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‘Alto nível de confiança política’: governo chinês responde ao BdF sobre carta de Lula a Xi

Na coletiva de imprensa, porta-voz Guo Jiakun comenta eleições brasileiras e reafirma princípio de não interferência

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Lula e Xi Jinping na cerimônia de assinatura dos acordos entre Brasil e China em Pequim (2025)
Lula e Xi Jinping na cerimônia de assinatura dos acordos entre Brasil e China em Pequim, em 2025 | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Nesta semana, o governo chinês recebeu uma carta do governo brasileiro, mas não revelou seu conteúdo e tampouco confirmou se houve uma resposta específica de Xi Jinping ao presidente Lula. Questionado pelo Brasil de Fato nesta quinta-feira (17), durante a coletiva regular do Ministério das Relações Exteriores da China, o porta-voz Guo Jiakun destacou a comunicação entre os dois mandatários e classificou o atual nível de confiança política entre os dois países como elevado.

“Nos últimos anos, sob a orientação estratégica dos dois presidentes, as relações China-Brasil têm avançado a passos largos, evoluindo de uma parceria estratégica abrangente para uma comunidade com futuro compartilhado. O presidente Xi Jinping e o presidente Lula mantêm comunicação próxima por diferentes meios, demonstrando o alto nível de confiança política entre os nossos dois países”, afirmou Guo.

A carta foi entregue na véspera pelo assessor especial do presidente Lula, Celso Amorim, a Xi Jinping, durante o encontro de Amorim com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Beijing.

Na reunião, Wang transmitiu as saudações de Xi a Lula e defendeu o fortalecimento da coordenação estratégica entre os dois países, destacando a cooperação bilateral como parte dos esforços de fortalecimento da unidade do Sul Global.

A segunda pergunta feita pelo Brasil de Fato tratou da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil. O questionamento mencionou as críticas de Washington à forma como o governo brasileiro enfrenta o crime organizado, a possibilidade de sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e a proximidade das eleições presidenciais brasileiras de 2026.

Guo respondeu de forma direta, reiterando a posição chinesa sobre a não interferência nos assuntos internos de outros países: “A China mantém o princípio de não interferência nos assuntos internos de outros países. Desejamos que as eleições brasileiras transcorram de maneira estável e tranquila”.

A declaração ocorre em um momento de intensificação das discussões sobre soberania, relações internacionais e interferência externa na América Latina. Para a China, a não interferência nos assuntos de outros países é apresentada como princípio de sua política externa.

Inteligência artificial e autonomia tecnológica

A posição expressa por Guo na coletiva dialoga com um dos temas tratados por Amorim durante sua passagem por Beijing. Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato nesta quinta, o assessor especial de Lula destacou a possibilidade de ampliar a cooperação com a China em áreas como inteligência artificial, supercomputação, tecnologia espacial e satélites, temas que estiveram entre os assuntos discutidos na sua reunião com Wang Yi.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores chinês, Wang afirmou que a China valoriza a decisão do Brasil de ingressar na Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico) e manifestou disposição para ampliar a cooperação bilateral na área.

Criada em julho, em Xangai, a Waico é uma organização intergovernamental independente voltada à cooperação internacional em inteligência artificial. Entre seus objetivos estão a promoção de uma IA segura, ética, confiável e centrada nas pessoas, além da cooperação científica e tecnológica e do desenvolvimento de ecossistemas de código aberto.

Para Amorim, o caráter aberto da tecnologia pode ampliar a autonomia dos países do Sul Global, reforçando que ainda existem diferenças entre os países sobre o desenvolvimento e a regulamentação da inteligência artificial, mas isso não impede avanços em áreas de interesse comum.

Amorim também ressaltou a dimensão multilateral da iniciativa, mencionando a presença do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na cerimônia de fundação da Waico: “Eu quero frisar que, no caso da Waico, estava lá presente o secretário-geral da ONU, que deu à Waico, de certa maneira, uma espécie de bênção multilateral ao evento.”

Minerais críticos e terras raras

Outro eixo das conversas foi a necessidade de ampliar a cooperação tecnológica a partir dos minerais críticos e das terras raras. No Brasil, a Lei nº 15.506, sancionada em 16 de setembro, criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce), com medidas voltadas à pesquisa, mineração, beneficiamento e transformação mineral.

Amorim relacionou o tema à estratégia brasileira de desenvolvimento tecnológico e à necessidade de agregar valor aos recursos minerais. “No caso do Brasil, o presidente Lula tem sempre reiterado que nós não queremos só ser exportadores de minérios. Eu acho que é outro aspecto: queremos beneficiar, valorizar, usar cientificamente.”

O assessor de Lula também destacou que o país precisa identificar quais são suas próprias necessidades estratégicas, incluindo defesa, ciência, espaço, supercomputação, energia e indústria automobilística.

“Eu acho que a gente precisa trocar experiências com a China, que é muito rica também nesse material. Não é que ela precise do nosso, nem nós vamos precisar do dela necessariamente. É mais uma questão de trocar experiências de como fazer esse beneficiamento e como utilizar isso em prol de um desenvolvimento tecnológico. Pode ser cooperativo, mas tem que guardar um grande grau de autonomia.”

Multilateralismo

A mesma preocupação aparece na avaliação de Amorim sobre o multilateralismo e a cooperação financeira. Segundo ele, Brasil e China possuem uma convergência importante na defesa do sistema multilateral e podem ampliar a cooperação no âmbito do Brics e de suas instituições.

“A China tem, como o Brasil, uma vocação natural pelo multilateralismo. Eu citei até uma frase que eu tinha lido do Xi Jinping, de que é preciso carregar a tocha do multilateralismo, porque é fundamental para eles, para o país que progrediu, como ele progrediu, dentro de um sistema multilateral de respeito, pelo menos de algum respeito às regras internacionais. E o Brasil, idem, também precisa disso para poder avançar.”

A 18ª Cúpula do Brics foi realizada em 12 e 13 de setembro, em Nova Délhi, na Índia. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado pelo grupo, participou do encontro e teve seu papel no financiamento do desenvolvimento sustentável e da infraestrutura reconhecido na declaração da cúpula.

Para Amorim, a cooperação financeira e monetária é uma área que pode ganhar espaço nas relações entre os países do Sul Global. “Eu acho que esse também é um campo em que a China pode, sem dúvida, ajudar e também ajudar a que o Banco dos Brics seja cada vez mais ativo.”

Editado por: Rafaella Coury

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