Audiovisual

Cinema brasileiro busca estratégia para superar baixa audiência e fortalecer mercado interno

Conferência no Festival de Brasília destacou colonização cultural estadunidense em cenário dominado pelo streaming

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Conferência Audiovisual no Festival de Brasília debateu mercado interno e audiência
Conferência Audiovisual no Festival de Brasília debateu mercado interno e audiência | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

O descompasso entre a capacidade de produção e a participação de mercado do cinema brasileiro reflete um estrangulamento histórico na produção, circulação e exibição. Superar o teto estrutural de market share (porcentagem das vendas) exige deslocar o eixo das políticas públicas do fomento quase exclusivo à produção para uma estratégia integrada de distribuição, regulação de janelas e formação de público.

O primeiro painel de debates do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro discutiu essa questão com uma perspectiva crítica diante do tema “Não há indústria sem audiência: como fortalecer o mercado interno do audiovisual brasileiro”. Com essa reflexão, os participantes expuseram o cinema como espaço de luta pela soberania nacional e contra tentativas de colonização cultural.

De acordo com a cineasta Tatá Amaral,  a ausência estratégica do setor contribui para manter o audiovisual brasileiro em uma posição de dependência diante da indústria estrangeira, em um processo que ela associa à colonização cultural e ao extrativismo econômico.

Colocando essa questão, a diretora de filmes como “Um céu de estrelas” (1996), “Hoje” (2011), “Traga comigo” (2016) e “Sequestro relâmpago” (2018), abriu a mesa de debate. “Estamos vivendo uma guerra de ocupação. Estamos sendo violentados pelo cinema norte-americano. E é algo que nós estamos vendo desde os primórdios”, alertou Amaral.

Para deixar evidente que esse problema data dos primórdios do cinema brasileiro, ela parafraseia a também atriz, roteirista e cineasta Carmem Santos (1904-1952).

“O Brasil pode produzir bons filmes, como qualquer país. Tem artistas, técnicos, material ótimo, muito esforço e boa vontade. Há filmes brasileiros que rendem só no Brasil de mil a dois mil contos de réis. O Brasil precisa de cinema como de agricultura e fábrica de alfinetes. Cinema brasileiro é uma questão moral e não só material. Cinema brasileiro é pobre, livre e independente. Há de ser rico e poderoso, mas pelo seu trabalho, pelo próprio esforço. Cinema brasileiro quer ter a honra de trabalhar pelo Brasil desinteressadamente como bom brasileiro”, escreveu Carmem na revista “A cena muda” em 1931.

Tata Amaral, Rodrigo Siqueira, Anna Muylaert e Nilson Rodrigues durante painel na Conferência do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Tata Amaral, Rodrigo Siqueira, Anna Muylaert e Nilson Rodrigues durante painel na Conferência do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

Um século de hegemonia

Rodrigo Siqueira, autor dos longas “Aqui favela: o rap representa” (2003), “Terra deu, terra come” (2010) e “Índio Cidadão?” (2014), também reforça que a origem do problema que envolve a desproporção do consumo de cinema gringo em relação ao produto nacional é antiga. Em entrevista ao Brasil de Fato DF, o cineasta mineiro ressalta que o “mercado de cinema brasileiro vive uma ocupação quase total do cinema americano”.

“As empresas de Hollywood são dominantes no mercado brasileiro há um século de hegemonia. De 1915 até 1939, o mercado brasileiro foi ocupado quase 100% pelos americanos. A gente não chegava a 5% do nosso próprio mercado e era um período em que havia uma liberação total do mercado”, afirmou.

A Motion Picture Association Latin America está no Brasil desde os anos 1940, representando diversas corporações estadunidenses como Walt Disney, Paramount, Universal, Warner e agora Netflix. Para Rodrigo, a empresa eventualmente serve como lobista em prol dos interesses dessas produtoras.

“Eles atuam fortemente para defender os interesses deles, para abrir espaço aos filmes deles e dominar o mercado. Eles se financiam globalmente. Eles vendem no mundo inteiro e defendem isso com unhas e dentes, com uma visão estratégica de cinema. A hegemonia política, militar e cultural estadunidense não seria o que é sem o cinema. E é por isso que eles defendem de maneira muito brutal o cinema deles para ocupar mercados mundo afora”, explica Rodrigo.

Relações de dependência

O auge dessa intervenção foi a relação do representante das corporações estadunidenses com o governo de Fernando Collor de Melo no começo dos anos 1990. “Era um cara que jantava com quase todos os presidentes, pois ficou uns 40 anos no Brasil. E ele era amigo do Collor. Ele subiu a rampa do Palácio quando o Collor ganhou a eleição. Pouco depois, o Collor acabou com a Embrafilme e fechou o Ministério da Cultura. E a nossa produção foi a zero. Nós ficamos quebrados até o Collor sair. E depois, nos anos 1990, começou a se criar a Lei do Audiovisual. E a gente foi reconstruindo isso”, lembra o cineasta.

Rodrigo Siqueira avalia que o avanço das plataformas de streaming reproduz, em uma nova configuração, a relação histórica de dependência do audiovisual brasileiro em relação aos grandes estúdios estrangeiros. Para o cineasta, “as plataformas passaram a utilizar a capacidade nacional de produção sem necessariamente permitir que a riqueza gerada permaneça no país”.

Na avaliação de Siqueira, a presença de profissionais brasileiros em produções financiadas e controladas por empresas estrangeiras não significa, por si só, a construção de uma indústria nacional. “Você tem a nossa capacidade de produção e de criação a serviço dos estrangeiros”, criticou, classificando esse modelo como “uma lógica de extrativismo”.

Festival de Cinema de Brasília
Pressão fez governadora Celina Leão (PP) recuar do cancelamento do Festival de Brasília este ano | Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Regulação em foco

Rodrigo acrescenta que os períodos de maior produção e consumo do cinema nacional surgiram com incentivos estatais, pois antes disso “os americanos dominavam quase 100% das nossas telas”.

“Em 1939, a gente teve a primeira intervenção do Estado no mercado de cinema brasileiro. Criou-se uma cota de tela para um filme brasileiro por ano e a gente conseguiu subir um pouquinho. Cinco ou seis anos depois, aumentou essa cota para três e depois uma cota de um brasileiro para cada oito americanos. Cada vez que o Estado entra, a gente consegue crescer um pouco”.

Na segunda metade dos anos 1960, a ditadura militar emplacou um regime autoritário, mas no período da “modernização conservadora” houve uma política do projeto nacional-desenvolvimentista e, nesse contexto, foi criada a Embrafilme, “que foi não só intervenção do Estado e criação de uma cota de tela por si só, mas se tratava sim de organização de diversas ações para que o cinema brasileiro pudesse ocupar o seu mercado, pudesse produzir e também exportar”, esclarece Rodrigo.

Com esse incentivo, o movimento do Cinema Novo ganhou fôlego e obteve uma cota de tela crescente. Isso durou até metade dos anos 1980, quando o projeto militar entrou em crise e a Embrafilme também ruiu, não só pela crise econômica, mas também pela pressão estrangeira, segundo Rodrigo.

Disputa pela atenção

O produtor cinematográfico Nilson Rodrigues, que trabalhou em filmes como “Tainá – A Origem” (2013), “O Outro Lado do Paraíso” (2014), “O Pastor e o Guerrilheiro” (2023) e o recente documentário de “Honestino” (2026) avaliou que a baixa audiência é consequência de uma política audiovisual ainda excessivamente concentrada no estímulo à produção, sem mecanismos suficientes para garantir que os filmes encontrem sua audiência.

“Não importa muito ter 300 filmes brasileiros produzidos por ano se esse filme não chega ao destinatário, que é o público”, afirmou.

Para ele, uma política de desenvolvimento do setor precisa considerar simultaneamente todo o ciclo de realização e consumo, além de estabelecer metas de ocupação do mercado, avaliar resultados e corrigir os rumos. “Qualquer política que vise o desenvolvimento do cinema brasileiro tem que considerar os três pilares, que é a produção, a distribuição e a exibição”, afirma Nilson.

Na avaliação de Nilson Rodrigues, a cota de tela, embora necessária para assegurar espaço aos filmes nacionais, não é suficiente para enfrentar a disputa pela atenção do público. Rodrigues citou o desempenho do cinema brasileiro nos primeiros meses do ano como sinal de que a política atual precisa ser revista. “3,1% de market share, sendo que o público do cinema, em geral, aumentou 20%, mas o do cinema brasileiro é insignificante”, afirmou.

Para ele, obrigar as salas a exibirem uma obra sem garantir recursos para sua promoção pode produzir um resultado apenas formal. “Se você coloca um filme em cartaz sem um investimento na sua distribuição, que é a promoção e divulgação desse filme, dificilmente ele vai ter público na sala de cinema”, explicou.

Rodrigues também apontou a formação de público como uma dimensão estratégica para enfrentar a baixa audiência e romper com a predominância histórica do produto estrangeiro. “Se um garoto cresce e vira adulto sem ver filmes brasileiros, dificilmente ele vai se interessar em ver filmes brasileiros”, afirmou. Para ele, a política precisa começar antes mesmo da chegada do espectador às salas comerciais, incorporando projetos de formação de plateia e aproximando crianças e jovens da produção nacional. “Isso começa lá nas salas de cinema, então por isso que é preciso olhar a exibição desde antes para formar a plateia”, defendeu.

Além das exibições de filmes, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reúne debates, homenagens e encontros sobre o audiovisual
Além das exibições de filmes, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reúne debates, homenagens e encontros sobre o audiovisual | Crédito: Secec-DF

Outro ponto destacado pelo produtor foi a necessidade de regular o mercado de streaming, tanto para ampliar a presença das obras brasileiras quanto para criar novas fontes de financiamento para o setor. “É preciso regular as plataformas de streaming por várias razões, e uma das principais é para que tenha mais filmes brasileiros postos nas plataformas”, afirmou.

Rodrigues defendeu que a regulamentação também permita que os recursos provenientes da atividade contribuam para o núcleo de financiamento compartilhado para ampliar a capacidade de investimento na produção nacional. “Com esses recursos recolhidos ao Fundo Setorial do Audiovisual, possa estimular, ter mais orçamento para estimular o cinema brasileiro”, explicou.

Para o produtor, o mesmo raciocínio deve alcançar o sistema televisivo nacional: “É preciso regular também, é preciso que tenham filmes brasileiros na TV aberta”. A proposta, portanto, é que a política audiovisual deixe de tratar produção, distribuição, exibição, formação de público e plataformas digitais como questões isoladas e passe a articulá-las em uma estratégia única de desenvolvimento do mercado interno.

Organização do setor audiovisual

Em entrevista ao Brasil de Fato DF, Tatá Amaral concorda que o enfrentamento da baixa participação do audiovisual brasileiro no mercado interno precisa partir de uma estratégia nacional de soberania cultural, capaz de orientar as políticas públicas para além do financiamento à produção. Para ela, o primeiro passo é formar grupos de trabalho e conselhos de representação e participação para estabelecer objetivos concretos para a presença das obras brasileiras nas diferentes janelas de exibição. Esses grupos deveriam, segundo ela, ser formados pela sociedade civil para pressionar os órgãos públicos a produzir informações que atualmente não estão disponíveis de maneira suficiente para orientar as políticas do setor.

“Gostaria de propor um grupo de trabalho que provocasse a Ancine e o MinC. Um grupo de trabalho para estudar, solicitar dados, afinal não temos dados da ocupação exata sobre quanto de conteúdo brasileiro, que não seja novela ou jornalismo, é veiculado na TV aberta. Quanto de conteúdo brasileiro é veiculado na TV fechada? Nos streamings, menos ainda. A gente não sabe nem a audiência, porque eles estão aqui ocupando sem sequer nos permitir o acesso ao dado. É gravíssima a ocupação, a violação dos streamings aqui no Brasil”, afirmou.

Entre as atribuições do grupo estaria a realização de pesquisas sobre o potencial de crescimento da audiência do cinema brasileiro nos próximos anos. “Qual é o nosso potencial para crescer no próximo ano ou dois anos? A nossa audiência? Ninguém sabe”, questionou. Para Tatá, sem um diagnóstico preciso sobre quem é o público e onde ele está, torna-se difícil formular políticas capazes de ampliar a presença das obras nacionais.

A proposta também envolve a construção de uma estratégia integrada de conquista de audiência, que considere as diferentes janelas do audiovisual, das salas de cinema à televisão e às plataformas digitais. “A partir desse conceito, é o que eu proponho como soberania. A partir da necessidade de pesquisas, construir um diagnóstico e uma estratégia”, explicou.

Para enfrentar esse cenário, Rodrigo Siqueira defende um pacto nacional capaz de transformar a produção audiovisual brasileira em uma política de Estado, garantindo não apenas a participação de profissionais nacionais, mas também a retenção dos direitos econômicos e autorais das obras no país. “Não existe possibilidade de a gente ter uma indústria que possa inclusive mirar eventualmente o mercado internacional se a gente não tiver uma presença forte dentro do nosso próprio mercado pelos produtores independentes”, argumentou.

Ele considera que grupos de trabalho, conselhos de audiovisual e a revisão de experiências anteriores poderiam contribuir para essa construção. “É preciso ter uma vontade política de construir uma indústria nacional”, afirmou, citando a experiência da Coreia do Sul como referência de planejamento estatal. Para ele, o país asiático demonstra que uma decisão política de longo prazo pode transformar um mercado consumidor de produtos culturais em um polo exportador: “A Coreia do Sul saiu de importadora para exportadora de produtos culturais”.


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Editado por: Clivia Mesquita

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