Crise interna

Zelensky sob ameaça: entenda a disputa de forças por trás do movimento que pede eleições na Ucrânia

Ex-ministro da Defesa ucraniano pede eleições, enquanto, nas pesquisas, Zelensky perde em qualquer cenário de 2º turno

No audio source provided.
Manifestantes se reúnem durante um protesto contra a decisão do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, de demitir o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, em Kiev, em 16 de julho de 2026
Manifestantes se reúnem durante um protesto contra a decisão do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, de demitir o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, em Kiev, em 16 de julho de 2026 | Crédito: Tetiana Dzhafarova / AFP

Assessor do gabinete da presidência da Ucrânia, Mykhailo Podolya declarou nesta quinta-feira (20) que o país não pode realizar eleições devido a uma proibição legal. A afirmação acontece em meio ao apelo do ex-ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, por novas eleições no país, feito em meio a duras críticas ao atual presidente, Volodymyr Zelensky.

“Qualquer participante no processo político tem o direito de se manifestar, não apenas Fedorov. Mas os obstáculos à campanha eleitoral aumentaram, […] é impossível garantir a segurança das eleições. E a proibição legal continua em vigor”, disse Podolyak, em entrevista ao jornal italiano Repubblica.

Na quarta-feira (19), o ex-ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, afastado do cargo por Zelensky em julho, publicou um pronunciamento declarando que a Ucrânia deve realizar novas eleições presidenciais, mesmo durante a guerra. Ele pediu a busca por um “mecanismo legal, seguro e realista” que permita à Ucrânia “retomar um processo democrático pleno, mesmo em meio à guerra em curso”.

O mandato de Zelensky expirou em 20 de maio de 2024. Mas, de acordo com a Constituição ucraniana, as eleições, incluindo as presidenciais e parlamentares, podem ser suspensas enquanto houver uma lei marcial declarada no país. O dispositivo foi acionado na Ucrânia em fevereiro de 2022, logo após o início da guerra, e é regularmente prorrogado.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor do Instituto Ucraniano de Política, Ruslan Bortnik, aponta que a declaração de Fedorov representa “uma tentativa de pressionar o presidente ucraniano” e de se colocar como uma alternativa política para o futuro.

“É uma ameaça ao atual presidente, visto que ele decidiu demitir Fedorov, apesar de toda a pressão das ruas e da comunidade internacional, e se recusou a reintegrá-lo ao cargo de ministro da Defesa. Mas qual o papel disso? Não descarto a possibilidade de que a declaração de Fedorov, sendo bastante inesperada, possa ser uma tentativa de se posicionar como um político independente e de oposição. Afinal, a insatisfação com o governo está crescendo gradualmente na sociedade ucraniana, e o número de pessoas que apoiam a realização de eleições mesmo em tempos de guerra está aumentando”, afirmou.

A movimentação política de Fedorov acontece enquanto pesquisas mostram que hoje, em uma eventual eleição, Zelensky perderia no segundo turno. De acordo com levantamento realizado pelo Centro Soci entre 28 de julho e 2 de agosto, Volodymyr Zelensky aparece na liderança de um eventual primeiro turno, com 22,3%, seguido de perto pelo ex-comandante das Forças Armadas e atual embaixador no Reino Unido, Valerii Zaluzhnyi, com 21,4%, enquanto o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov aparece em terceiro, com 13,1%.

No entanto, Zelensky seria derrotado pelos três principais adversários nos cenários de segundo turno testados pela pesquisa. Zaluzhnyi obteria 66,2% contra 33,8% de Zelensky; Kyrylo Budanov, chefe do gabinete presidencial, venceria por 60,3% a 39,7%; e Fedorov por 63,8% a 36,2%.

“As pesquisas sociológicas mais recentes mostram que o atual presidente perderia no segundo turno para seus principais oponentes em caso de eleições presidenciais. O partido do presidente, que tem uma pequena maioria no parlamento, tem pouquíssimas chances de vencer as eleições, e, muito provavelmente, a coalizão parlamentar será diferente. Por isso, o apelo por eleições é, na verdade, um apelo para enfraquecer Zelensky”, analisa Bortnik.

Em 14 de julho, Mykhailo Fedorov, que agora pede eleições, foi destituído da posição de chefe do Ministério da Defesa da Ucrânia, em parte devido a um conflito com Oleksandr Syrsky, o então cargo de Comandante-Chefe das Forças Armadas do país. Em 16 de julho, começaram os protestos nas cidades ucranianas contra a renúncia de Fedorov do cargo.

Nesse cenário, Fedorov é considerado o político com maior índice de popularidade na Ucrânia. De acordo com o cientista político Ruslan Bortnik, a projeção do ex-ministro da Defesa está interligada com uma maior demanda da população por eleições no país.

“Hoje já cerca de metade da população apoia a realização de eleições mesmo em tempos de guerra. E Fedorov tornou-se agora o político ucraniano mais proeminente a defender publicamente essa realização. Isso poderia ajudá-lo a reunir em torno de si o eleitorado de protesto e as posições daqueles que atualmente compartilham da mesma opinião”, acrescenta o analista.

Reação do Kremlin

Ao comentar as movimentações políticas internas da Ucrânia, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou nesta quinta-feira (20) que “o cenário político paralelo do regime de Kiev é diverso, e os apelos do ex-ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, por eleições são apenas uma parte disso”.

“O regime de Kiev e esse cenário político paralelo do regime de Kiev são muito, muito diversos. Vemos que muitos ali estão, naturalmente, tentando tirar proveito da situação. Alguns tentam invocar a democracia, as normas democráticas, enquanto outros nem sequer tentam”, declarou.

Já o representante especial da presidência russa para Investimentos e Cooperação Econômica com Países Estrangeiros, Kirill Dmitriev, disse que o ex-ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, desafiou o presidente ucraniano ao pedir eleições no país.

Em dezembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma declaração dizendo que deveriam ser realizadas eleições na Ucrânia. Ele chegou a declarar anteriormente que Zelensky era “ditador”, destacando a queda no seu índice de popularidade. Kiev respondeu declarando-se pronta para realizar a votação, mas somente se Washington e seus aliados europeus garantissem a segurança do país durante o processo eleitoral.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter