LITERATURA E MEMÓRIA

Porto Alegre literária faz caminhada pelo Centro Histórico para lembrar Naziazeno, personagem de ‘Os Ratos’

Evento nesta sexta (21) termina na Assembleia Legislativa com diálogo sobre vida e obra de Dyonélio Machado

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Dyonélio Machado foi escritor, poeta, psiquiatra, jornalista e político
Dyonélio Machado foi escritor, poeta, psiquiatra, jornalista e político | Crédito: Reprodução

O 2º Dia de Naziazeno será lembrado nesta sexta-feira (21), em Porto Alegre. É um evento literário dedicado ao personagem principal de “Os Ratos”, uma das obras mais conhecidas do escritor e psiquiatra gaúcho Dyonélio Machado.

“Juntos, vamos percorrer o Centro Histórico, lendo o romance e passando pelos locais onde aconteceram os fatos envolvendo o personagem”, conta o professor e pesquisador literário Jonas Dornelles, um dos organizadores do evento, ao lado do movimento Salve Dyonélio, Urban Sketchers e Memorial Legislativo.

A caminhada sai do largo Glênio Peres às 17h30, percorrerá vários locais do Centro Histórico e, às 19h30, no Memorial Legislativo da Assembleia Legislativa, acontecerá um diálogo sobre a vida e a obra do escritor com os professores Cesar Guazelli, Jonas Dornelles e Luís Augusto Fischer.

O livro resgata as memórias da cidade, relembrando a histórica “odisseia de um dia” de um porto-alegrense angustiado por questões financeiras. Dyonélio conta os dramas do funcionário público Naziazeno Barbosa em busca de dinheiro. Tentou de tudo. Do diretor da repartição a colegas, agiotas, casas de penhores, amigos e bancos, apelou por empréstimo. Não conseguiu nada.

Sofreu, caminhou o dia inteiro, não fez o trabalho, tomou dezenas de cafezinhos. O dia ia avançando e nada de dinheiro. Considerado uma das obras mais importantes da segunda geração do modernismo no Brasil, o romance conduz o leitor por essa busca quase sufocante de Naziazeno por uma saída.

Por fim, Naziazeno consegue o dinheiro, mas não consegue dormir. Lembra que precisa pagar a quem lhe forneceu o valor. Numa noite em que não prega o olho, começa a ter alucinações de que ratos estão roendo as cédulas que usaria para pagar o débito. Um périplo de dor e sofrimento.

“Os Ratos” tem 28 capítulos curtos e mostra toda a trajetória de um homem pobre na provinciana Porto Alegre de 1935. O livro completou 90 anos em 2025, mesmo ano dos 130 anos do nascimento de Dyonélio, e segue consultado, lido e estudado por estudantes e leitores em geral. Foi escrito em 20 noites, depois do trabalho do autor como médico.

Quando escreveu “Os Ratos”, Dyonélio mostrou os desafios e as agruras de ser um brasileiro pobre em 1935. O endividamento, o dinheiro curto e a dificuldade de encontrar uma saída atravessam a narrativa e fazem com que a angústia de Naziazeno ainda encontre eco na vida de muitos trabalhadores. São 192 páginas acompanhando uma busca desesperada por dinheiro e deixando o leitor na torcida por um desfecho favorável.

Vida do escritor

Natural de Quaraí, onde nasceu em 21 de agosto de 1895, Dyonélio morreu em Porto Alegre em 19 de junho de 1985. Escreveu 12 livros ao longo da trajetória como escritor, entre 1927 e 1982. E tinha uma vida bastante ocupada.

Foi escritor, poeta, psiquiatra, jornalista e político, além de comunista, como não cansava de dizer. Foi preso por causa dessa opção política e ficou cerca de dois anos na cadeia durante o governo de Getúlio Vargas. Entre tantas atividades, a literatura acompanhou boa parte da vida. Outro livro conhecido do autor foi “O louco do Cati”, escrito em 1942.

Parceria com o Memorial Legislativo

O 2º Dia de Naziazeno será realizado em parceria com o Memorial Legislativo, local que preserva a memória da atuação de Dyonélio Machado como deputado estadual. Fatos da atuação política, assim como outras histórias da biografia do escritor, também serão contados nos locais onde aconteceram.

O Memorial foi inaugurado em 2010, após a retomada do antigo casarão rosado, sede da Assembleia Legislativa desde 1835. Foi reformado e adequado para abrigar os acervos históricos permanentes do Poder Legislativo e tem por objetivo tornar-se um centro de referência da história da instituição, garantindo a preservação, a conservação e o acesso à memória política do Rio Grande do Sul.

É uma instituição pública vinculada à Assembleia Legislativa do RS. Os arquivos estão divididos em três sistemas: Multimeios, Administrativo e Legislativo, que contam a trajetória do Legislativo.

A Assembleia Legislativa tem 191 anos. Foi instalada oficialmente em 20 de abril de 1835, no começo do período imperial, sob o nome de Assembleia dos Representantes da Província de São Pedro.

Casa de Dyonélio

A preservação da casa do escritor Dyonélio Machado, na rua Souza Doca, 131, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, continua envolvida em grande polêmica. A prefeitura autorizou obras no interior da residência em 2025, em um projeto contestado por defensores da preservação do imóvel.

Jonas Dornelles, um dos que lutam pela preservação das características originais da casa e pela transformação do local em um espaço dedicado ao escritor, integra o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural (Compahc). Segundo Dornelles, o assunto está parado.

“Já faz mais de um mês que discutimos o assunto e não houve mais encontros. Pedimos vista do processo e não chamaram a reunião seguinte. Os encontros deveriam ser semanais. Junto disso, a prefeitura protocolou um pedido para a Justiça ignorar a manifestação do Compahc, o que é um absurdo completo. Parece que o Conselho está esperando o juiz se manifestar sobre esse pedido da prefeitura”, informou.

Editado por: Marcelo Ferreira

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