No Vale do Ribeira, entre os estados de São Paulo e Paraná, os temporais intensos estão provocando enchentes nos municípios e comunidades próximas ao Rio Ribeira do Iguapé e seus afluentes. Em comunidades quilombolas da região, no lado paranaense, moradores enfrentam dificuldades de locomoção e acesso a serviços básicos.
Chuvas intensas, que atingiram o Paraná na última semana, deixaram cinco mortos e afetaram outras milhares de pessoas. Situação preocupa especialistas, que fazem alerta para a flexibilização da legislação ambiental no estado.
A comunidade de Estreitinho está situada às margens do Rio Pardo, a cerca de 165 quilômetros de Adrianópolis (PR). Com as chuvas, a rede de energia elétrica do território parou de funcionar, o que causou a perda de insumos e da produção agrícola de leite, principal fonte de renda das famílias quilombolas.
“Isso gera preocupação não apenas com a renda dos próximos meses, mas também com a permanência das nossas famílias no território”, conta Vanessa Cordeiro, moradora de Estreitinho.
Não só as quedas de energia, que chegam a durar dias, preocupam quem vive no território. Em períodos de emergência, a comunicação também é um fator que pode salvar vidas, mas é dificultada pela falta de acesso à internet na comunidade, que impossibilita o acesso aos alertas da Defesa Civil. “Em situações de emergência como essa, a falta de informação se soma à insegurança que já enfrentamos”, reforça Cordeiro.
Durante as tempestades fortes que atingiram o Vale do Ribeira entre essa sexta (11) e domingo (13), três moradores do Estreitinho ficaram ilhados na porção paranaense do território – dentre eles, um paciente oncológico sem acesso à medicação. O território está isolado pelas águas do Rio Pardo, então o deslocamento para saída do quilombo é feito apenas pela travessia de bote.
Vazão da represa do Rio Capivari
Em João Surá, comunidade quilombola a 50 quilômetros de Adrianópolis, os moradores relatam preocupação com a abertura das comportas da represa do Rio Capivari, afluente do Ribeira do Iguapé.
Carla Galvão, moradora do quilombo, alega que, nesta época, as enchentes são comuns. A dificuldade é se preparar para a maior intensidade no volume de água, que não é comunicada à comunidade: “Do nada o rio enche e a gente perde o controle da vazão natural do rio”, explica.
Com as enchentes, diversos pontos da BR-476 foram bloqueados, afetando o acesso a serviços de saúde e à chegada de alimentos à comunidade, que é abastecida por Curitiba (PR). “Acaba tendo vários alagamentos em pontos das estradas, aí a estrutura que já é comprometida acaba sendo afetada, como as pontes de madeira e os bueiros”, descreve.
Dificuldades na infraestrutura e apoio do poder público
“A BR está bloqueada, então todos os recursos que vêm da ajuda humanitária não conseguem chegar”, conta Gedielson Ramos, presidente da associação de moradores da comunidade Córrego das Moças, também próxima a Adrianópolis. Muitos territórios estão inacessíveis, e o município não possui estrutura suficiente para atender às emergências de maneira adequada.
A Defesa Civil do Paraná presta apoio à cidade enviando atendimentos para regiões emergenciais, mas, até o momento da publicação desta reportagem, não há atualizações oficiais do órgão sobre as comunidades.
Por parte das comunidades, Ramos explica que a demanda é pela instalação de geradores elétricos e sistemas de acesso à internet para servir de apoio durante eventos como as cheias no Vale do Ribeira. “Quando a gente não consegue chegar até lá, eles passam como está a situação e nós conseguimos dar um suporte, passar informações”, argumenta.
“São impactos que não terminam quando a água baixa. A médio e longo prazo, as famílias precisam de apoio para reconstruir o que foi perdido e recuperar suas condições de trabalho e sustento”, explica Vanessa Cordeiro. No Estreitinho, há ainda a busca por apoio do poder público para a construção de uma ponte que tire a comunidade do isolamento.
*Estagiário sob supervisão de Murilo Bernardon.


