PRECARIEDADE

Copasa privatizada: rompimentos dão primeiros sinais de mudança no saneamento, diz Sindicato

Para trabalhadores, redução de pessoal e investimentos pode comprometer manutenção e qualidade do serviço até 2073 em MG

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COPASA
Adutora que rompeu e prejudicou abastecimento de bairros de BH e Nova Lima (MG) | Crédito: Divulgação/Copasa

A sequência de rompimentos de tubulações registrada em Belo Horizonte e na Região Metropolitana nas últimas semanas chama a atenção não apenas pela dimensão dos transtornos provocados à população, mas pelo momento em que ocorrem, pouco depois da privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Em um intervalo de três semanas, ao menos cinco tubulações estouraram, duas delas adutoras, estruturas fundamentais para o abastecimento de grandes áreas.

Em declaração à imprensa, a presidente da Copasa, Marília Carvalho, afirmou que não haveria relação entre a mudança societária e os problemas registrados em um período curto. A questão, porém, é: o que muda na gestão de uma companhia de saneamento quando ela deixa de ser controlada pelo Estado e passa a operar sob uma lógica privada, e quais podem ser os primeiros efeitos dessa transformação sobre um serviço essencial?

Para o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Minas Gerais (Sindágua), a resposta passa justamente pela política adotada nos últimos anos para a companhia. A entidade afirma que os rompimentos recentes são a expressão mais visível de problemas estruturais que vinham sendo denunciados antes da venda da empresa.

“Os trágicos rompimentos de adutoras ocorridos em sequência refletem diretamente a falta de investimentos estruturais no sistema, além de graves erros gerenciais nos processos de manutenção”, afirmou, em nota, o sindicato.

O que está por trás dos rompimentos?

Uma rede de abastecimento não se deteriora de uma hora para outra. Adutoras, estações de tratamento, redes de distribuição e demais estruturas exigem manutenção permanente e investimentos de longo prazo. A discussão sobre os efeitos da privatização tem passado por quais prioridades passam a orientar as decisões da empresa. É nesse ponto que trabalhadores e direção da Copasa apresentam visões distintas.

Para o Sindágua, a companhia já vinha passando por um processo de sucateamento antes mesmo da privatização. Segundo a entidade, a política adotada desde 2019 pelo governo de Romeu Zema (Novo) e mantida na atual gestão por Mateus Simões (PSD) priorizou a remuneração de acionistas e a redução de custos, em detrimento da ampliação dos investimentos necessários para a manutenção da estrutura.

“A privatização completa um quadro deliberado de sucateamento da Copasa, que hoje explode em tragédias diante da flagrante incapacidade de gestão”, afirmou o sindicato.

A interpretação da entidade é que os rompimentos recentes devem ser observados como parte de um problema mais amplo, ou seja, a capacidade de uma empresa de saneamento manter uma infraestrutura antiga e extensa depende de investimentos contínuos, mão de obra especializada e planejamento de longo prazo.

Se esses três elementos são reduzidos, os efeitos não necessariamente aparecem imediatamente, alerta o Sindicato, mas podem surgir meses ou anos depois, na forma de mais interrupções, vazamentos, necessidade de reparos emergenciais e deterioração da qualidade do serviço.

O estado de Minas Gerais era o controlador majoritário da Copasa e detinha 50,03% das ações ordinárias da empresa, o que garantia ao governo mineiro o controle político e decisório da estatal. Com o processo de desestatização finalizado por meio de uma oferta pública de ações (follow-on), a estrutura societária foi profundamente reformulada para o modelo de corporation. E agora o Estado de Minas Gerais reduziu drasticamente sua fatia para 5,03%, deixando de ser o controlador.

Trabalhadores no centro da disputa

A política de pessoal adotada pela nova administração da Copasa é outro elemento que ajuda a compreender os possíveis desdobramentos da privatização.

Em julho, o Brasil de Fato MG mostrou que trabalhadores denunciaram “remoções compulsórias” para unidades localizadas a centenas de quilômetros de suas residências. Em alguns casos, a distância chegaria a 900 quilômetros.

Durante audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o diretor financeiro do Sindágua, Wanderci Gomes, relatou que trabalhadores com décadas de atuação em determinados municípios estavam recebendo determinações para assumir funções em outras localidades.

Para o sindicato, retirar trabalhadores experientes de suas regiões significa também perder conhecimento acumulado sobre a própria rede de abastecimento, uma vez que o sistema de saneamento depende do conhecimento de quem acompanha há anos as características das redes, identifica problemas recorrentes e conhece as particularidades de cada município. A substituição desse quadro por terceirizações e pela reorganização de equipes, segundo o Sindágua, pode comprometer justamente a capacidade preventiva da companhia.

“Em vez de valorizar seu quadro próprio, a administração promoveu o afastamento sistemático de profissionais qualificados e concursados, substituindo a excelência técnica pela terceirização precarizada”, afirmou a entidade.

A Copasa, por sua vez, sustenta que as movimentações fazem parte de um plano de reestruturação organizacional e modernização administrativa planejado desde 2024, baseado em estudos técnicos de otimização operacional.

Reduzir custos vira problema para quem está na ponta

Para analistas, a lógica financeira é particularmente relevante no caso do saneamento porque os investimentos necessários são altos, contínuos e, muitas vezes, não produzem retorno imediato.

Trocar uma tubulação antiga antes que ela estoure custa dinheiro e não produz uma imagem pública tão evidente quanto reparar uma cratera aberta por um rompimento. Da mesma forma, manter equipes próprias e especializadas pode representar uma despesa permanente, enquanto a redução do quadro aparece imediatamente nas planilhas financeiras.

É justamente essa equação que preocupa os trabalhadores. Na avaliação do Sindágua, a privatização tende a colocar em primeiro plano a necessidade de remuneração dos acionistas. Nesse cenário, despesas com pessoal, manutenção e investimentos passam a ser avaliadas também sob a perspectiva do impacto sobre os resultados financeiros da empresa.

O problema, segundo a entidade, é que a água não funciona como um serviço convencional de mercado. O consumidor não pode simplesmente deixar de comprar água quando considera o preço alto ou quando a qualidade do serviço piora. É por isso que eventuais problemas de manutenção podem ter consequências sociais muito maiores do que em outros setores.

Um rompimento de adutora pode deixar dezenas de milhares de pessoas sem água, comprometer escolas e unidades de saúde, afetar o comércio e provocar prejuízos a moradores. 

São Paulo expõe riscos da privatização do saneamento

A experiência da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) serve de alerta para Minas Gerais sobre os possíveis efeitos da entrega de uma empresa de saneamento à iniciativa privada. Privatizada em julho de 2024 pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a companhia passou a enfrentar críticas relacionadas ao abastecimento, atendimento aos consumidores, cobranças e tarifas. Também foram registrados rompimentos de tubulações e adutoras na capital paulista, na Região Metropolitana e no litoral.

Para trabalhadores e entidades que acompanham o setor, o caso paulista evidencia uma contradição central do modelo privado. Para eles, uma empresa responsável por um serviço essencial precisa, ao mesmo tempo, garantir investimentos permanentes em infraestrutura e responder às expectativas de rentabilidade de seus acionistas.

Em São Paulo, uma das principais críticas após a privatização é justamente a combinação entre problemas na prestação do serviço e mudanças na estrutura da empresa. Entre as reclamações estão falta de água recorrente, cobranças consideradas abusivas, substituição de hidrômetros e precarização do atendimento.

Em Minas Gerais, a sequência de rompimentos ocorre no início da nova fase da Copasa e se soma a denúncias de redução do quadro próprio, terceirização e mudanças na política de manutenção. 

Para o Sindágua, esses fatores não podem ser analisados isoladamente dos efeitos da privatização, já que a redução de custos e a busca por maior rentabilidade podem pressionar justamente áreas que exigem investimentos contínuos, como manutenção, pessoal e infraestrutura.

O Sindicato afirma que o risco é que a água passe a ser tratada prioritariamente como ativo econômico, e não como um direito que exige planejamento público de longo prazo. 

“Transformar água em mercadoria repete um modelo falido em escala global”, afirmou a entidade.

A preocupação não se restringe a Minas Gerais. Segundo o sindicato, mais de 800 casos de reestatização de serviços de água e saneamento foram registrados em 38 países, incluindo Alemanha e França, após experiências de privatização. A entidade cita esses processos como exemplos de que governos e populações, em diferentes partes do mundo, voltaram a assumir serviços que haviam sido transferidos à iniciativa privada.

O argumento central dos trabalhadores é que os custos de uma eventual deterioração do serviço acabam sendo socializados. 

O efeito pode aparecer longe de Belo Horizonte

Outro possível desdobramento da privatização está nos municípios que dependem dos contratos da Copasa. O governo de Minas estabeleceu 28 de setembro como prazo para que municípios façam a adesão aos novos contratos da companhia. A proposta prevê contratos que podem se estender até 2073.

O governador Mateus Simões, candidato à reeleição, tem pressionado prefeitos para aderirem ao novo modelo e afirmou que municípios que não renovarem os contratos poderão enfrentar dificuldades para garantir os serviços de água e esgoto.

“Eles vão acabar ficando sem água e sem esgoto. E eles têm que aderir, se eles quiserem ficar com a Copasa nova, com a Copasa privatizada”, declarou à imprensa.

A reportagem procurou o governo de Minas para esclarecer o posicionamento do governador Mateus Simões, mas não obteve resposta até a publicação. 

Para cidades pequenas, que não possuem recursos ou estrutura técnica para construir sistemas próprios, a dependência da companhia pode ser ainda maior. Na avaliação do Sindágua, isso cria uma situação em que municípios têm pouco poder de negociação diante de uma empresa privada que passa a ter interesses financeiros próprios.

Outro lado

Procurada pela reportagem para esclarecimentos sobre as prefeituras que ainda não firmaram contrato com a empresa, a Copasa afirmou que atua em estrito cumprimento da legislação e em constante diálogo com os municípios concedentes. O objetivo central é a garantia da segurança jurídica, a continuidade da prestação dos serviços e a aceleração dos investimentos em infraestrutura para atingir as metas de universalização.

Editado por: Lucas Wilker

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