Relatório

Urbanização nas favelas avança, mas moradores apontam falta de serviços e descontinuidade de políticas

Estudo do Ibase, realizado em 18 favelas do Rio, mostra avanços em áreas como saneamento, mas revela obras inacabadas

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Escadaria localizada no Morro do Adeus, no complexo do Alemão, zona norte do Rio
Continuidade de obras no interior das comunidades estão entre as principais demandas dos moradores | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) divulgou nesta terça-feira (18) o estudo “Novos Olhares sobre as Transformações Urbanas nas Favelas”. Embora percebam melhorias, os moradores apontam a descontinuidade das políticas, falta de manutenção e a permanência de problemas como falta de acesso à água, saúde e saneamento. Chama atenção também a enorme taxa de desemprego. A maioria dos entrevistados afirmou conhecer mais de dez pessoas desempregadas na área onde mora.

O trabalho é resultado de pesquisa realizada com 10 mil moradores de 18 favelas cariocas e faz um balanço das políticas de urbanização desses territórios nos últimos 20 anos. Para melhor identificar as mudanças, os entrevistados foram divididos entre moradores antigos — aqueles que acompanharam as obras entre 1997 e 2000 — e aqueles que vieram depois da virada do século. Os principais programas do período foram o Favela-Bairro (1994–2008); o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – Urbanização de Favelas (a partir de 2007, com diferentes fases e descontinuidades); e o Morar Carioca (2010–2016 e que foi descontinuado).

Para 76,5% dos moradores antigos entrevistados, os programas contribuíram para ampliar direitos, especialmente em mobilidade, abastecimento de água, esgotamento sanitário, habitação, iluminação pública e coleta de lixo. Por outro lado, 51,7% afirmam que as ações anunciadas e acordadas com os territórios não foram integralmente concluídas. Em Parque Unidos, esse percentual chega a 84%, seguido por Chapéu Mangueira, com 72%, Babilônia, com 66%, Parque João Goulart, com 65,7%, e Morro da Coroa, com 65%.

No que diz respeito aos serviços essenciais, o abastecimento de água é um dos gargalos mais críticos: 49,1% dos moradores afirmam que ainda há pessoas sem água em seus territórios. Em comunidades como o Salgueiro, esse índice atinge alarmantes 91%, seguido pela Comunidade Agrícola de Higienópolis (77,4%) e Fernão Cardim (74%). A questão do esgoto também apresenta falhas graves; entre aqueles que não perceberam melhorias, 53,4% apontam que as obras foram insuficientes para eliminar valas e o esgoto a céu aberto.

A percepção de desemprego mencionada pelos moradores é corroborada pelos dados: 56,3% dos pesquisados conhecem mais de dez pessoas sem trabalho na vizinhança. Apesar disso, o relatório aponta que as intervenções tiveram um impacto positivo temporário na economia local, com 67,1% dos entrevistados avaliando que as obras geraram oportunidades de trabalho durante sua execução.

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A distância entre as moradias e os postos de saúde é o principal obstáculo. Em territórios como Parque Conquista e Vila Moretti, cerca de 90% das pessoas afirmam existir moradores sem qualquer acesso ao atendimento. Outra barreira é a falta de profissionais e a falta de especialidades nas unidades de atendimento.

Já em relação à educação, a falta de vagas em creches e pré-escolas é percebida por 62,1% da população nos territórios. Uma situação similar para crianças e adolescentes que cursam o ensino fundamental e médio.

O relatório do Ibase destaca ainda uma falha na entrega das promessas governamentais: para 51,7% dos moradores, as ações propostas pelos programas de urbanização sequer foram finalizadas. Esse dado evidencia problemas graves de planejamento e execução, reforçando a sensação de descontinuidade. Outras carências notadas incluem a falta de espaços culturais (62,5%) e a ausência de arborização (80,9%), além da permanência de riscos de deslizamentos em áreas como o Jacaré (87,4%) e Guararapes (86,8%), apesar das obras de contenção realizadas.

Na avaliação do Ibase, as futuras obras devem garantir a cobertura de todas as casas e áreas de uso comum, além de projeção do crescimento populacional. “Programas sem acompanhamento, sem manutenção e com períodos muito longos entre obras incidem na sobrecarga e comprometimento das redes ao longo do tempo e na perda do investimento financeiro realizado”, diz um trecho do relatório.

Comunidades pesquisadas

A pesquisa foi realizada em 18 favelas: Barro Preto, Comunidade Agrícola de Higienópolis, Guararapes, Estrada do Tijuaçu, Morro da Providência, Morro dos Cabritos, Parque Conquista, Parque João Goulart e Salgueiro, Faz Quem Quer, Parque Unidos, Babilônia, Vila Moretti, Três Pontes, Jacaré, Morro da Coroa, Chapéu Mangueira e Conjunto Residencial Fernão Cardim. A coleta ocorreu em duas etapas: entre 2022 e 2023, em nove favelas; e entre 2025 e 2026, em outras nove comunidades, totalizando 18 territórios pesquisados. De acordo com o Ibase, a escolha dos territórios é uma combinação entre a divisão geográfica e administrativa da cidade do Rio de Janeiro e os programas de intervenção urbana realizados em cada uma delas.

De acordo com dados de 2022 do Instituto Pereira Passos (IPP), o Rio de Janeiro possui 1.072 favelas cadastradas, mas apenas 159 são consideradas efetivamente urbanizadas. Outras 114 são classificadas como parcialmente urbanizadas, o que significa que apenas 26% das comunidades da cidade receberam algum tipo de intervenção estruturada. Com isso, cerca de 68% dos assentamentos permanecem sem acesso pleno a direitos básicos.

Editado por: Juliana Passos

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