Crises hídricas

Bacia do Paraíba do Sul, que abastece 20 milhões, pode enfrentar secas sete vezes mais severas até o fim do século

Estudo aponta estiagens futuras mais espaçadas, porém duradouras, exigindo investimentos contínuos e maior planejamento

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Rio Paraíba do Sul (RJ) - Foto: Zig Koch / Banco de Imagens ANA
Rio Paraíba do Sul (RJ) | Crédito: Zig Koch /ANA

Menos frequentes, mas mais severas e mais longas, essas são as projeções para as próximas secas na Bacia do rio Paraíba do Sul, que abastece cerca de 20 milhões de habitantes, concentrados principalmente entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo, aponta estudo detalhado em artigo publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos nesta sexta-feira (21).

O artigo aponta que, em um cenário climático intermediário, haverá um salto de duração da estiagem na sub-bacia do Paraibuna, passando de cerca de oito meses para mais de dois anos contínuos até o fim do século. Já a severidade dos eventos pode chegar a aumentar sete vezes. Na sub-bacia de Santa Cecília, em Barra do Piraí (RJ), a estação de transferência de água para o Rio de Janeiro, que tem uma média histórica de severidade de 7,9 pontos, pode disparar para 58 no cenário climático mais pessimista.

“Esse achado é preocupante porque, a partir do momento em que você tem secas mais espaçadas, a memória do poder público para as políticas públicas costuma ser um pouco mais curta. E a gente fica com a preocupação de que, com a passagem do tempo, a gente esqueça do evento passado. Essa tendência gera um alerta de que a gente precisa começar a olhar para isso com outros olhos. A gente precisa aproveitar os períodos mais tranquilos, que inclusive vão ser maiores, para que a gente se prepare o máximo possível”, analisa um dos autores, Lucas Almeida.

O estudo, que envolveu a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), estabeleceu um Índice de Representação de Secas, o Drip, metodologia desenvolvida pelos próprios autores e aplicada aqui, pela primeira vez, à Bacia do Paraíba do Sul, reduzindo as incertezas climáticas em até 70%. Resumidamente, o método priorizará os dados de estresse e não apenas os índices pluviométricos.

A Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul cobre 62.074 km² e abrange 184 municípios, atendendo cerca de 20 milhões de pessoas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os seus reservatórios do Alto Paraíba do Sul, Paraibuna, Santa Branca e Jaguari abastecem boa parte da região metropolitana do Rio de Janeiro, além de uma ligação com o Sistema Cantareira, que atende a região metropolitana de São Paulo.

Em um intervalo de 15 anos, a região Sudeste enfrentou duas grandes secas, entre 2001 e 2003 e entre 2014 e 2015, esta última o período mais seco desde 1931. Este ano, o cenário também é crítico, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que aponta o 11º menor volume desde 1998 para o dia 19 de agosto.

Entre os anos de 2013 e 2015, a ANA, apesar da necessidade de racionamento, conseguiu um regramento com revezamento de reservatório, inclusive com interligação entre o sistema do Paraíba do Sul e o Cantareira, que abastece a região metropolitana de São Paulo. Para Almeida, a ação coordenada funcionou, mas é preciso pensar em soluções mais perenes. “O sistema funciona como se fosse uma caixa d’água. Se parar de chover por um longo período, eu vou primeiro consumindo essa caixa d’água. Mas eu tenho um período ali de água sobressalente. Então a gente consegue definir um regramento para esse ambiente regulado”, aponta, destacando que ainda há necessidade de investimento em infraestrutura hídrica e soluções de reuso de água, entre outros arranjos.

Esse revezamento dos reservatórios já vem acontecendo atualmente, mas para épocas críticas. Em junho deste ano, a Sabesp recebeu aval para captar água da Bacia do Paraíba para amenizar os efeitos da seca no Cantareira, que está com o seu menor nível dos últimos dez anos. Esse empréstimo só foi possível após um acordo firmado recentemente entre os três estados por onde passa o rio, envolvendo a ANA.

“Nosso principal objetivo é conseguir conscientizar e trazer um pouco mais de luz para essa discussão no meio científico, no sentido de que a gente precisa começar a se preparar de alguma forma. A gente precisa aproveitar os momentos de tranquilidade, de clima bom, para começar a se preparar para possíveis eventos extremos que a gente, por condições do clima mesmo, a gente não consegue prever”, destaca Almeida.

Sobre os investimentos, em São Paulo, o Programa Rios Vivos, da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), é voltado à recuperação de cursos d’água e melhoria ambiental. Um balanço de 2025 apontava que foram investidos R$ 253 milhões em desassoreamento de rios em 160 cidades, garantindo resiliência hídrica.

No Rio de Janeiro, o Comitê Guandu-RJ prevê a aplicação de aproximadamente R$ 108 milhões ao longo de 2026, incluindo conservação ambiental.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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