin: ‘Trabalho de todo estadunidense é expor a máquina de guerra’ | Crédito: Reprodução/Facebook

Medea Benjamin já foi presa dezenas de vezes. Cerca de 60, segundo suas próprias contas, e, em sua maioria, pela polícia do Capitólio. Para uma ativista de esquerda que se propõe a interromper audiências legislativas para denunciar guerras e corrupção, o desfecho não é estranho.

Ainda assim, mesmo com todas as detenções e uma militância que começou nos anos 1960, ela garante: com Donald Trump, tudo mudou. “Eu tenho 73 anos e não me lembro de viver tempos tão perigosos.”

Cofundadora da organização Code Pink, ela visitou o Brasil para participar da Flipei e falou com exclusividade ao Brasil de Fato.

“O trabalho de todo estadunidense é expor a máquina de guerra que fere o próprio interesse nacional”, disse Benjamin enquanto explicava, com suas palavras, as injustiças das guerras dos EUA e a repressão sem precedentes do governo de Trump contra a esquerda.

Ela ainda denunciou o que chamou de intoxicação da política por parte do lobby israelense e disse temer a realização das eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para o dia 3 de novembro.

Confira os principais trechos da entrevista:

Brasil de Fato: O que é o Code Pink e qual sua origem?

Medea Benjamin: Fundei a Code Pink com Jodie Evans, focada na luta em defesa do clima. Não foi muito antes de os EUA serem atacados no 11 de setembro de 2001. Nós éramos mulheres discutindo as mudanças climáticas, mas então começamos a falar sobre a invasão dos EUA ao Afeganistão e como estavam falando de invadir o Iraque. E falávamos sobre o que íamos fazer a respeito. Havia um código em cores que George Bush havia instituído: amarelo, laranja, vermelho, seguindo as possibilidades de um ataque terrorista. Nós ríamos daquilo porque era muito burro, não dizia o que se devia fazer, apenas dizer uma cor. Então decidimos trazer o rosa forte, o pink. Nós pensamos a curto prazo, organizar marchas para parar a guerra no Iraque. Era um movimento antiguerra que pensávamos que iria durar pouco. Nós organizamos grandes marchas, mas Bush invadiu o Iraque de qualquer jeito, então pensamos que não poderíamos simplesmente parar. É por isso que seguimos desde então, sempre com essa ideia de que os EUA são parte de uma máquina de guerra bem grande. E o trabalho dos cidadãos é expor essa máquina de guerra, porque ela é contrária ao interesse nacional do nosso próprio país.

Bush já fazia um governo conservador e belicista, mas as coisas estão bem diferentes agora, comparando com Trump. O que mudou, na sua avaliação, de lá pra cá?

Primeiro, temos que dizer que tanto o Partido Democrata quanto o Republicano são partidos da guerra. Eu acabei de chegar da Irlanda e lá eu ouvi uma expressão muito boa que dizia que democratas e republicanos são “duas nádegas da mesma bunda”. Isso para dizer que, mesmo com Barack Obama, com quem estávamos muito animados, ele terminou sendo chamado de chefe deportador, por conta do número de pessoas deportadas, assim como o “presidente drone”, pela quantidade de drones que ele empregou nas guerras no Paquistão e no Iêmen.

Ele também foi o primeiro a impor sanções contra a Venezuela.

Exatamente. Isso prova que os democratas não foram bons. Mas Trump é uma história completamente diferente. Vamos lembrar que ele ganhou ambas as eleições dizendo que guerras são estúpidas e que ele seria um presidente da paz. De fato, dados mostram que, nos estados-pêndulo que deram a vitória a Trump nas duas eleições, as populações rurais votaram massivamente nele por serem antiguerra, já que a maioria dos seus filhos estava ou está mobilizada.

Então, no início, chegamos a pensar: “Nós não gostamos de Trump por várias razões, mas talvez ele seja bom no quesito guerras”. Ele também disse que a Otan era obsoleta e isso poderia parecer positivo. Mas, quando ele começa, principalmente esse segundo mandato, foi uma insanidade. Nós vemos coisas que nós, na esquerda, não esperávamos, mas também pessoas da direita não esperavam.

Você acha que Trump estava mentindo quando prometeu paz? Era só uma promessa de campanha? Ou as coisas mudaram no cenário global?

Eu acho que a máquina de guerra é mais poderosa do que a presidência enquanto figura individual.

Por máquina de guerra“, devemos entender o quê? Quais instituições ou pessoas?

Todo o complexo: indústria bélica e militar, da segurança, think tanks, a mídia, a pressão do capital. Tudo isso. Muita pressão de Israel também. O que é impressionante: esse país minúsculo ter seus tentáculos em todos os lugares. Uma habilidade de se infiltrar tão perfeita, seja nos EUA ou mesmo aqui na América Latina. Nos EUA, você cutuca a superfície e encontra influência de Israel, especialmente nas eleições. Vejamos os chamados “PACS” eleitorais, que minam totalmente a possibilidade de se ter eleições verdadeiramente democráticas.

E como esse lobby funciona na prática? Recentemente, no Michigan, um candidato que se diz progressista e pró-Palestina derrotou a candidata apoiada pelo lobby israelense nas primárias democratas pelo Senado. Ainda é possível enfrentá-lo?

A diferença de financiamento é absolutamente gigante. A candidata pró-Israel recebeu para sua campanha cerca de 32 milhões de dólares por parte do lobby israelense e outros quase 30 milhões de outros grupos grandes. Então você transforma uma campanha na busca quase incessante por dinheiro, inclusive para o outro candidato. Isso destrói tudo.

O Codepink acredita que é possível, mesmo com esse cenário, disputar espaços de poder genuínos por meio de eleições nos EUA?

Não temos escolha. É como no Brasil: você tem que usar toda ferramenta que você tem, inclusive a eleitoral, embora você saiba que não é isso que vai te salvar. Tem que haver pressão por fora. Mas, em termos eleitorais, tivemos grandes vitórias recentemente: em Nova York, no Arizona, no Michigan. Uma vez que essas pessoas sejam eleitas e entrem no sistema, elas ainda serão minoria. Mesmo se os democratas tomarem de volta a Câmara e o Senado, os progressistas ainda serão minoria. Mas ainda assim é bom ter cada vez mais e mais deles. Isso muda também os que estão no poder, faz com que seja tóxico aceitar dinheiro de PACs e lobbys de Israel. Então nós temos que seguir ocupando lugares por dentro, mas fazendo pressão por fora.

Agora, Israel não é a única questão. Há outros problemas que chamam a atenção das pessoas, e uma coisa que tem chamado a atenção e tem gerado mobilizações importantes são os data centers para inteligência artificial. Isso não é uma coisa ligada a nenhum dos partidos, e você vê pessoas do meio rural, famílias normais, que agora estão se mobilizando contra isso. Não é como se uma empresa estivesse chegando e prometendo criar empregos. Esses data centers não fazem nem isso. Esse tipo de levante está ocorrendo. Outro exemplo é o levante contra o ICE. Então achamos que devemos aproveitar esses levantes unidos com a participação nos processos eleitorais como um lugar para não apenas eleger boas pessoas, mas para expor a corrupção dos que são financiados pelo grande lobby.

A violência do ICE pode ser um ponto de virada contra o governo Trump? Algo que gere um sentimento de rejeição incontornável para o presidente?

Não é suficiente, mas é um dos pontos mais importantes. Há um sentimento antimigração muito forte nos EUA, mas isso não significa que as pessoas apoiem tropas que viajam em carros sem identificação para prender pessoas. Há provavelmente um grande sentimento de insatisfação com a forma com a qual isso é feito. Mas as pessoas são convencidas de modo incansável de que os migrantes tomam o que é deles. A propaganda que os republicanos e o governo Trump utilizam, dizendo que os migrantes são animais, estupradores, influencia muito na maneira com a qual as pessoas acham que os migrantes devem ser tratados. Nós achamos que eles deveriam ser regularizados, mas muitas pessoas compram essa propaganda.

O governo Trump está empregando uma política imperialista ostensiva no âmbito da política externa, reivindicando a Doutrina Monroe e utilizando a força. Mas não só isso, há também uma ofensiva contra movimentos de esquerda dentro dos EUA. Estamos vivendo também uma reedição do macartismo?

São duas coisas diferentes. Eles vão perseguir a esquerda de todas as maneiras, seja chamando manifestantes contra violência policial de “terroristas domésticos” ou classificando grupos ambientalistas ou antifascistas com essa designação. Isso permite que eles sejam processados em instâncias superiores, com penas maiores. Eles também estão perseguindo organizações como a nossa por meio do Departamento do Tesouro, obrigando-nos a fornecer informações excessivas sobre nossos meios de financiamento e como gastamos nossos recursos, principalmente com nossa campanha de solidariedade a Cuba. Há intimações contra jornais como o Breaktrought News e outros. Também perseguem muitos grupos palestinos, e os acusam de ter relações com o Hamas e o Hezbollah e ameaçam de deportação se participarem de marchas. Fora perseguições em locais de trabalho. Há inclusive leis em alguns estados contra a campanha BSD, de boicote, sanções e desinvestimento contra Israel. É um tempo de enorme repressão. As pessoas comparam esse período com os anos 1950, com a era do anticomunismo e do macartismo, mas eu acho que hoje é mais amplo que isso.

Por quê?

Porque a repressão ocorre em diferentes áreas. É feita para que as pessoas que divirjam do governo Trump sejam classificadas como ameaças à segurança nacional. Nós tememos que isso cresça. Também temos medo de que as eleições legislativas em novembro de meio mandato não ocorram ou sejam muito contestadas em vários estados, que não tenhamos um governo funcional. Isso para não falar no que pode acontecer nas próximas eleições presidenciais. Eu tenho 73 anos e não me lembro de viver tempos tão perigosos.

Sobre a Doutrina Monroe, as pessoas em geral não colocam política externa como a prioridade da vida delas. Mas agora, com isso das guerras intermináveis, se tornou uma grande questão. Eu poderia até dizer que essa ideia dos EUA determinarem o que se pode ou não fazer em outras partes do mundo não é muito popular no país. O sentimento é “América primeiro”, não são “Américas”, no plural, são apenas os EUA. E isso não vem de uma solidariedade, vem de um tipo de nacionalismo característico. A guerra no Irã é uma das mais impopulares. Está afetando a vida das pessoas com o preço do combustível, e Trump se colocou em um lugar complicado. Isso com certeza vai afetar as eleições. Eu escrevi um artigo sobre como os EUA são um ‘tigre de papel’. Sobre como os EUA têm a maior máquina de guerra do mundo e, ainda assim, não conseguem ganhar guerras. Nós não ganhamos no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e agora no Irã, um país que gastou uma quantia baixa na sua infraestrutura militar e conseguiu derrotar os EUA. Isso é inacreditável.

É provável que Trump perca a Câmara e o Senado nas eleições de novembro, segundo as pesquisas. Mas há alguma outra derrota política possível para o governo que venha das urnas?

Se as eleições ocorreram com normalidade, os democratas com certeza vão retomar a Câmara e talvez o Senado. Na política dos EUA, geralmente, quem está no poder perde o controle da Câmara no meio do mandato, pois há insatisfação da população, principalmente com a economia. Mesmo que Trump diga que a economia está ótima e o mercado de ações está ótimo, há muita insatisfação. Mas eu acho que o desafio maior é sempre conectar a economia com as guerras. Agora está mais fácil com o que está acontecendo no Irã, mas nós seguimos denunciando: os EUA têm uma máquina de guerra de 1,5 trilhão de dólares, como não podem ter saúde universal gratuita? Isso existe no Brasil, eu não pude acreditar quando descobri isso. O problema é que ninguém quer ser visto como alguém que enfraqueceu a segurança nacional. As pessoas no Congresso não querem ser vistas como as que dão menos dinheiro ao Pentágono ou as que não apoiam as tropas. Por isso, nas próximas eleições, nós temos como objetivo eleger o máximo de progressistas que pudermos e denunciar Israel o máximo possível. E, para as eleições presidenciais, os democratas precisam escolher alguém que tenha clareza moral, e não alguém como Kamala Harris, que foi uma péssima candidata, pois apoia um genocídio.

Há nomes?

Bom, eles falam de Alexandria Ocasio-Cortez, falam de Ro Khanna, falam também de Pete Buttigieg, Josh Shapiro, Gavin Newsome… Há muita conversa em torno de nomes. O que eu acho é que precisamos garantir que as eleições aconteçam e apoiar o máximo de candidatos como Abul El-Sayed, que venceu as primárias no Michigan e segue pregando ‘dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso, saúde universal’. Coisas que ressoam nas pessoas.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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