NA ESTRADA

Universidade de Porto Alegre leva saúde para áreas de difícil acesso e comunidades vulneráveis

Operação Embarcada é uma parceria da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre com a Marinha do Brasil

No audio source provided.

Em sua primeira edição, a iniciativa levou assistência médica e ações de educação em saúde a 19 comunidades ribeirinhas de difícil acesso do estado do Amazonas
Em sua primeira edição, a iniciativa levou assistência médica e ações de educação em saúde a 19 comunidades ribeirinhas de difícil acesso do estado do Amazonas | Crédito: Divulgação/Operação Embarcada

Do Sul do Brasil para o Norte, levando saúde e trocando experiências de vida. Foi o que aconteceu na Operação Embarcada, realizada numa parceria da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) com a Marinha do Brasil (MB). Em sua primeira edição, a iniciativa levou assistência médica e ações de educação em saúde a 19 comunidades ribeirinhas de difícil acesso do estado do Amazonas. A ação contou com o apoio logístico do Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) Soares de Meirelles, que atendeu comunidades localizadas ao longo da calha do rio Negro.

Na ação inédita entre as duas instituições, realizada no período de 12 a 27 de agosto, ocorreram cerca de 2 mil atendimentos e 3,5 mil procedimentos médicos. A UFCSPA também participa de iniciativas de educação em saúde e capacitação em áreas vulneráveis do Rio Grande do Sul. Já foram atendidas comunidades de Capão Novo e São Miguel das Missões, entre outros municípios gaúchos, além de realizada a capacitação de agentes comunitários de saúde do município de Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Na ação inédita entre as duas instituições, realizada no período de 12 a 27 de agosto, ocorreram cerca de 2 mil atendimentos e 3,5 mil procedimentos médicos
Na ação inédita entre as duas instituições, realizada no período de 12 a 27 de agosto, ocorreram cerca de 2 mil atendimentos e 3,5 mil procedimentos médicos. | Crédito: Divulgação/Operação Embarcada

A Operação Embarcada é resultado de um termo de cooperação firmado entre a UFCSPA e a MB, por meio do Ministério da Defesa, em abril de 2026, que prevê a realização de ações consecutivas de saúde durante cinco anos. “É possível, até, que tenhamos duas ações por ano”, explica a coordenadora geral do projeto pela universidade, a bióloga e professora Cláudia Bica. “O termo de cooperação prevê que o nosso trabalho sempre será na região Norte, em áreas atendidas pela Flotilha do Amazonas, que atende os estados do Amazonas, Acre e Roraima”, destaca.

O acordo estabelece o embarque de docentes, estudantes e residentes da universidade em embarcações da Marinha para a realização de atividades acadêmicas e assistenciais em comunidades da região amazônica. O trabalho permite que o grupo conheça as condições sociais, geográficas e de saúde da população ribeirinha, trocando experiências e colaborando para a melhoria da qualidade de vida dos moradores da região.

O acordo estabelece o embarque de docentes, estudantes e residentes da universidade em embarcações da Marinha
As atividades de educação em saúde incluíram oficinas sobre primeiros socorros, educação sexual, saúde bucal, cuidados com a água e prevenção do pterígio | Crédito: Divulgação/Operação Embarcada

A Operação Embarcada contou com 16 integrantes da equipe de saúde, entre profissionais médicos clínicos, traumatologista, radiologista, hematologista, fisioterapeuta, psicólogo, biomédico, enfermeiro e estudantes das áreas da saúde. As atividades de educação em saúde incluíram oficinas sobre primeiros socorros, educação sexual, saúde bucal, cuidados com a água e prevenção do pterígio, além de rodas de conversa sobre projeto de vida e perspectivas para o futuro. As equipes também realizaram sessões de cinema nas comunidades atendidas e organizaram várias bibliotecas para incentivar o hábito da leitura.

O pterígio, esclarece a professora Cláudia Bica, é popularmente conhecido como “carne nos olhos” ou “carnosidade”. É resultado do crescimento do tecido fibrovascular, que se origina na conjuntiva, que é a parte branca dos olhos, e avança em direção à córnea, prejudicando a visão e podendo levar à cegueira. O agravo é resultado da contínua exposição à luminosidade, vento e poeira. A prevenção é feita com o uso de óculos de sol com proteção UV e chapéu, além de colírio lubrificante para diminuir o desconforto. A UFCSPA levou para a missão 17 kg de colírio e mais de 400 óculos de sol.

O trabalho permite que o grupo conheça as condições sociais, geográficas e de saúde da população ribeirinha
O trabalho permite que o grupo conheça as condições sociais, geográficas e de saúde da população ribeirinha | Crédito: Divulgação/Operação Embarcada

O grupo da universidade também encontrou conflitos sociais e pessoais graves, que exigiram a participação ativa do psicólogo da equipe e encaminhamento para as instituições ou redes de apoio local. Tal como ocorre nas demais regiões do Brasil, mulheres e crianças também são as principais vítimas de abusos e violência na Amazônia. “Na realidade, casos como esses, necessitam de uma abordagem institucional e multidisciplinar”, diz a coordenadora geral.

Outras ações

A UFCSPA também participa das ações do Projeto Rondon, coordenado pelo Ministério da Defesa, mas que envolve diversos ministérios, como o da Educação, por exemplo. Criado em 1967 pela ditadura instalada no Brasil após o golpe de 1964, o projeto foi extinto em 1989, consequência do processo de redemocratização do país, e relançado em 2005 pelo governo federal durante o primeiro mandato do presidente Lula para levar saúde e educação para comunidades de difícil acesso ou vulneráveis.

Além de participar do Projeto Rondon desde 2012, a UFCSPA ainda tem uma fase regional de atendimento às comunidades, que é o Projeto Raízes, mesmo nome de uma disciplina da universidade. O Raízes pode ser acionado pelas prefeituras gaúchas. Existe também o Projeto Sem Fronteiras, em fase de implementação, que pretende ser uma ação de cooperação com outros países. Todas essas ações extra-muros da universidade integram a iniciativa Entrelaçar, totalmente voltada para o atendimento de comunidades.

MST em Carajás

A Operação Embarcada contou com 16 integrantes da equipe de saúde
Todas essas ações extra-muros da universidade integram a iniciativa Entrelaçar, totalmente voltada para o atendimento de comunidades | Crédito: Divulgação/Operação Embarcada

No último mês de julho, estudantes da UFCSPA participaram de uma ação do Projeto Rondon no estado do Pará, a Operação Carimbó, que marcou os 100 anos da criação do projeto. Professores e estudantes levaram ações de educação, saúde e direitos humanos para diversas comunidades do estado e, inclusive, estiveram na Serra dos Carajás, a maior jazida de ferro a céu aberto do mundo, explorada pela companhia Vale.

Nessa área está localizada a maior comunidade de trabalhadores rurais sem terra do Brasil, o acampamento Terra e Liberdade, a menos de 3 km da Estrada de Ferro Carajás. Com mais de 5 mil famílias em uma área de 55 hectares, o Terra e Liberdade recebeu a visita da equipe de rondonistas da UFCSPA, que ficou impressionada com o nível de organização da comunidade e as soluções encontradas. ⁠As famílias vivem e produzem em pequenos lotes de 10 por 20 metros e garantem a sustentabilidade do lugar e a soberania alimentar.

⁠Por meio de um acordo de cooperação técnica firmado com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a companhia Vale repassou recursos para o instituto adquirir terras na região e promover o assentamento definitivo das famílias sem terra, o que está ocorrendo de forma gradual.⁠⁠

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter