Uma casa centenária na José do Patrocínio, 642 – lado B, sempre está aberta para enfrentar novos desafios e dar uma mão a quem precisa para a construção de uma humanidade possível. É a Fora da Asa, fundada em 2018, e que se tornou uma Organização não Governamental (ONG) em 2021, com objetivos claros e focos específicos.
É um lugar diferente, que acolhe a diversidade em todos os sentidos. “Nosso principal objetivo é a comunidade LGTBQI+, mas não nos limitamos a este público. Aqui impera a amplitude, recebemos todos, mulheres e homens que se auto identificam, que buscam o seu espaço, um projeto coletivo de ações educacionais, artísticas e culturais,” garante Salete Pinheiro, psicanalista e vice-presidente da instituição.

A ideia de criar a comunidade Fora da Asa foi de Camila Alexandrini, professora, escritora e doutora em Letras pela PUCRS, com atuação na rede municipal de ensino de Porto Alegre. Ela é atualmente uma das diretoras. Idealista, animada, criou também o projeto TodAs EscreVemos. Ao lado de Camila participou da fundação mais um grande grupo de mulheres, que vão se alternando – saem e entram outras – sempre com o mesmo propósito de trabalhar educação e cultura com as pessoas que vão ao local. “Aqui fazemos de tudo um pouco”, reforça Salete.
E o que é fazer de tudo? “Aulas, com oficinas específicas de escrita (afinal todas e todos escrevemos alguma coisa), oficinas de racismo e branquitude, exposições, peças de teatro, filmes, música, percussão, debates, encontros, aulas de dança (forró e samba de gafieira), refeições coletivas, auxílio alimentar para moradores de rua ou quem bate à nossa parte pedindo alguma assistência”, revela Salete.

E quem paga tudo isso? “Não temos renda, as pessoas precisam dar uma contrapartida dentro dos seus limites e possibilidades para manter a instituição funcionando, pagar aluguel, essas coisas. Para quem não pode colaborar com absolutamente nada, os atendimentos são gratuitos. No meu caso, de psicanalista, por exemplo, o valor da consulta é simbólico”, responde.
Trabalho social e educacional e auxílio a indígenas
Na enchente de 2024, a Fora da Asa fez muito trabalho social e educacional em abrigos pela cidade, como rodas de leitura e ensinando a escrever histórias do que estavam passando, ajudando quem necessitava. Além disso, arrecadou e distribuiu doações, apesar de o espaço da sede também ter sido afetado, já que ficou por uma semana fechado em função do alagamento no entorno do prédio.
“Temos fortalecido os espaços que são liderados pelas mulheres”, ressalta Salete. Elas também prestaram apoio à comunidade indígena Mbyá-Guarani da Aldeia Jatai’ty, conhecida como Aldeia do Cantagalo pelos não-indígenas, localizada na área rural em Viamão, divisa com Porto Alegre.

A Fora da Asa também tem se dedicado à campanha de doações em dinheiro para viabilizar ações de solidariedade, encontros de fortalecimento de mulheres em liderança de movimentos sociais, atendimentos terapêuticos para pessoas na periferia, divulgação organizada de informações devido à alta circulação de fake news, parcerias com outros coletivos para a ampliação das atividades em apoio a comunidades indígenas, quilombolas e a população periférica.
Também são buscados recursos no site Apoia.se pelo sistema crowdfunding. O termo vem do inglês (crowd que significa multidão, e funding, financiamento). É uma alternativa aos empréstimos de bancos ou grandes investidores e que tem ajudado a ONG a se manter viva e atuante, ressalta a dirigente.
O nome vem de uma frase de um grande poeta
O espaço Fora da Asa é bem dividido. Tem uma pequena lojinha com suvenires da instituição (sacolas ecobags, cds, livros), uma sala ampla onde são realizados encontros, aulas e apresentações, uma sala de conversas e de recepção, cozinha, sacada. Há sempre movimentação por ali, conta Salete, gaúcha de Frederico Westhpalen, com passagem por Brasília e há oito anos em Porto Alegre.
A biblioteca só tem obras escritas por mulheres. O nome é Biblioteca Rosa Mayommbe, escritora gaúcha e parceira da instituição, credenciada no Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas. “O incrível aqui na nossa casa é que recebemos um livro pelo correio enviado pelo, quem diria!, senador Hamilton Mourão. Não deu para aguentar. Nem sei onde foi parar. A gente é declaradamente progressista e antirracista e não temos partido”, relembra Salete.

A casa também tem um selo editorial para publicação de livros – a Fora da Asa. O último livro publicado é “Minicontos escritos por mulheres”. Já está à venda. O símbolo da entidade são dois bichos com asas, uma no lugar habitual e outra nos pés.
O nome Fora da Asa veio de uma frase do poeta matogrossense Manoel de Barros (Cuiabá 1916 – Campo Grande 2014): “Poesia é voar fora da asa”. A metáfora do voo fora da asa revela o lirismo próprio do poeta pantaneiro, do século XX, pertencente formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas européias do início do século passado e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade.

Pela sede se espalham quadros abstratos e frases importantes de autoras feministas, que deixaram recado para as mulheres e a humanidade, como a de Juliete Hernández Martínez, artista circense, palhaça (conhecida como “Jujuba”) e cicloviajante venezuelana – ela viajava pelo Brasil de bicicleta havia cerca de oito anos e foi brutalmente assassinada em janeiro de 2024 na cidade de Presidente Figueiredo, no Amazonas, enquanto retornava à Venezuela para rever a mãe: “É preciso ter coragem para seguir pedalando”. Ali, a frase vale para todos os sentidos para expandir as ações do coletivo.
Grupo de utilidade Pública
A Fora da Asa é uma entidade de utilidade pública desde 22 de dezembro de 2025, lei aprovada na Câmara de Porto Alegre e sancionada pelo prefeito. A iniciativa foi do vereador Aldacir José Oliboni (PT), com o argumento de que a instituição defende os direitos das mulheres por meio da educação feminista e antirracista, da assistência social, da cultura e da literatura.
Oliboni, que está em seu quinto mandato parlamentar, também disse que a casa Fora da Asa já promoveu mais de 300 ações, com destaque para a escrita, cujo objetivo principal é fortalecer a voz das mulheres por meio da literatura publicada de forma independente. A lei que permite a outorga de utilidade pública a uma organização é a de número 2.926, de 12 de julho de 1966.

Nova diretoria eleita
Depois da visita do BdF à sede da Fora da Asa na José do Patrocínio, 642 – lado B, a entidade elegeu a sua nova diretoria. A nova presidente é Agda Pacheco Rocha, escritora e poeta, com vários livros já publicados. Ela declarou em mensagem à reportagem que “Me sinto muito grata às meninas que compõem a organização, pela confiança e aliança construída durante todo esse tempo juntas, afinal, faço parte deste espaço já fazem uns 6 ou 7 anos.
“Minha intenção é que a gente possa olhar para a Fora da Asa daqui a alguns anos e perceber que ela cresceu a cada dia, com projetos e ações que geraram recursos para o desenvolvimento do espaço e que continua tendo a mesma alma: a de uma casa aberta à experimentação, à diferença, ao encontro e à criação”, disse.
Salete Pinheiro, aqui entrevistada, ocupa agora o cargo de conselheira fiscal.
