A recém-inaugurada Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, administrada pela empresa terceirizada LinhaUni, ainda não funciona como uma solução de transporte para a maioria dos trabalhadores. Atualmente, a linha opera no que o governo estadual chama de “operação assistida”, com trens circulando apenas entre 10h e 15h, de segunda a sexta-feira.
Em meio à crise no transporte público sobre trilhos vivida no estado, o serviço gratuito e limitado da nova linha tem atraído mais pessoas em busca de lazer do que passageiros que dependem dos trens para chegar ao emprego. É o caso da cuidadora de idosos Daniela Maria, que utilizou a linha apenas para diversão.
Moradora da zona sul, Maria conta que o interesse em pegar um trem da Linha 6-Laranja partiu do filho, de 5 anos. “Nós viemos conhecer porque meu filho é fã de metrô e nós o trouxemos para dar um passeio”, explica, reforçando que raramente precisará usar a linha no seu dia a dia.
Para o especialista em mobilidade urbana, Rafael Calabria, a inauguração antecipada é uma estratégia política. “Na prática, a linha não está inaugurada ainda. Ela está em uma operação controlada que eles chamam operação assistida”, afirma Calabria, destacando que o intervalo de 20 minutos entre os trens é muito longo para o padrão de São Paulo. Segundo ele, o governo acelera essas entregas para criar um fato eleitoral, mesmo com as estações ainda em clima de canteiro de obras.
Segundo a Artesp (Agência Reguladora de Transporte do Estado de SP), “a operação comercial parcial da Linha 6-Laranja, com oito estações, está prevista para o fim deste ano e ocorrerá de forma gradual”. A agência afirma que “haverá ampliação do horário e da oferta de trens conforme a evolução da operação assistida, etapa necessária para a validação dos sistemas”.

O baixo movimento nos vagões é confirmado por quem trabalha nas ruas. O entregador William de Freitas, que utiliza a bicicleta para o serviço, relata que os trens circulam quase vazios. De acordo com ele, “sempre tem 10 a 20 pessoas dentro”, e a maioria aproveita o horário alternativo de funcionamento para passear com crianças.
Para muitos moradores, o serviço ainda é insuficiente. A aposentada Doroti Aparecida Falcão vive a poucos minutos da Estação João Paulo I, mas afirma que o horário restrito não ajuda em seus compromissos. “Horário que é só de segunda a sexta, começa a funcionar às 10h e para às 15h, para mim, não está sendo muito útil.” Ela aguarda a operação plena para se deslocar até o bairro do Belém com mais praticidade.
Outro obstáculo para o trabalhador é a falta de integração. O analista Fernando Rodrigues, que mora em Franco da Rocha e trabalha em Perdizes, aponta que a baldeação na Água Branca ainda exige sair da estação do trem e passar novamente pela catraca do metrô. Sobre essa questão, a Artesp disse que a integração entre as Linhas 6-Laranja e 7-Rubi, na Estação Água Branca, estará funcionando no início da operação comercial da Linha 6-Laranja.
Mesmo com esta dificuldade gerada pelo atraso na obra e pela entrega improvisada, Rodrigues comenta que já consegue economizar cerca de 30 minutos no trajeto. A estudante de psicologia Camila Helena também vê benefícios, mas ressalta o tempo de espera. Ela utiliza o metrô na volta da faculdade e conta que chegou a esperar 20 minutos na plataforma. Camila compara o serviço com o transporte por ônibus, que considera muito mais demorado e sujeito a atrasos constantes, chegando a 30 minutos de espera no ponto.

A Linha 6-Laranja é um projeto que se arrasta por quase duas décadas. O usuário Gilmar Bayer de Azevedo, que acompanhou as obras desde o início, lembra que a construção passou por diversos governadores até chegar à gestão atual. Ele acredita que o período de testes é necessário para evitar falhas graves, mas prevê que a conclusão completa da linha só ocorra nas próximas janelas eleitorais.
No centro das críticas técnicas está um aporte financeiro feito pelo governo Tarcísio de Freitas (PL) no início de 2026. Segundo Rafael Calabria, “o governador Tarcísio aprovou no começo desse ano um aporte de R$ 3,7 bilhões para tentar acelerar a obra e colocou sigilo sobre as informações do que foi esse aporte”.
Em resposta, a Artesp afirma que “os processos sobre a Linha 6-Laranja são públicos e não estão sob nenhum tipo de sigilo”. A agência explica que o valor bilionário citado por Calabria “refere-se ao desequilíbrio econômico-financeiro do contrato apurado em razão da superveniência geotecnológica que acometeu a obra, estando a apuração e a justificativa descritas em processos administrativos”.
Calabria afirma que a aposta na iniciativa privada também tem gerado problemas de planejamento e falta de transparência. Para ele, as privatizações tendem a focar na estética das estações para atrair atenção positiva, mas precarizam o serviço contínuo. “O custo, a prestação de serviço, atendimento, funcionários, limpeza, isso costuma piorar.”
Nas estações, o que se vê atualmente é um número maior de operários de obra e manutenção do que funcionários de atendimento ao público. Calabria observa que existe uma tendência de redução de equipes e falta de concursos públicos no metrô em geral. Ele afirma que a qualidade do serviço prestado pode cair após as reformas e inaugurações “bonitinhas”, pois o foco da gestão privada é o lucro em cima do custo fixo de operação.
Enquanto a Linha 6-Laranja não funciona em horário integral, usuários como o comerciante Jefferson Mendes tentam se adaptar. Ele mora na Freguesia do Ó, zona norte, e trabalha no Brás, região central, mas só consegue usar o metrô porque sua escala de trabalho coincide com o horário reduzido.
O Brasil de Fato procurou a LinhaUni, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.
