A China e a Coreia do Sul deram novos passos para recuperar o diálogo bilateral durante a visita do ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, a Seul, encerrada nesta quinta-feira (20). A viagem aconteceu em um momento de tensão na península coreana e de disputa crescente entre Estados Unidos e China pela influência na Ásia.
Foi a primeira visita de um chanceler chinês à Coreia do Sul em cinco anos. Em dois dias, Wang se reuniu com o ministro sul-coreano das Relações Exteriores, Cho Hyun, com o presidente, Lee Jae-myung, e com o assessor de Segurança Nacional, Wi Sung-lac. Ao receber Wang, Lee afirmou que as relações entre os dois países haviam alcançado uma “recuperação completa” e defendeu uma comunicação mais próxima com Pequim sobre a situação na península.
A agenda incluiu comércio, tecnologia, cadeias de abastecimento, intercâmbios entre os povos e a situação na península. Seul também reiterou sua posição de respeito ao princípio de uma só China, uma questão considerada central por Pequim nas relações bilaterais.
Aproximação econômica em meio à tensão regional
China e Coreia do Sul estabeleceram relações diplomáticas em 1992. Mais de três décadas depois, Pequim continua sendo o principal parceiro comercial de Seul, o que dá peso econômico à reaproximação. O comércio entre os dois países chegou a cerca de US$ 272,7 bilhões em 2025, envolvendo setores estratégicos como semicondutores, eletrônicos, baterias e componentes industriais.
Durante a visita, os dois governos concordaram em acelerar as negociações da segunda fase do acordo de livre comércio e ampliar a cooperação em comércio, investimentos, tecnologia e estabilidade das cadeias de abastecimento. Também decidiram fortalecer intercâmbios entre jovens, universidades, meios de comunicação, centros de pesquisa, esportes e governos locais. Wang convidou Cho Hyun para visitar a China, e o chanceler sul-coreano aceitou o convite.
Os dois países esperam ainda superar 10 milhões de viagens anuais entre suas populações. A retomada desses intercâmbios faz parte de uma tentativa mais ampla de recuperar os vínculos entre as sociedades depois de anos de dificuldades políticas.
A importância da China para a economia sul-coreana aparece de forma particularmente clara no setor de semicondutores. China continental e Hong Kong receberam US$ 17,2 bilhões das exportações sul-coreanas de chips, mantendo o mercado chinês como destino estratégico para empresas do setor. Samsung Electronics e SK Hynix, duas das maiores fabricantes mundiais de chips de memória, também mantêm operações na China.
Ao mesmo tempo, Washington vem pressionando seus aliados a restringirem determinadas transferências de tecnologia para o mercado chinês. É uma das razões pelas quais Seul precisa administrar com cuidado sua relação com Pequim: sua economia está profundamente integrada às cadeias produtivas chinesas, enquanto sua estrutura de segurança continua ligada aos Estados Unidos.
Entre Washington, Pequim e a península coreana
A questão da segurança regional esteve no centro das conversas. Wang Yi afirmou que Pequim defende uma solução política e pacífica para a questão coreana e que a China pretende continuar contribuindo para a estabilidade da península. O chanceler Cho, por sua vez, pediu que Pequim ajude a criar condições para que Pyongyang volte ao diálogo.
A China também criticou a política de Washington em relação à Coreia do Norte. Wang defendeu uma mudança de postura dos Estados Unidos e a retomada do diálogo e da confiança entre as partes. A posição chinesa ocorre justamente quando Washington tenta reabrir o canal com Pyongyang: Donald Trump voltou a manifestar disposição para conversar com Kim Jong-un e determinou uma redução dos exercícios militares conjuntos entre Estados Unidos e Coreia do Sul.
O Ulchi Freedom Shield, que começou em 17 de agosto e estava previsto para durar 11 dias, será encerrado na sexta-feira (21), seis dias antes do calendário original. A redução dos exercícios, no entanto, não eliminou a tensão. Nesta quinta-feira, enquanto Wang concluía sua visita a Seul, a Coreia do Norte lançou mais de dez mísseis balísticos de curto alcance em direção ao Mar do Leste, segundo autoridades sul-coreanas. Pyongyang havia considerado insuficiente a redução dos exercícios.
É nesse cenário que Pequim defende que a Coreia do Sul mantenha maior autonomia estratégica e não seja obrigada a escolher entre China e Estados Unidos. Wang pediu que Seul mantenha relações equilibradas com as grandes potências e evite uma confrontação baseada em blocos. A posição chinesa ganha peso diante da presença militar estadunidense: cerca de 28.500 militares dos Estados Unidos estão estacionados na Coreia do Sul.
Seul ocupa, assim, uma posição particular. A China é seu principal parceiro comercial, enquanto os Estados Unidos continuam sendo seu principal aliado militar. A aproximação com Pequim não significa que a Coreia do Sul esteja abandonando Washington, mas amplia sua margem de negociação em um ambiente regional cada vez mais marcado pela competição entre as duas potências.
Para Pequim, a aproximação também tem importância econômica e diplomática. Além de fortalecer os vínculos com um dos principais países industriais da Ásia, a China busca evitar que a região seja organizada exclusivamente em torno da rivalidade com Washington. A questão da península acrescenta outra dimensão: Pequim mantém relações históricas com Pyongyang, mas vem defendendo a redução das tensões e a retomada das negociações.
Novos encontros
O próximo teste dessa relação pode acontecer em Shenzhen, no sul da China. A cidade receberá, em novembro, a reunião de líderes da Apec, que reúne 21 economias da Ásia-Pacífico. Durante a visita de Wang, Pequim informou que está considerando a realização de uma reunião entre Xi Jinping e Lee Jae-myung à margem da cúpula. A possibilidade ainda não foi oficialmente confirmada.
Um encontro em Shenzhen seria uma oportunidade para consolidar a reaproximação entre Pequim e Seul e discutir tanto a agenda econômica quanto a situação da península. Para a China, também representaria mais um passo na reconstrução de uma relação com um importante país asiático em meio à disputa estratégica com Washington.
A visita de Wang Yi não elimina as diferenças entre China e Coreia do Sul, nem resolve a questão coreana. Mas mostra que os dois países voltaram a investir em canais de diálogo e que há interesse dos dois lados em preservar a cooperação econômica, apesar das divergências políticas e de segurança.
Se o encontro entre Xi Jinping e Lee Jae-myung for confirmado em novembro, Shenzhen poderá se tornar o próximo cenário dessa reaproximação — e mais um espaço de negociação sobre os rumos da Ásia em meio à disputa entre Washington e Pequim.
