Após a repercussão da reportagem do Brasil de Fato sobre sua passagem pelo curso de direito na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), interrompida pela falta de assistência estudantil e adversidades que a colocaram em situação de rua, a jovem travesti Benedita Subrinho lançou um manifesto poético sobre suas vivências e uma campanha para ajudá-la a voltar a sonhar com a educação superior e novos rumos para a vida.
O manuscrito “Os Mistérios Dolosos de uma Travesti” é carregado de relatos e observações sobre as violências e enfrentamentos dela numa jornada de luta por sua identidade e vida digna.
Com experiência também nas artes cênicas, Benedita deve lançar uma série de vídeos baseada no conteúdo que produziu. Já a campanha para doações está disponível na plataforma Campanha do Bem, que também pode ser acessada pelo Instagram @legalmentetravesti. Atualmente, Benedita está desempregada e voltou a morar na casa da família, na zona rural de Caruaru.
É nessa localidade onde começam as primeiras vivências e traumas de Benedita, relatados no manuscrito. Foi lá onde viveu, no seio familiar, os primeiros atritos por sua dissidência de gênero. Um dos relatos aborda a compra de um fichário para estudo, objeto à época encarado como feminino.
(…) Foi o meu primeiro fichário. Final feliz? Teria sido se, no primeiro dia de aula, ao abri-lo, eu não desse fé de que minha mãe — a quem os olhos não deixavam passar uma tampa faltando de seus potes — tivesse tirado uma das divisórias. A segunda, só porque era da Minnie, rosa.
Fiquei paralisada olhando, imóvel. Senti uma porta fechando bem na minha cara, uma batida forte. Engoli minha voz, minhas lágrimas caíam como se o capim estivesse atravessando a forrageira. O som do motor era ensurdecedor.
Não foi uma divisória ali que foi arrancada. Foi um pedaço de mim — e era exatamente daquela parte onde, durante toda a minha infância, eram arrancados pedaços um a um, tão dolorosamente quanto os feixes de capim carregados debaixo do sol naquela serra.
O texto segue, entre relatos diretos e metáforas, passando por sua infância, em que a cis-hetero-normatividade impunha violências, as aulas de educação física e as tentativas de abusos na zona rural. Já na experiência com o teatro vieram os primeiros momentos de liberdade e expressão de sua identidade. “Quase como um parto sem uma criança chorando; ao invés disso, ao segurar o recém-nascido, ele sorri. Um presságio satânico. Eu estava viva! A sensação era boa pela primeira vez”, diz um trecho sobre sua experiência no palco.
Benedita também relata sua primeira experiência com o ensino superior quando tentou cursar educação física na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela relembra que, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), apenas 0,3% dos universitários brasileiros são pessoas trans. As dificuldades com a assistência estudantil e a luta contra o preconceito no dia a dia acadêmico levam-na a desistir do curso. Foi quando Benedita se viu diante da necessidade de recorrer à prostituição para se manter.
(…) Só me restava uma amiga entre dois coqueiros, um viaduto usado de escritório e segurados que contribuem para uma previdência com fundos infecciosos. É um real, é? Contabilizando meu segundo atentado, era hora de parar, e um chamado me fez lembrar que havia um lugar para voltar: o inferno!
O manifesto é concluído com a jornada de Benedita em Campina Grande (PB), quando ingressou no curso de direito da UEPB por meio de cotas destinadas a pessoas trans, onde buscava lutar pela criação de precedentes de uma “constituição da travestilidade”, mas precisou abandonar o curso após se ver em situação de rua. Ela segue com a repercussão da matéria do Brasil de Fato que relatou o episódio, quando passou a contar com manifestações de apoio que a estimularam a se empenhar na criação desse material e sua campanha.
(…) E eu não estou aqui pedindo, estou exigindo o meu direito, o qual inadequadamente possui um histórico de abusos constantemente. É hora de parar. Cabe reparação. Mulher de bigode nem o diabo pode. Eu o enganei. Oh pobre diabo. Amiga, eu sou muito feia? Eu ressuscitei no terceiro parto! A matéria saiu e, confusamente, surgiram em procissão os mais ardorosos devotos querendo me ajudar!
As doações também podem ser feitas por meio da chave Pix: [email protected]. Em breve, será disponibilizado um projeto visual para comercialização sobre os processos de construção de “Os Mistérios Dolosos de uma Travesti”.

