RELATO POÉTICO

Jovem travesti de Caruaru retrata, em projeto artístico, experiência de morar na rua enquanto cursava direito na UEPB

Após repercussão de reportagem do Brasil de Fato, Benedita Subrinho criou projeto 'Os Mistérios Dolosos de uma Travesti'

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Vivências de Benedita Subrinho são relatadas em projeto literário e audiovisual
Vivências de Benedita Subrinho são relatadas em projeto literário e audiovisual | Crédito: Gabriel Kim/Divulgação

Após a repercussão da reportagem do Brasil de Fato sobre sua passagem pelo curso de direito na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), interrompida pela falta de assistência estudantil e adversidades que a colocaram em situação de rua, a jovem travesti Benedita Subrinho lançou um manifesto poético sobre suas vivências e uma campanha para ajudá-la a voltar a sonhar com a educação superior e novos rumos para a vida.

O manuscrito “Os Mistérios Dolosos de uma Travesti” é carregado de relatos e observações sobre as violências e enfrentamentos dela numa jornada de luta por sua identidade e vida digna. 

Com experiência também nas artes cênicas, Benedita deve lançar uma série de vídeos baseada no conteúdo que produziu. Já a campanha para doações está disponível na plataforma Campanha do Bem, que também pode ser acessada pelo Instagram @legalmentetravesti. Atualmente, Benedita está desempregada e voltou a morar na casa da família, na zona rural de Caruaru.

É nessa localidade onde começam as primeiras vivências e traumas de Benedita, relatados no manuscrito. Foi lá onde viveu, no seio familiar, os primeiros atritos por sua dissidência de gênero. Um dos relatos aborda a compra de um fichário para estudo, objeto à época encarado como feminino.

(…) Foi o meu primeiro fichário. Final feliz? Teria sido se, no primeiro dia de aula, ao abri-lo, eu não desse fé de que minha mãe — a quem os olhos não deixavam passar uma tampa faltando de seus potes — tivesse tirado uma das divisórias. A segunda, só porque era da Minnie, rosa.

Fiquei paralisada olhando, imóvel. Senti uma porta fechando bem na minha cara, uma batida forte. Engoli minha voz, minhas lágrimas caíam como se o capim estivesse atravessando a forrageira. O som do motor era ensurdecedor.

Não foi uma divisória ali que foi arrancada. Foi um pedaço de mim — e era exatamente daquela parte onde, durante toda a minha infância, eram arrancados pedaços um a um, tão dolorosamente quanto os feixes de capim carregados debaixo do sol naquela serra.

O texto segue, entre relatos diretos e metáforas, passando por sua infância, em que a cis-hetero-normatividade impunha violências, as aulas de educação física e as tentativas de abusos na zona rural. Já na experiência com o teatro vieram os primeiros momentos de liberdade e expressão de sua identidade. “Quase como um parto sem uma criança chorando; ao invés disso, ao segurar o recém-nascido, ele sorri. Um presságio satânico. Eu estava viva! A sensação era boa pela primeira vez”, diz um trecho sobre sua experiência no palco. 

Benedita também relata sua primeira experiência com o ensino superior quando tentou cursar educação física na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela relembra que, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), apenas 0,3% dos universitários brasileiros são pessoas trans. As dificuldades com a assistência estudantil e a luta contra o preconceito no dia a dia acadêmico levam-na a desistir do curso. Foi quando Benedita se viu diante da necessidade de recorrer à prostituição para se manter. 

(…) Só me restava uma amiga entre dois coqueiros, um viaduto usado de escritório e segurados que contribuem para uma previdência com fundos infecciosos. É um real, é? Contabilizando meu segundo atentado, era hora de parar, e um chamado me fez lembrar que havia um lugar para voltar: o inferno!

O manifesto é concluído com a jornada de Benedita em Campina Grande (PB), quando ingressou no curso de direito da UEPB por meio de cotas destinadas a pessoas trans, onde buscava lutar pela criação de precedentes de uma “constituição da travestilidade”, mas precisou abandonar o curso após se ver em situação de rua. Ela segue com a repercussão da matéria do Brasil de Fato que relatou o episódio, quando passou a contar com manifestações de apoio que a estimularam a se empenhar na criação desse material e sua campanha. 

(…) E eu não estou aqui pedindo, estou exigindo o meu direito, o qual inadequadamente possui um histórico de abusos constantemente. É hora de parar. Cabe reparação. Mulher de bigode nem o diabo pode. Eu o enganei. Oh pobre diabo. Amiga, eu sou muito feia? Eu ressuscitei no terceiro parto! A matéria saiu e, confusamente, surgiram em procissão os mais ardorosos devotos querendo me ajudar!

As doações também podem ser feitas por meio da chave Pix: [email protected]. Em breve, será disponibilizado um projeto visual para comercialização sobre os processos de construção de “Os Mistérios Dolosos de uma Travesti”.

Editado por: Vinicius Sobreira

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