O circuito de produção e circulação do audiovisual brasileiro sofreu mudanças provocadas pelas plataformas e pelas novas tecnologias. O resultado foi um ganho de poder para os setores corporativos que dominam o lado mais forte do setor e concentram poder de decisão e barganha. Quem avalia essas questões são diversos produtores de cinema e vídeo nos debates realizados no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Estiveram presentes na terça-feira (15) nomes como Pedro Tinen, Célia Catunda, Pola Ribeiro, Tiago de Aragão, André Saddy e Aleques Eiterer.
Além dos impactos sobre regulação, direitos, concentração econômica e exibição de obras e soberania audiovisual, eles colocaram em discussão as transformações estruturais que atravessam o audiovisual brasileiro diante das mudanças na economia digital. As conversas partiram de um cenário marcado pelo avanço das plataformas, da inteligência artificial e de novas tecnologias, mas também pela concentração econômica e pela disputa em torno de quem define as regras de produção, circulação e acesso às obras.
Nesse contexto, questões como regulação, direitos, soberania e participação dos criadores ganharam centralidade no debate, especialmente diante da ausência de um marco regulatório brasileiro para o vídeo sob demanda (VOD).
Regulação do streaming
Ao analisar a situação sobre a regulação do streaming, a cineasta e produtora de animação Célia Catunda adverte para o risco de desmonte da produção audiovisual independente no país. Segundo a diretora das séries animadas “Peixonauta” e “O show da Luna”, ao abrir brechas para que grandes plataformas utilizem parcelas de tributos para financiar suas próprias criações, a nova legislação enfraquece o modelo que garantiu a consolidação do setor nas últimas décadas.
Em entrevista ao Brasil de Fato DF, Célia Catunda destacou que uma regulação justa com os produtores independentes esbarra no interesse dos proprietários das plataformas.
“Acho que esses grupos corporativos que estão também no streaming não têm interesse em cumprir cotas e investir em produção independente. Isso é uma luta que tem que ser da sociedade. Porque eles, que são proprietários das plataformas, não vão querer mudar uma situação que está favorável para o meio corporativo”, afirma.

Ela ressalta que essas obras, vendidas como “originais, que de originais não tem nada”, transferem a propriedade intelectual integralmente para os conglomerados multinacionais, “reduzindo o produtor a um prestador de serviços”. Para a realizadora, esse modelo de contratação sem retenção de direitos patrimoniais inviabiliza a autonomia e sustentabilidade.
Como contraponto a essa lógica, a produtora relembra a trajetória de sucesso do estúdio Pinguim Content, sustentada pela retenção e licenciamento de suas marcas no longo prazo, que continuam rendendo contratos internacionais décadas após a estreia. Contudo, Célia avalia que o setor vive um retrocesso impulsionado pela ausência de obrigações regulatórias nos serviços digitais.
No segmento infantil, o cenário é agravado pelo desinteresse das plataformas em contratar conteúdo nacional, sob o pretexto de que “as crianças teoricamente já estão assistindo de graça no YouTube”. O bloqueio ao produto brasileiro, na visão dela, não decorre de deficiências artísticas ou técnicas, mas de uma recusa deliberada das corporações em promover aquilo que não lhes pertence: “É simplesmente uma questão de não querer abrir espaço para essa qualidade, porque eles não detêm a propriedade sobre ela”.
“O audiovisual entra no cotidiano de todo mundo. Quando o público sintoniza um espaço como o Canal Curta! e assiste a uma produção nacional, a reação imediata é de identificação: ‘Olha que legal, isso retrata a nossa realidade!’. No entanto, leva tempo até que as pessoas percebam o impacto concreto de se verem representadas na tela e entendam o valor dessa diferença”, afirma Célia.
Para além das disputas de mercado, Célia amplia a reflexão ao apontar que a vulnerabilidade cultural é inseparável da dependência em infraestrutura digital. Ao destacar que o Brasil deixou de investir em centros de dados e servidores próprios nas últimas décadas, ela denuncia que o país se tornou um “inquilino no nosso próprio país”, pagando nuvens no exterior e “ainda por cima com inteligência artificial, alimentando o monstro”.
Diante desse quadro, a cineasta conclui que não adianta apenas subsidiar o desenvolvimento de obras se o Estado não garantir sua circulação, já que “não adianta você fomentar uma produção que não encontra espaço para chegar nas pessoas”.
Em sua análise, sem um marco regulatório consistente que assegure cotas, investimento obrigatório e direitos sobre a criação local, instala-se um processo de subordinação estrutural: “A perda de autonomia digital, tecnológica, tá totalmente ligada com a perda de soberania cultural. São coisas que andam juntas”.

De forma geral, os debates apontaram para a necessidade de uma atuação coordenada entre poder público, empresas, plataformas, produtores, realizadores e diferentes territórios. A discussão sobre o futuro do audiovisual brasileiro esteve ligada, assim, à capacidade de o país formular políticas diante das transformações globais sem perder autonomia sobre seu próprio mercado e sua produção cultural.
A articulação entre União, estados e municípios, o fortalecimento dos mercados internos e a criação de mecanismos de regulação e cooperação apareceram como elementos importantes para transformar a diversidade do audiovisual brasileiro em uma estratégia comum de desenvolvimento e ampliar sua capacidade de inserção nacional e internacional.
Diversidade de produção
Outro eixo comum aos debates foi a necessidade de pensar o audiovisual para além da produção de filmes isoladamente, considerando a cadeia econômica e cultural que permite que essas obras sejam financiadas, circulem e encontrem diferentes públicos. A transformação tecnológica foi apresentada, portanto, não apenas como uma questão de inovação, mas como parte de uma disputa por mercados, investimentos e capacidade de decisão.
Ao mesmo tempo, a diversidade territorial brasileira apareceu como um elemento estratégico: a existência de diferentes polos de produção nos estados e municípios pode ser articulada em uma política mais integrada, capaz de estimular cooperação, coproduções regionais e circulação de obras.
O cineasta Pola Ribeiro é presidente da Bahia Filmes, recém-criada como empresa pública em um contexto de retração estatal. “Os produtores e cineastas brasileiros sempre criaram uma estrutura de produção que sempre valorizou a produção, porque era necessário. Mas não pode ser apenas os filmes, eles não subsistem sozinhos. É necessário uma boa formação de todo o ciclo do filme, até o consumo e a preservação”, reflete.
Ele expõe uma crise sistêmica no cinema nacional, caracterizada pela dependência estrita de editais, aversão ao risco de mercado, descompasso orçamentário que negligencia formação e memória, e um “desalento” que condena as obras à invisibilidade nas salas de exibição por falta crônica de público.
“Então, se a gente faz um filme que as pessoas não veem, aí sim fica muito caro. Nós queremos que seja barato. E é barato porque é pesquisa, envolve muita gente, distribui renda, traz à tona outros assuntos, movimenta outros mercados, pode ser visto por muita gente em escala, ao longo do tempo. A gente morre e os filmes continuam. Então ela vai se tornando mais barata a cada vez que é vista”, afirma.
Ribeiro sustenta que o cinema deve ser encarado essencialmente como processo de comunicação e diálogo com a sociedade, apontando que a prioridade da nova entidade é articular uma estratégia integrada que vai da ocupação de múltiplos canais de difusão ao fortalecimento de estruturas públicas complementares — como a Dimas, os festivais e os cineclubes —, conectando a produção baiana a novos públicos e garantindo sua relevância cultural e econômica.
“E a ideia é essa: é ser uma plataforma que potencializa o audiovisual dentro da sociedade brasileira, mas que trabalha para desenvolver a sociedade brasileira pelo audiovisual”, completa o cineasta.
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