Desde o assombro que foi o lançamento de “Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil” em 2017, os nomes de Tatiana Sager e Renato Dornelles entraram para a história da cinematografia nacional. De lá para cá, a dupla de realizadores gaúchos consolidou uma obra documental dedicada a retratar o sistema carcerário brasileiro, “que expõe falhas nas engrenagens, denuncia uma política do aprisionamento em massa”, e a “dar um rosto e voz a personagens marginalizados pela sociedade”, conforme a justificativa do Prêmio Destaque Iecine que será entregue a eles na noite desta sexta-feira (21), no Palácio dos Festivais, na Serra gaúcha.
A cerimônia ainda terá homenagens a Márcio Reolon e Filipe Matzembacher com o Prêmio Iecine na categoria Inovação e Gisele Hiltl a categoria Legado, além da entrega do Prêmio Leonardo Machado à atriz e produtora cultural Silvia Duarte. Nesta noite, a partir das 20h, também serão conhecidos os vencedores da Mostra Sedac Iecine de Longas Gaúchos do 54º Festival de Cinema de Gramado, atração que tem como último concorrente nesta tarde o título “Filhas da Lua”, dirigido por Tatiana, com Renatinho no roteiro e produção. A exibição ocorre a partir das 14h, no Palácio dos Festivais (Av. Borges de Medeiros, 2.697, Centro de Gramado/RS), com entrada gratuita.
A coprodução entre Panda Filmes, Falange Produções e Cabíria Filmes traz a trajetória de resiliência de quatro travestis que, após sobreviverem ao sistema prisional, buscam superar diversos obstáculos em busca de uma mudança de fase em suas vidas. Com um olhar preciso e delicado, o filme dá continuidade à sua investigação sobre o cotidiano dos presídios no Estado e fala de uma população marginalizada a partir de histórias e dramas pessoais.
Nesta edição do evento do qual eles já participaram anteriormente, em outros anos, porém, a evidência da maturidade do trabalho da dupla oriunda do Jornalismo se comprova. A aproximação natural que havia entre colegas de profissão se intensificou resultando numa parceria profícua de quase 20 anos utilizando o audiovisual como ferramenta de visibilidade para pautas sociais. Depois de todo esse tempo dividindo tantos trabalhos, é possível constatar que os dois se comunicam pelo olhar, durante as entrevistas e debates.
“Em 1994, eu era repórter da Zero Hora; e a Tatiana era fotógrafa do Correio. Ali, já éramos amigos e sentimos que os dois tinham uma paixão por essa questão prisional, pela questão do crime organizado, que estava recém surgindo naquela época. Mas depois ela foi para a Europa e perdemos o contato”, conta Dornelles.
Eles se reencontraram em 2008, quando o escritor fazia a divulgação da obra “Falange Gaúcha – a história do Crime Organizado no RS”. Tati relembra: “Fui no lançamento, comprei três exemplares: um para mim, um para minha irmã, que é jornalista também, e o outro para o Léo Sant’Anna, que trabalha conosco até hoje. Eu li naquela noite mesmo. No dia seguinte, liguei para ele e disse que queria os direitos desse livro”.

Foi assim que começou essa trajetória que hoje culmina em cerca de 14 projetos em desenvolvimento, incluindo curtas, longas, séries e produções audiovisuais de diferentes formatos. Entre eles, está a série documental “Vozes e Territórios”, produzida pela Panda Filmes em parceria com o Brasil de Fato. Focada em retratar a negritude, os quilombos e as tradições da religiosidade afro-brasileira no Rio Grande do Sul está prevista para estrear em novembro.
Na Mostra de Curtas Gaúchos, eles foram selecionados com “O Retorno”, com direção e roteiro de César Meneghetti e Mario Gianni. Renato Dornelles assina esta produção da Falange que promove a volta do fotógrafo italiano, após 40 anos, à Amazônia para cumprir uma promessa feita aos Yanomami: projetar seu filme na aldeia.
Os dois cineastas ainda integram a equipe de “GRENAL – O Maior Clássico das Américas”, documentário com produção do Rio de Janeiro que foi projetado fora de competição, como atração paralela à programação do festival.
Um marco para o cinema gaúcho e também brasileiro

Em entrevista, Tatiana Sager admitiu que jamais imaginaria a repercussão que “Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil” (2017) acabou tendo. O título foi um fenômeno de crítica, mas também de público.
“Em 2017, foi o documentário mais assistido no cinema brasileiro durante duas semanas. Foi o filme brasileiro mais visto em cinemas, incluindo os de ficção, durante as duas semanas em que esteve em cartaz, só ficava atrás de Hollywood. Eu até tive trabalho na época de olhar. Eram 15 estreias de estúdios de Hollywood, o décimo sexto era o Central”, narra Renato Dornelles. “Mas ele fez 17 mil espectadores. E 17 mil ingressos no gênero documentário é muita coisa”, avalia Tati.
A diretora lembra que tinha como referência a obra “O prisioneiro da grade de ferro” (2003), de Paulo Sacramento, para o longa. Como ela já trabalhava com Cinema antes, Renatinho confessou que ficava receoso de ser chamado de cineasta, mas depois do sucesso do primeiro filme e seguir trabalhando na área direto sem parar, nem mesmo durante a pandemia, acabou aceitando o título.
“Foi modificando um pouco o trabalho, o formato, as formas de contar as situações. Mas eu ainda me acho uma jornalista que faz grandes reportagens, que tenta fazer cinema. A gente morre de medo de errar”, conclui Tatiana.
Tintas de vermelho e azul para compreender o clássico gaúcho

Com sala cheia no Hotel Serra Azul, centro de eventos paralelos do 54º Festival de Cinema de Gramado, o documentário esportivo “GRENAL – O Maior Clássico das Américas” foi exibido em sessão especial no fim da tarde de quinta-feira (20). A produção de Belisario Franca, um dos maiores documentaristas do País, e Tatiana Sager (chamada por ele para compor a equipe), com direção adicional de Renato Dornelles, ainda teve roteiro do também gaúcho Leo Garcia.
“Tivemos muito cuidado com todas essas características locais, com a responsabilidade de estar tratando de um assunto tão importante como o Grenal para vocês. Eu, como carioca, torcedor do único Tricolor, como Nelson Rodrigues já falava, Fluminense de Laranjeiras, aprendi a respeitar e admirar ambos os clubes: o Grêmio e o Internacional”, afirmou Belisario.
Em uma edição fria, com salas da noite do Palácio dos Festivais esvaziadas durante a projeção dos documentários nacionais, e as tardes igualmente com pouca ocupação para assistir a mostra de longas gaúchos, o público em uma atração paralela realmente surpreendeu. Inclusive, perante às próprias atividades do Conexões Gramado Film Market, que ocuparam aquele salão nos últimos dias.
As paixões alvirrubras e tricolores ocuparam assento na atividade para ver seus ídolos em tela. Tatiana agradeceu, disse que foi uma honra gigante ter a oportunidade de trabalhar com Belisario e que foi um prazer fazer o filme.
