OS RASTROS DO ROMBO

Polícia Federal aponta prejuízo de R$ 17 bilhões em operações entre BRB e Banco Master

Investigação encontrou fluxo de R$ 12,2 bilhões e questiona origem de créditos adquiridos pelo banco público

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Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi
Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A investigação sobre as operações entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master aponta para um prejuízo de aproximadamente R$ 17 bilhões, considerando operações realizadas desde 2024. A informação consta no relatório produzido pela Polícia Federal no âmbito do Inquérito 5.026 e encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça. A quebra do sigilo ocorreu no último dia 10, a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.

O valor consta de decisão judicial do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), de 28 de novembro de 2025, que reproduz informações da apuração da Polícia Federal. O BRB é citado mais de 50 vezes no conjunto de documentos, que reúne mais de 2,5 mil páginas.

Segundo a decisão, as investigações partiram da identificação de um fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master nos primeiros meses de 2025, acima do limite de exposição do banco público. Entre as operações analisadas estão créditos inicialmente negociados entre o Master e a Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A. e posteriormente revendidos ao BRB, sem coobrigação.

Decisão aponta fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master e prejuízo estimado em R$ 17 bilhões
Decisão aponta fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master e prejuízo estimado em R$ 17 bilhões | Crédito: Reprodução/PF

A PF afirma que a Tirreno havia sido criada recentemente e apresentava indícios de inexistência fática. O controlador da empresa seria um ex-funcionário e parceiro de negócios do Master. Segundo a investigação, os direitos creditórios foram transferidos da Tirreno para o Master e, depois, para o BRB. Após questionamentos e auditoria do Banco Central, os ativos foram substituídos por outros também considerados de valoração questionável.

“Os direitos creditórios, que somam valores bilionários, teriam sido cedidos da Tirreno para o Master e, em seguida, do Master para o BRB. Adiante, após questionamentos e auditoria do Banco Central, foram substituídos por outros ativos também de valoração questionável”, afirma o documento.

Créditos vendidos

A apuração também questionou a origem de parte dos empréstimos consignados adquiridos pelo BRB. Em 5 de março de 2025, o Banco Master informou ao Banco Central que os créditos cedidos ao banco público tinham como originadoras a Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia (Asteba) e a Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia (Asseba).

Segundo a decisão judicial, os créditos envolviam CPFs de diferentes regiões do país, e não apenas da Bahia. Além disso, não foram identificadas movimentações financeiras das duas associações compatíveis com as cessões realizadas para o Master.

A investigação também aponta que o Master colocou no mercado títulos e carteiras de crédito considerados insubsistentes ou “podres”, vinculados a empresas de fachada ou fantasma. “A análise do balanço do Banco Master consolidada no Relatório policial indica que a instituição financeira emitiu aproximadamente R$ 50 Bilhões de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e CDIs (Certificados de Depósito Interbancário), entretanto, cerca de 12 bilhões estariam possivelmente descobertos, já que a carteira de ativos da instituição estaria lastreada majoritariamente em ativos de baixa liquidez”, destaca o documento.

Negociação

As operações financeiras ocorreram paralelamente à tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. O negócio foi anunciado em 28 de março de 2025, mas a PF encontrou conversas entre Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio, servidor do Banco Central, sobre a operação desde 2 de janeiro, quase três meses antes do anúncio.

A proposta previa que o BRB pagaria 75% do patrimônio líquido consolidado do Master. O valor, estimado em R$ 3,5 bilhões com base nos números de junho de 2024, poderia ser alterado após a reestruturação da instituição.

“O preço de aquisição a ser pago pelo BRB seria equivalente a 75% do patrimônio líquido consolidado do Banco Master (o que equivaleria a R$ 3,5 bilhões com base em números de junho de 2024, porém seria passível de mudança após a reestruturação), calculado conforme demonstrações financeiras auditadas, ajustado por eventuais baixas de ativos ou reconhecimentos de apontamentos no balanço”, afirma o documento.

A aquisição também passou pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Em 19 de agosto de 2025, os deputados aprovaram, por 14 votos a 7, o projeto que autorizava o BRB a adquirir 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master. Votaram a favor: Doutora Jane (MDB), Eduardo Pedrosa (União), Hermeto (MDB), Iolando (MDB), Jaqueline Silva (MDB), João Cardoso (Avante), Jorge Viana (PSD), Martins Machado (Republicanos), Pastor Daniel de Castro (PP), Pepa (PP), Thiago Manzoni (PL) e Wellington Luiz (MDB). Daniel Donizet (MDB) e Joaquim Roriz Neto (PL) estavam licenciados e não participaram da votação.

O Banco Central rejeitou a aquisição em 3 de setembro de 2025. Segundo a decisão judicial que reúne elementos da investigação, durante a análise o regulador identificou indícios de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e encaminhou uma representação criminal ao Ministério Público Federal.

Conversas

As mensagens apreendidas pela PF mostram que Daniel Vorcaro tratava diretamente das negociações envolvendo o BRB. Em 15 de março de 2025, Paulo Sérgio questionou o banqueiro sobre a venda de carteiras de crédito ao banco público e perguntou se o “prêmio” da operação seria de R$ 5 bilhões e qual seria a destinação dos recursos.

Print de conversa entre Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio, em 15 de março de 2025, sobre a venda de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB
Print de conversa entre Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio, em 15 de março de 2025, sobre a venda de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB | Crédito: Reprodução/PF

Em outra conversa, Vorcaro perguntou se o processo de aquisição do BRB poderia ser direcionado à supervisão do Banco Central em São Paulo, para que um servidor identificado como Ailton pudesse “fazer”. A PF registrou o diálogo como indício de possível ingerência junto ao Banco Central.

O relatório da PF foi assinado em 27 de fevereiro de 2026, no âmbito de uma representação por medidas cautelares encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF).


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Editado por: Flavia Quirino

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