A polarização política tem se acentuado no Brasil desde a ascensão da extrema direita, que tem como ápice a chegada de Jair Bolsonaro ao poder em 2018. De lá para cá, são muitos os episódios de violência, muitas vezes física, que vêm sendo registrados sob o argumento de defender essa ou aquela ideologia.
Nesse sentido, as mulheres são as que mais sentem a violência política. Na segunda-feira (17), a candidata ao Senado Marina Silva (Rede) foi alvo de hostilidades e ameaçada de agressão durante caminhada com a também candidata Simone Tebet (PSB) e o candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT). E o episódio contra Marina está longe de ser um caso isolado.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Julie Ricard, doutoranda em administração pública e governo na Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a misoginia forma o núcleo articulador dessas violências, que são vistas no ambiente privado e no público. “A gente sabe que a violência política contra mulheres sempre ocorreu. Ela termina tendo muita visibilidade em momentos de campanha, porque são eventos que estão ocorrendo ao mesmo tempo. Então, aumenta a probabilidade estatisticamente desse tipo de situação, mas, infelizmente, também não se resume ou se restringe a campanhas”, reforça.
Para ela, o ato contra Marina foi muito simbólico dessa violência transversal e voltada a uma mulher que tem poder e influência. “Geralmente, quanto mais visibilidade as mulheres têm, ou seja, também mais poder, elas terminam sendo mais atacadas. Então, é um sistema de controle. E a violência de gênero, ela sempre foi utilizada como uma forma de submeter as mulheres, de voltar a colocá-las num lugar de submissão, de determinar que tipos de comportamentos são aceitáveis ou não”, avalia.
Ricard também analisa a ainda pouca representatividade de mulheres na política, o que também pode ser encarado como uma forma de violência. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), das candidaturas registradas, 43,8% são mulheres. Dentre presidenciáveis e vices, há apenas duas mulheres. Dos postulantes aos governos, em sete estados há apenas candidaturas masculinas.
A especialista destaca que os dados evidenciam que “quanto mais poder está em jogo”, menos espaço há para mulheres. “Por mais que a gente esteja num total acima de 30%, que é o que a lei de cotas estabelece para cargos proporcionais, a gente percebe que essa distribuição é muito desigual. Há menos mulheres onde há mais poder. Inclusive, sim, há duas candidatas à presidência, mas também não fazem parte das chapas que estão liderando a disputa”, observa.
Ricard avalia que, se a análise da representatividade do Congresso passasse pela distribuição do eleitorado, seria necessário ter 50% de homens e 50% de mulheres. “Não é só uma questão ética, também é uma questão dos temas que podem ser pautados, das experiências que são trazidas para esses espaços de decisão. Então é uma questão muito política e de política pública também”, pondera.
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