Um homem sem braços escreve bilhetes com os pés. Uma menina negra é exibida mediante pagamento. Uma vidente promete “farejar segredos”. Na praia do Flamengo, uma jovem se recusa a esconder os pés que considera os mais bonitos da região. Quando chove, moradores de bairros elegantes comparam a travessia da lama à passagem bíblica do Mar Vermelho.
Não são personagens de um conto fantástico. Esse também era o Rio observado por Machado de Assis.
Costumamos procurar a cidade machadiana no Morro do Livramento, no Campo de Santana, na Rua do Ouvidor, no Flamengo ou no Cosme Velho. Mas os endereços são apenas a camada mais visível de sua cartografia. O Rio que Machado transformou em literatura era também uma forma de viver em sociedade: observar e ser observado, aparentar, ascender e administrar a própria reputação.
Por isso, a cidade nunca funciona apenas como cenário. Em Dom Casmurro, Bento Santiago encontra no movimento do mar a imagem para explicar os olhos de Capitu. A paisagem invade a psicologia da personagem. Ruas, casas, praias e salões também determinam encontros, hierarquias e vaidades.
Às vezes, porém, a realidade carioca parecia mais extravagante que a ficção. Em Miss Dollar, Mendonça mantém cães chamados Diógenes, César, Nélson, Cornélia e Calígula e, cercado por eles, imagina estar “entrando na história”. Nas crônicas, Machado registraria personagens ainda mais insólitos.
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Sir Nathan Burraw, apresentado como o Anão da Libéria, não tinha braços e escrevia com os pés. A chamada Negrinha-Monstro era exposta mediante pagamento. A Dama Locatelli mantinha um consultório na Rua do Espírito Santo onde prometia prever o futuro, localizar objetos perdidos e descobrir segredos. O extraordinário virava mercadoria; a curiosidade, negócio.
A vaidade aparecia em escala menor, mas não menos reveladora. Em 1861, Marcelina recusava sapatos de banho na praia do Flamengo porque não admitia esconder aqueles que julgava serem os pés mais graciosos do lugar. Não bastava possuir belos pés. Era preciso que fossem vistos.
Muito antes da “economia da atenção”, Machado percebera uma sociedade em que identidades eram construídas sob o olhar dos outros.
Até a lama participava dessa comédia. Em dias de chuva, Laranjeiras e Cosme Velho tornavam-se tão difíceis de atravessar que o caminho até o Largo do Machado era comparado à passagem do Mar Vermelho.
Esse Rio de carruagens desapareceu. As ruas continuam a conhecer a lama, e as videntes, embora menos numerosas, ainda encontram quem as consulte. O que certamente permanece é o mecanismo humano que Machado descobriu por trás de tudo isso. A Rua do Ouvidor perdeu sua condição de grande vitrine da reputação carioca; em compensação, hoje carregamos vitrines no bolso. Mudaram as tecnologias, mas permanecem a necessidade de parecer, a curiosidade pela vida alheia e o desejo de reconhecimento.
Machado encontrou na cidade um laboratório para observar vaidade, interesse, medo do ridículo, ambição e necessidade de aprovação. Percorrer seu Rio é, portanto, realizar uma arqueologia moral: sob a cidade desaparecida surgem comportamentos que continuam entre nós.
Por isso Machado permanece tão contemporâneo. Abrimos seus livros esperando visitar o século 19 e encontramos pessoas preocupadas com aquilo que os outros pensam delas, fascinadas pelo espetáculo e empenhadas em construir versões públicas de si mesmas.
Pensávamos estar olhando para uma cidade morta.
Machado, do outro lado do espelho, ainda está olhando para nós.
*C.S. Soares é escritor e biógrafo, autor de Machado: O Filho do Inverno, obra que revela o Machado de Assis negro que o país tentou esquecer. Acompanhe seu trabalho em cssoares.online e nas redes sociais: @cssoaresonline.
****Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
