Um grupo de cerca de 100 ex-diplomatas e embaixadores da França e do Reino Unido publicaram, nesse sábado (22), uma carta no jornal francês Le Monde em que condenam a “limpeza étnica” realizada por Israel na Palestina. Eles defendem uma atuação coordenada dos dois países para fazer cumprir o direito internacional na Palestina e evitar acusações de “dois pesos e duas medidas”.
Entre essas medidas estão o apoio e a aplicação das decisões da Corte Internacional de Justiça (CIJ) e do Tribunal Penal Internacional (TPI); a suspensão dos acordos comerciais da União Europeia e do Reino Unido com Israel em razão de violações de direitos humanos; um embargo às transferências de armas e o fim da cooperação militar bilateral; a garantia de acesso irrestrito de ajuda humanitária a Gaza, além da entrada de jornalistas, diplomatas e parlamentares; e a proibição do comércio com os assentamentos israelenses, incluindo investimentos, seguros e serviços financeiros.
A carta também propõe medidas contra investidores e instituições que financiem ou construam assentamentos em territórios ocupados, incluindo restrições financeiras, criminalização da compra de propriedades em terras palestinas confiscadas e retirada do status filantrópico de organizações que financiem colônias.
Embora França e Reino Unido tenham reconhecido o Estado da Palestina em 2025, os signatários afirmam que é urgente transformar esse reconhecimento em medidas concretas diante das políticas do governo israelense, que, segundo eles, procuram inviabilizar a criação de um Estado palestino independente e demonstram desrespeito às decisões da CIJ e às resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Os autores também defendem reformas democráticas na liderança palestina e a reunificação política e econômica de Gaza e da Cisjordânia por meio de eleições.
Os diplomatas condenam o ataque realizado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, mas afirmam que esses atos não justificam a destruição sistemática de Gaza por Israel. O grupo critica ainda a concepção defendida por Benjamin Netanyahu de que Israel deve “viver pela espada”, argumentando que essa política compromete a própria segurança israelense, destrói as condições para futuras negociações e enfraquece a imagem de Israel como uma democracia.
A carta menciona mais de 1,2 mil palestinos mortos em Gaza desde o cessar-fogo de outubro de 2025 e afirma que, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a violência de colonos e as demolições de casas configuram uma política de “limpeza étnica”. Segundo os signatários, a política de ocupação e destruição também se estende ao Líbano e à Síria.
Pressão brasileira
Na última quinta-feira (20), o governo brasileiro divulgou uma nota à imprensa em que classifica como “flagrante violação de direito internacional” a construção de novo assentamento na região “E1”, entre Jerusalém Oriental e Jericó, na Cisjordânia ocupada. O comunicado ocorre após a publicação, em 18 de agosto, de edital de licitação para edificação de mais de 1,2 mil unidades habitacionais naquela região.
“Caso implementado o projeto, a Cisjordânia seria dividida em duas partes — Norte e Sul — e Jerusalém Oriental seria isolada do restante do território ocupado, ameaçando ainda mais a contiguidade territorial do Estado da Palestina e inviabilizando a solução de dois Estados”, diz um trecho da nota.
