O Ministério da Saúde realizou, nesta quarta-feira (16), um encontro virtual com jornalistas para detalhar o plano de contingência e as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) diante dos impactos do fenômeno El Niño, que atinge o patamar de “muito forte” neste segundo semestre de 2026.
Com o anúncio do plano setorial AdaptaSUS, que prevê investimentos de R$ 9,8 bilhões para adaptação climática da rede pública até 2035, o governo federal tenta antecipar cenários de crise. No entanto, para quem atua na ponta e vive nas periferias do Rio Grande do Sul, a urgência é imediata e esbarra nas cicatrizes profundas deixadas pelas recentes tragédias que assolaram o estado.
Durante a coletiva, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou que a pasta enxerga a crise climática como uma “crise de saúde pública” de primeira ordem. O plano federal prevê o fortalecimento da vigilância epidemiológica e a expansão da Força Nacional do SUS, que conta com uma de suas bases regionais de pronta-resposta em Porto Alegre.
Doenças e interrupção de serviços preocupam

A chegada da primavera deve concentrar o período mais crítico na região Sul. Além do risco imediato de afogamentos, ferimentos graves e desalojamento de famílias, o acúmulo de água acarreta consequências sanitárias severas a médio prazo. A pasta projeta um aumento potencial em diagnósticos de leptospirose, gastroenterites, hepatite A e febre tifoide. Outro ponto de atenção é o impacto na continuidade de tratamentos de rotina.
Para evitar o colapso do atendimento, o governo federal aposta na operação de estruturas descentralizadas, usando a inteligência climática como aliada. O monitoramento contínuo do volume das chuvas e do nível dos rios já está sendo feito pelos Centros de Informação em Saúde e Clima (Cisc) localizados em Porto Alegre e Curitiba. Essas unidades auxiliam prefeituras e governos estaduais na formulação de Planos de Contingência e no desenho de linhas de cuidado em saúde mental para o período pós-desastre.
Infraestrutura resiliente e a Força Nacional do SUS

Como resposta estrutural, o Ministério da Saúde destacou que o Sul conta com 478 Unidades Básicas de Saúde (UBS) resilientes entregues ou em fase de construção por meio do Novo PAC. Essas estruturas contam com especificações técnicas para resistir a eventos extremos: são erguidas em terrenos seguros, contam com painéis de energia solar, geradores próprios e reserva hídrica capaz de manter o posto operando de forma autônoma por até 72 horas. A frota regional também foi reforçada com 709 ambulâncias do Samu.
Caso postos de saúde tradicionais sejam destruídos ou inundados, a Força Nacional do SUS (FN-SUS) — que mantém uma base ativa na capital gaúcha — atuará com o envio imediato de unidades móveis e modulares. O Ministério também estruturou uma logística ágil para o envio de kits de medicamentos de urgência e insumos para purificação de água potável, operando em parceria com a Defesa Civil e com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Atualmente, o país dispõe de três bases regionais da FN-SUS em pleno funcionamento (no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia), o que possibilita um tempo de resposta a emergências de no máximo 12 horas. Apenas em 2026, a Força Nacional do SUS já realizou 11 missões em oito estados, sendo cinco delas diretamente motivadas por desastres climáticos, totalizando quase 5 mil atendimentos de saúde.
O horizonte do AdaptaSUS
O pacote de medidas integra o AdaptaSUS, o plano plurianual lançado pelo governo federal na COP30 para blindar a rede pública contra o colapso climático. Com metas traçadas até 2035, a estratégia nacional prevê o cumprimento de 27 metas e 93 ações diretas, movimentando um investimento global de R$ 9,8 bilhões.
Em escala nacional, o programa já soma mais de 2,2 mil UBS resilientes finalizadas ou em obras através do Novo PAC Saúde e do Programa de Reconstrução, pavimentando um caminho onde o SUS não seja apenas uma rede de atendimento, mas uma barreira de proteção social contra o avanço da crise climática no Brasil.



