Porto Alegre teve, na tarde desta sexta-feira (11), um cortejo de artistas e trabalhadores da cultura organizado para abrir o comício do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. A concentração começou às 15h45, em frente à Casa de Cultura Mário Quintana, no Centro Histórico. Às 17h, a caminhada seguiu até o Largo Glênio Peres, ao lado do Mercado Público, onde o presidente tem discurso previsto para as 19h.
É a primeira passagem de Lula pelo Rio Grande do Sul desde o início oficial da campanha. No palanque, estão previstos a candidata ao governo do estado, Juliana Brizola (PDT), o candidato a vice, Edegar Pretto (PT), e os candidatos ao Senado Paulo Pimenta (PT) e Manuela D’Ávila (Psol). Antes de chegar à Capital, Lula visitou o campus do Instituto Federal do Rio Grande do Sul em Viamão, inaugurado em maio, que atende 1,2 mil estudantes e tem 50 professores.
Uma boneca que troca de cartaz
Entre estandartes e instrumentos de percussão, uma boneca de pano chamava atenção. Quem a carregava era Isabela Lacerda, professora aposentada que confecciona bonecos para manifestações. A peça tem quase uma década de ruas. “Essa boneca é uma antiga bonequinha que eu fiz quando o Temer assumiu o poder do país, ou seja, desde o golpe contra Dilma. Ela já saiu em inúmeras passeatas, por várias motivações políticas, e vai mudando de cartaz conforme a temática”, contou.

O cartaz desta sexta-feira, segundo ela, trata do que considera o risco de uma vitória da família Bolsonaro, representada na disputa pelo senador Flávio Bolsonaro (PL). “Esse que eu trago agora é contra o verdadeiro perigo que a gente corre com o Bolsonaro eleito”, afirmou. Para a professora, o candidato representa “os interesses dos Estados Unidos, do Trump, que está a fim de tomar o poder de toda a América Latina”. “A gente tem que temer que haja uma intervenção direta ou indireta. A indireta já está acontecendo nas eleições do Brasil”, disse.
A soberania nacional tem aparecido nos discursos do próprio presidente. Na quarta-feira (9), em comício em Teresina, Lula afirmou que “Donald Trump deve se ocupar de seu próprio país” e disse que a eleição vai definir “se haverá democracia e respeito ao povo brasileiro”.
Como professora, Lacerda relaciona a presença da educação e da cultura na campanha à forma como a população se informa. “O que falta para a população é educação e cultura, porque, se assim não fosse, ela não seria engambelada pelos meios de comunicação hegemônicos, hereditários, como são”, avaliou.
Ela admite a dificuldade no convencimento cotidiano. “Às vezes eu tento conversar com as pessoas e não sou muito boa, porque fico muito braba e acabo sendo agressiva de um jeito que não gosto de ser, não quero ser e que não adianta ser”, relatou.
Bordado feito a várias mãos
Outra peça que circulou no cortejo foi uma faixa bordada pelo coletivo Linhas de Poa. A autora da ideia, Marilene Veiga de Oliveira, conta que se inspirou nos desenhos do cartunista Nando Motta, conhecido pelas caricaturas de Lula. “Eu pedi para ele se podia fazer uma faixa usando o desenho dele. Ele disse que claro, que não tinha dúvidas, que eu podia fazer”, lembrou.
A montagem começou na semana passada. “Fiquei o tempo todo organizando, colando, fazendo as letras. E depois, no sábado seguinte, nós levamos para a Casinha Caponto, que é um lugar onde a gente se reúne, e todas as mulheres que estavam ali bordaram. Foi uma experiência maravilhosa”, disse. Segundo ela, seis ou sete mulheres trabalharam na faixa.
A frase bordada, “só mais um Silva”, vem do funk “Rap do Silva”, sucesso nos anos 1990 na voz de Bob Rum, e faz referência ao sobrenome do presidente. “Ele é só mais um Silva, como tantos outros de nós mesmos. Eu sou Oliveira, que é outro sobrenome comum no Brasil todo. Então, uma pessoa comum pode, sim, se tornar uma pessoa tão importante como ele, que já entrou para a história do Brasil”, explicou Oliveira.
O Linhas de Poa borda temas políticos em Porto Alegre desde 2021. Oliveira aprendeu a técnica com o Linhas de Sampa, coletivo paulistano do qual ainda faz parte. “Aqui a gente borda da nossa maneira, faz o trabalho da nossa maneira. Me dá uma alegria enorme poder tratar a política dessa maneira leve”, disse. Sobre a presença do setor na campanha, ela afirmou: “Nós temos que mostrar que a gente consegue fazer cultura, fazer uma eleição com alegria, sem mentiras, sem agressões”.
Do fomento emergencial ao ministério recriado
Para Mari Martinez, integrante do movimento Cultura com Lula por Todo o Brasil, a mobilização do setor começou antes da eleição de 2022. “A cultura foi uma das grandes articuladoras no momento da pandemia para a gente começar a virar o jogo e trazer à população a consciência da importância de exercer sua cidadania para eleger Lula presidente novamente”, afirmou.
Em 2020, com teatros, casas de show e espaços culturais fechados pela pandemia, o Congresso Nacional aprovou a Lei Aldir Blanc, que destinou R$ 3 bilhões em auxílio emergencial ao setor. Dois anos depois, deputados e senadores aprovaram a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, vetadas pelo então presidente Jair Bolsonaro sob o argumento de impacto nas contas públicas. O Congresso derrubou os dois vetos em julho de 2022.
O Ministério da Cultura havia sido extinto em janeiro de 2019, no primeiro dia do governo Bolsonaro, que reduziu o número de ministérios e transformou a pasta em secretaria especial, primeiro no Ministério da Cidadania e depois no Ministério do Turismo. Lula recriou o ministério em 1º de janeiro de 2023. “Um dos primeiros atos que o presidente realizou foi retomar o Ministério da Cultura, recriar o ministério, que havia sido extinto, e começar a reconstrução das políticas públicas. Não só a reconstrução em si, mas a do quadro de servidores e a da credibilidade com a população de que a cultura é um direito”, disse Martinez.
Ela citou o Rio Grande do Sul como exemplo dos resultados. “Foi um trabalho extenso durante esses quatro anos, de muita dedicação, que garantiu, por exemplo, que o Rio Grande do Sul recebesse em todos os seus municípios recursos para fomentar a cultura, beneficiar os artistas, mas, na verdade, beneficiar a população”, afirmou.
Os dados oficiais confirmam a abrangência. Os 497 municípios gaúchos aderiram ao segundo ciclo da Política Nacional Aldir Blanc, que vai de 2025 a 2029. No primeiro ciclo, entre 2023 e 2024, o estado recebeu R$ 151,5 milhões, sendo R$ 68,2 milhões para o governo estadual e R$ 83,4 milhões para as prefeituras. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o Rio Grande do Sul executou 94,2% dos recursos da Lei Paulo Gustavo, o equivalente a R$ 197,5 milhões.
“A cultura de novo está reunida com a missão de contribuir para a reeleição do presidente Lula e não permitir nenhum retrocesso. O Brasil está pronto para mais. A gente quer avançar ainda mais nas políticas culturais”, disse Martinez.
Apoio que vem de longe e olha para o Congresso
O comício atraiu eleitores de fora do Rio Grande do Sul. A servidora pública Carla Ferreira, de Belém, passava uns dias em Porto Alegre e decidiu acompanhar a caminhada. “Resolvi participar da manifestação de apoio à candidatura do Lula, porque acho fundamental. Hoje em dia todo mundo tem que se posicionar”, afirmou. “Faltam poucos dias para a eleição, e agora é o momento de dizer a que a gente veio: defender a democracia e defender o Lula de novo.”

Ao lado dela estava a aposentada Laid Carvalho Silva, nordestina que mora na capital paraense. Ela acompanhou pelo noticiário o ato de Teresina, que reuniu cerca de 50 mil pessoas, segundo o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e esperava ver algo parecido no Sul. “Eu tinha uma expectativa de que aqui é só bolsonarista, e, por onde a gente tem andado, a gente tem visto muito Lula. Isso me deixou mais feliz”, contou. Na avaliação dela, “Nordeste é Lula”, enquanto no Sul a disputa “fica difícil” fora da capital.
O retrato feito por Silva aparece nos números de 2022. No segundo turno daquele ano, Jair Bolsonaro venceu no Rio Grande do Sul com 56,35% dos votos válidos, contra 43,65% de Lula. Em Porto Alegre, o resultado se inverteu: Lula teve 53,3%. No Piauí, o petista obteve o maior percentual do país. Silva disse que a campanha é uma forma de impedir a volta da extrema direita ao governo. “O pouco que ficou foi uma devastação enorme. Estragou famílias e famílias. Foi muito triste”, afirmou.
A jornalista Vanusa Azevedo, coordenadora do BAC Mulher Porto Alegre, participou do cortejo como mulher negra e trabalhadora da cultura. Para ela, a presença do setor é um ato de “resistência”. “Este é um ano em que temos que estar atentos à próxima eleição. Então tem que ser Lula no primeiro turno, e não só Lula no primeiro turno: tem que ser o Congresso todo, toda a esquerda”, defendeu.
Questionada sobre o que enxerga no campo adversário, Vanusa respondeu com uma expressão: “todas as opressões”. E fez um apelo ao setor: “Fiquem atentos, pessoal da cultura, galera, fiquem atentos. É 13”.
Estado dividido nas pesquisas
Os levantamentos mais recentes indicam disputa apertada no Rio Grande do Sul. Pesquisa AtlasIntel divulgada em 3 de setembro, com 1.783 entrevistas e margem de erro de dois pontos percentuais, mostra Flávio Bolsonaro com 41,3% das intenções de voto no estado no primeiro turno e Lula com 39,7%, em empate técnico. Num eventual segundo turno entre os dois, o senador teria 50,4% entre os eleitores gaúchos, contra 42% do presidente. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob os números RS-00652/2026 e BR-08582/2026.
Depois de Porto Alegre, Lula segue a agenda no Sul com uma visita a Curitiba neste sábado (12) e, na sequência, a Florianópolis. O primeiro turno das eleições será em 4 de outubro.

