“Bom, bonito e barato. Aqui é o mercadão BBB. Venha cliente, não desista. Tudo quase de graça.” Para quem chega no Mercadão do Produtor da Cidade Baixa, realizado aos sábados, das 7h às 12h, fica animado com o entusiasmo e a gritaria dos vendedores, dos donos de bancas, senhoras, senhores, jovens, uma gama incrível de gente que vem da zona rural da Grande Porto Alegre e até de municípios da Serra, da região dos Vales.

Tudo fresquinho. Hortifrutigranjeiros de todas as espécies, preços realmente camaradas em relação aos supermercados. “Excelente, excelente, em cinco horas recebemos milhares de pessoas e vendemos quase tudo. Nós somos reguladores do mercado. A balança para os armazéns e as grandes lojas. Aqui somos 80 ou um pouco mais de barracas que se ajudam uns aos outros na maior fraternidade. Prestamos a solidariedade comercial”, diz Milton Nascimento, que ganhou o nome do cantor mineiro porque sua mãe era fã do artista. Desconfio do nome, mas ele mostra a identidade.
Depois de falar da paixão por Milton, ele me diz que o responsável pelo Mercadão do Produtor é o Elton John, cantor inglês e famoso mundo afora. Fico, outra vez, desconfiado, não consigo confirmar. Outros vendedores que se aglomeravam em torno da banca do Milton confirmaram. Ele é Elton John mesmo, “mas hoje (12/9) não apareceu porque está envolvido com política, fazendo campanha para seus candidatos”, conta Júlio Cézar, um dos vendedores.

Milton Nascimento e Elton John
Um consumidor se envolveu na conversa, o neuropediatra Juarez Miranda, conhecido pelos vendedores como Juju, tal a sua frequência no local, confirmou o nome, mas não sabe se é verdade ou se ele se acha mesmo o Elton John. Júlio Cézar diz que é a mesma história do Milton: “A mãe dele não entendia nada de inglês, mas adorava o cantor e colocou o nome dele no filho”. Pelo sim, pela dúvida, deixa para lá, reforçou outro cliente que ouvia a conversa.
Faltando poucos dias para as eleições, os visitantes e clientes do Mercadão saem dali com sacolas de compras e um sacolão de propagandas e santinhos dos candidatos. Jovens e adultos interpelando todo mundo atrás de adesões para seus candidatos. A grande maioria era de partidos progressistas. “Aqui, os outros não se criam”, disse Anildo Ferreira, gritando que “a nossa senadora (Manuela) está aqui”. Ela, de fato, estava acompanhando a sua turma e até comprou algumas bergamotas para distribuir entre seus panfleteiros.

Mais tradicional e mais antigo
O Mercadão do Produtor da Cidade Baixa é um dos maiores e mais tradicionais de Porto Alegre e um dos mais movimentados, embora ocorram outros em vários pontos da cidade. Ele é também um dos mais antigos da cidade e chamado de Feira do Largo Zumbi dos Palmares* ou Largo da Epatur (Empresa Portoalegrense de Turismo, já extinta, cujo prédio está em situação precária). A feira começou a ser realizada em 12 de outubro de 1982 e vai completar agora 44 anos. Muito tempo. O Mercadão tem dois corredores com dezenas de barracas com lonas de plástico amarela e duas partes nas pontas, fechando o retângulo.
No mesmo local, mas com presença menor de público e de feirantes em relação ao mercadão de sábado, acontece às terças-feiras a Feira Modelo, que também não deixa de ser uma das principais da cidade. Funciona entre 15h e 20h. São outros produtores e vendedores, mas, por alguma razão qualquer, o vendedor Anildo diz que essa é bem mais cara que a dos sábados. Outras opções tradicionais de terça-feira pela cidade incluem a Feira Modelo da General João Telles, no Bom Fim, e a Feira Modelo da Travessa dos Lanceiros Negros, na Coronel Bordini com Mata Bacelar, no bairro Auxiliadora.

Os vendedores e proprietários de bancas não têm do que se queixar, diz André Maidana, da banca Sabor de Coco. Ali ele vende mandolate caseiro (seis por R$ 5), pé de moleque grande (R$ 10) e outros doces, como maria mole, rapadurinhas e cocadas (carro-chefe das vendas, com custo de R$ 8), e assim por diante. “Vendo mais no inverno, são produtos altamente calóricos. No verão, o pessoal quer mais sorvetes, coisas geladas, aí trago junto também estes produtos.”
Fartura e boas vendas
O mercadão é uma fartura. Verduras de tudo que é espécie, frutas também (agora as grandes vendas são de bergamotas e laranjas, dando um colorido especial ao local), pães, biscoitos, queijos, derivados do leite, vinhos, sucos, cachaças especiais com funcho ou butiá, carnes, peixes, embutidos, temperos, ervas para carnes, mel, chás, flores, folhagens. Diego Peccin, que veio de Caxias do Sul para vender salames, estava oferecendo provas para os consumidores. “Custa só R$ 19 a peça. E estou vendendo muito”, afirmou.

Na lanchonete, a oferta também era agradável aos olhos dos passantes. Coxinhas de galinha, pastéis, empadas, torradas, cafés e refrigerantes. Bem higiênicos, bem cuidados e muito consumidos, afirmava a atendente Salete Veiga. “Temos sempre muito movimento.”
Por ali estava também Juliana Luiza, 38 anos, sempre chamando todo mundo de “meu amor”, “minha querida”, com um jeitinho especial para atrair e alegrar os clientes. Já a conhecia de outras feiras, mas o entusiasmo é sempre o mesmo. “Tenho 26 anos de feiras, saracoteei por todos os lados, vendi de tudo. Sou feliz com este trabalho, é uma alegria reencontrar tanta gente e conhecer outras tantas”, conta. Na última feira em que a vi, no bairro Auxiliadora, estava grávida. Contou que a filha já está com três anos.

Há também um idoso boliviano, de quase 70 anos, Victor Pan, tocando flauta dos Andes com uma caixa de sapatos para recolher alguma grana dos apreciadores da sua arte. Muita gente vai ao seu local de “estacionamento” para fotografá-lo. Diz, rapidamente, que saiu da Bolívia pela miséria. “Aqui é só um pouquinho melhor, mas dá para se virar. Ninguém passa fome na minha família”, diz.
Um dos vendedores mais tranquilos me parece ser o açougueiro David Oliveira. Com avental, luvas e boné, cuida das carnes com rigor. Estão bem vermelhas, limpas de qualquer gordura, assim só conquistam a confiança dos clientes. “Até o meio-dia vendo quase tudo”, afirma.

Confira alguns dos preços
(valores por quilo)
Mamão formosa: R$ 8,95
Maçã fuji: R$ 6,95
Maçã gala: R$ 7,95
Pera argentina: R$ 8,95
Bergamota montenegrina: R$ 2,98
Laranja para suco: R$ 2,99
Laranja de umbigo: R$ 4,99
Melancia goiana: R$ 3,98
Aipim: R$ 8,00
Moranga cabotiá: R$ 3,98
Limão taiti: R$ 9,98
Batata doce: R$ 3,98
Chuchu: R$ 3,98
Beterraba: R$ 3,98
Pepino: R$ 4,98
Cenoura: R$ 4,98
Banana caturra: R$ 3,99
Ovos caipira (dúzia): R$ 11,00
Ovos (pacotão de 30): R$ 25,00
Batata inglesa: R$ 6,99
Alho: R$ 4,00
Alface (unidade): R$ 4,00
Alface: três unidades por R$ 10,00
Brócolis (unidade): R$ 6,00
Nabo: R$ 4,00
Costela suína: R$ 29,90
Salsichão: R$ 18,00
Filé mignon: R$ 99,00
Vazio: R$ 59,90
Filé de peixe-rei: R$ 42,00
Camarão limpo: R$ 65,00
Salmão: R$ 79,90
Mercadões do Produtor
A responsabilidade geral pelas feiras de Porto Alegre (de todos os tipos) é da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo. Na Capital, são realizados sete Mercadões do Produtor. Confira os dias e horários:
Terça-feira
Bento Gonçalves – das 15h30 às 20h30
Rua Dr. Júlio Bocaccio, esquina com Av. Bento Gonçalves.
Quarta-feira
Medianeira – das 7h às 19h
Av. Cel. Gastão Haslocher Mazeron, esquina com a Rua José de Alencar (Rótula do Papa).
Quinta-feira
Jardim Lindóia – das 15h30 às 20h30
Rua Bom Retiro do Sul.
Moinhos de Vento – das 15h30 às 20h30
Rua Comendador Caminha, 313, Largo José Antônio Daudt.
Sábado
Cidade Baixa – das 7h às 12h
Av. Loureiro da Silva, no Largo Zumbi dos Palmares.
Medianeira – das 7h às 12h
Av. Cel. Gastão Haslocher Mazeron, esquina com a Rua José de Alencar (Rótula do Papa).
Domingo
Cel. Massot – das 7h às 12h
Av. Cel. Massot, próximo ao número 470, entre as ruas Cel. Aristides e Dr. Claudino.
Assis Brasil – das 7h às 12h
Av. Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leon (entre Av. Mathilde Trein Renner e Av. Assis Brasil).
* Zumbi dos Palmares foi um líder quilombola brasileiro, o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior do período colonial. Zumbi nasceu na então Capitania de Pernambuco, em região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, no estado de Alagoas. Viveu entre 1655 e 1695.

