resultados do saeb

Educação é um processo cumulativo e avaliações, muitas vezes, desconsideram esse fato, diz professor

Daniel Cara observa que avaliações de aprendizagem, na maior parte das vezes, não contemplam o todo

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Projeto Nossa Vez leva preparação gratuita para o Enem a estudantes da rede pública de Brazlândia
Desempenho dos alunos depende de diversos fatores sociais e escolares | Crédito: Divulgação/Projeto Nossa Vez

Menos de um em cada dez estudantes da rede pública termina o ensino médio com aprendizagem adequada em matemática, segundo estudo do Todos Pela Educação divulgado na quinta-feira (20). A pesquisa analisou os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) entre 2005 e 2025 e mostra que a aprendizagem avançou em duas décadas, mas a melhoria perde força conforme os alunos progridem na trajetória escolar.

No ensino médio, o percentual com desempenho adequado em matemática passou de 5,2% para apenas 8,5% em 20 anos. Na outra ponta, 58,6% concluíram essa etapa abaixo do nível básico na disciplina. Em língua portuguesa, 35,2% dos estudantes do ensino médio atingiram a aprendizagem adequada, enquanto 31,2% ficaram abaixo do básico.

Os melhores resultados aparecem no 5º ano do ensino fundamental. Em 2025, 60,7% dos alunos tinham aprendizagem adequada em português e 50,6%, em matemática. Essa foi a única etapa que já superou os níveis anteriores à pandemia. No 9º ano, o desempenho adequado cai para 38,3% em português e 18,8% em matemática.

O novo Plano Nacional de Educação prevê que, até 2036, não haja estudantes abaixo do nível básico e que a aprendizagem adequada chegue a 80% no ensino médio.

O colunista de educação Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), destaca que os resultados melhores no ensino fundamental são resultados do que foi determinado na Constituição de 1988, quando a alfabetização foi priorizada.

Para ele, o mais importante é refletir sobre o que significa qualidade de educação. “[O resultado] reflete o que o Brasil vem fazendo. Agora, não se trata de qualidade da educação. Vou dar um exemplo: o Brasil tem cidades com bom desempenho nos anos iniciais do Saeb, mas que vivem um problema enorme de violência. Os estudantes que passaram por essas cidades no ensino fundamental, por exemplo, hoje acabaram integrando organizações criminosas”, explica ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Cara reforça que, em muitos casos, alunos são treinados para responderem a esse tipo de avaliação e, por isso, questiona a validade das métricas. “Acaba sendo um aprendizado mimético. Responder a uma prova é fácil. Difícil é dominar aquilo que está sendo a matéria, a disciplina que está sendo testada na prova”, resume.

Sobre a disparidade entre ensino fundamental e ensino médio, Daniel Cara avalia que a educação é um processo cumulativo, mas não linear, e o desempenho dos alunos depende de diversos fatores sociais e escolares. O investimento em uma única etapa, como a creche ou a alfabetização, não garante bons resultados nas etapas seguintes. É necessário assegurar qualidade e acompanhamento ao longo de toda a trajetória escolar, do ensino infantil à pós-graduação.

“É preciso se preocupar com a formação do aluno, e o Brasil acaba focalizando só numa etapa. Isso ocorre tanto em termos de financiamento como na forma como os municípios organizam o orçamento público, na maneira como o governo federal comunica aos municípios a importância da alfabetização. E a gente está cometendo um erro, até porque a nossa população vai envelhecendo muito rápido”, argumenta.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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