QUEM DISPUTA O QUÊ

Vereadores e deputados ganham peso entre as ocupações declaradas por candidatos no RS

De 2022 a 2026, advogados e empresários seguem entre os maiores grupos; professores avançam e servidores recuam

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As eleições de 2026 serão realizadas no dia 4 de outubro (primeiro turno) e 25 de outubro
Eleições de 2026 serão realizadas no dias 4 (primeiro turno) e 25 de outubro | Crédito: Divulgação/TSE

Advogados, empresários e vereadores em busca de um mandato maior. Esse é o retrato mais recorrente entre as candidaturas do Rio Grande do Sul tanto em 2022 quanto em 2026, segundo levantamento nos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os registros de candidatura ao Executivo estadual, ao Senado, à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa gaúcha. Entre um pleito e outro, porém, a comparação revela mudanças relevantes na composição profissional de quem disputa uma vaga no estado.

O total de candidaturas registradas no Rio Grande do Sul para esses cargos caiu de 1.437 em 2022 para 1.051 em 2026, uma redução de 26,9%. Por isso, a análise das profissões precisa considerar não apenas o número absoluto de candidatos em cada ocupação, mas o peso proporcional de cada categoria dentro do total de cada ano. Uma queda no número de candidatos de uma profissão pode simplesmente acompanhar a retração geral das candidaturas, sem significar necessariamente menor interesse daquele grupo profissional pela disputa.

Vereadores de olho em mandatos maiores

“O grupo mais numeroso de candidaturas no Rio Grande do Sul, tanto em 2022 quanto em 2026, é formado por pessoas que declararam as ocupações de vereador ou deputado. Somadas, essas duas ocupações representavam 10,86% do total de candidaturas gaúchas em 2022 e subiram para 13,13% em 2026.

A maior parte dos vereadores candidatos mira uma cadeira na Assembleia Legislativa: em 2022, 76 dos 104 vereadores que concorreram a outros cargos buscavam uma vaga de deputado estadual, e 22 miravam a Câmara dos Deputados, em Brasília. Em 2026, esse padrão muda de proporção: dos 89 vereadores candidatos, 53 buscam o Legislativo estadual e 32 miram o federal — um crescimento na fatia dos que apostam em Brasília, de 21,2% para 36% do total de vereadores candidatos.

Entre os que declararam a ocupação de deputado, o movimento é semelhante: em 2022, 32 dos 52 candidatos buscavam reeleição ou uma vaga na Assembleia Legislativa e 18 miravam a Câmara dos Deputados. Em 2026, dos 49 candidatos, 26 disputam uma vaga no Legislativo estadual e 20 no federal.

Direito e empresariado seguem entre as ocupações mais numerosas

Advogados e empresários continuam entre as ocupações mais numerosas nos dois pleitos, mas com movimentos distintos. A proporção de candidatos que se declaram empresários caiu de 11,2% do total em 2022 para 10,37% em 2026. Já a proporção de advogados cresceu ligeiramente, de 8,91% para 9,23%.

Somando empresários, administradores, comerciantes e comerciários — categorias ligadas à atividade empresarial e comercial —, o conjunto caiu de 16,49% para 15,22% do total de candidaturas gaúchas entre os dois pleitos.

Queda na presença de servidores públicos e policiais

Um dos deslocamentos mais expressivos da comparação está no funcionalismo público. A soma de servidores públicos municipais, estaduais e federais em atividade caiu de 7,45% do total de candidaturas em 2022 para 4,76% em 2026. Servidores públicos aposentados e militares reformados também perderam espaço relativo, de 5,85% para 4,28% do total.

Dentro desse grupo, chama atenção a retração dos candidatos que se declaram “militar reformado”: de 19 candidaturas em 2022, equivalentes a 1,32% do total, para apenas duas em 2026, ou 0,19% — a maior queda proporcional entre todas as ocupações analisadas. A presença de policiais militares entre as candidaturas também recuou, de 1,74% do total em 2022 para 1,24% em 2026.

Para a socióloga Lúcia Garcia, técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), essa retração tem raízes que remontam aos anos 1990. “Desde os anos de 1990, não só enfrentamos um ataque objetivo ao Estado, políticas e patrimônio públicos, através de privatizações, avanço da terceirização e focalização da ação estatal em clientelas específicas, como uma desconstituição de direitos dos servidores”, afirma.

Segundo ela, quando essa pauta se impôs, “encontrou uma categoria ainda organizada, com capacidade de reação”, mas “a persistência da proposta neoliberal transformou a atividade e o perfil destes profissionais” — que hoje “não apenas convivem com a precarização, instabilidade de contratos precários e laços mais frágeis com o senso coletivo e comunitário”, mas “têm pouco tempo para sua organização nos sindicatos e associações”.

Na avaliação da pesquisadora, “ninguém sai do cotidiano e transforma-se em liderança”; é preciso “ultrapassar um longo período para se constituir em liderança — independentemente do espectro ideológico e partidário”. Garcia resume o cenário como resultado de fatores entrelaçados: “esta realidade, no meu entender, tem como pano de fundo as condições de trabalho no setor público, mas também a perda de prestígio do Estado e os novos desafios do sindicalismo no segmento”. “As questões do trabalho se entrelaçam com os dilemas da organização trabalhista”, completa.

Sobre a queda específica entre os policiais militares, a pesquisadora do Dieese aponta uma mudança de conjuntura eleitoral. “O que tivemos foi uma excepcionalidade nas últimas eleições — a violência hoje perde prestígio como solução simples para problemas complexos”, avalia. Ainda assim, pondera, “a segurança pública ainda não apresenta uma discussão madura para a sociedade”.

Educação e saúde ganham espaço

Na direção oposta, a área de educação registrou o maior crescimento relativo entre os grandes grupos ocupacionais analisados. Somando professores de ensino fundamental, médio e superior, a categoria foi de 2,92% do total de candidaturas em 2022 para 4,95% em 2026.

O crescimento aparece nos três níveis de ensino: professores de ensino fundamental passaram de 15 para 18 candidaturas; os de ensino médio, de 16 para 20; e os de ensino superior, de 11 para 14 — mesmo com o total geral de candidaturas encolhendo no período. A área da saúde também cresceu em termos proporcionais, de 2,78% para 3,52% do total, com destaque para a categoria “enfermeiro”, que passou de seis candidaturas em 2022 (0,42% do total) para 15 em 2026 (1,43%).

Garcia relaciona esse avanço a um processo de desgaste acumulado nas duas áreas. “A política sempre se constrói sobre os sintomas mais evidentes da crise de reprodução social que o Estado mínimo produz”, diz. Segundo ela, “a educação do Rio Grande do Sul, que foi durante décadas um diferencial do estado, foi deliberadamente destruída nas últimas três gestões estaduais e nos municípios gaúchos”. “No caso da saúde, a questão é a disputa orçamentária”, complementa.

Para a pesquisadora, o crescimento das candidaturas de professores e profissionais de saúde tem relação direta com os espaços coletivos de organização dessas categorias. “Embora atacadas, estas políticas passam por esferas de discussão — reuniões de professores, conselhos de classe, reuniões de pais e mestres, Conselhos de Saúde, formações e reuniões nos postos de atendimento da saúde pública”, explica.

“Estes profissionais tomam contato com diagnósticos sobre a realidade de seus setores e têm oportunidade de construir lideranças e, portanto, reação. Com isto, professores e profissionais da saúde se colocaram em evidência, em atividade de relevância social”, afirma Garcia.

“O trabalho é relevante para a organização política, porque há diferenças importantes entre o trabalho isolado, fragmentado, atomizado, e aquele que se realiza coletivamente”, avalia a pesquisadora. Segundo ela, é preciso considerar também “o ponto ou estágio do enfrentamento entre a destruição das alternativas coletivas e públicas e a capacidade de resistência e organização de respostas — mesmo que estas soluções venham de diferentes posições partidárias”. “Então, a educação e a saúde constituem políticas essenciais e são as últimas na esteira de destruição da coisa pública”, conclui a respeito desse ponto.

O setor de agricultura e pecuária, somando agricultores e produtores agropecuários, se manteve estável em número absoluto — 25 candidaturas em cada um dos dois pleitos —, mas cresceu em termos proporcionais, de 1,74% para 2,38% do total, reflexo da retração geral do número de candidaturas no estado.

Quem são as mulheres em cada profissão

O cruzamento entre profissão e gênero mostra concentrações que se mantêm e outras que se alteram entre os dois pleitos. A ocupação “dona de casa” seguiu sendo declarada exclusivamente por mulheres nos dois anos, com 11 candidaturas em 2022 e seis em 2026. Já entre os professores de ensino fundamental, a presença feminina cresceu: de nove mulheres em 15 candidaturas em 2022 (60%) para 15 mulheres em 18 candidaturas em 2026 (83,3%).

Entre advogados, a fatia de mulheres subiu de 24,2% do total da categoria em 2022 (31 de 128) para 33% em 2026 (32 de 97). Entre empresários, o número de mulheres caiu de 48 para 27 no mesmo período em que o de homens caiu de 113 para 82, resultando em recuo da fatia feminina na categoria, de 29,8% para 24,8%.

Entre vereadores candidatos a outros cargos, a fatia de mulheres se manteve estável, em torno de 33,7% nos dois pleitos. Já entre candidatos que declararam a ocupação de deputado, a presença feminina cresceu de 17,3% (nove de 52) para 26,5% (13 de 49). Na agricultura, nenhuma mulher se declarou agricultora entre as candidaturas gaúchas de 2022, e quatro se declararam agricultoras em 2026, das 18 candidaturas totais da categoria naquele ano.

Menos ‘outros’, mais categorias específicas

Um dado de metodologia também é, em si, informativo: a proporção de candidatos que se enquadraram na categoria genérica “outros” — usada quando a ocupação declarada não se encaixa nas opções específicas do formulário do TSE — caiu de 18,86% do total de candidaturas em 2022 para 12,84% em 2026. O número de ocupações distintas declaradas também recuou ligeiramente, de 111 categorias diferentes em 2022 para 105 em 2026.

A profissionalização da política

O levantamento também mostra que candidatos que declararam as ocupações de vereador ou deputado somam uma fatia crescente das candidaturas no Rio Grande do Sul. Para Garcia, esse movimento reflete um processo de especialização das carreiras políticas. “Há um componente da especialização e institucionalização das lideranças que buscam as carreiras políticas profissionais”, avalia.

“Isto nasce da própria complexidade dos problemas brasileiros, que dificilmente são resolvidos ao nível da paróquia municipal e exigem o conhecimento sobre os circuitos superiores de decisão política”, explica. Segundo ela, “a cada passo dado, sabemos que a obtenção de consensos se torna mais difícil e as exigências de comunicação dos parlamentares com sua base se torna mais exigente”. “Embora tenhamos alguns ‘fenômenos’ explicados pelo poder financeiro, a consolidação de lideranças públicas se dá mesmo nesta ‘profissionalização’”, completa.

A pesquisadora do Dieese aponta, no entanto, um limite nesse processo: “o nosso problema, a meu ver, está na barreira à entrada de novas lideranças e à ausência de uma visão partidária de formação de lideranças no longo prazo”.

Segundo Garcia, no caso da esquerda e dos movimentos sociais, superar essa barreira “exige estratégia, primeiro na constituição de bases sociais sólidas, no sindicato e nos movimentos, e depois na garantia de recursos financeiros para apresentação de novos candidatos à sociedade em geral”. “E, neste tocante, a concentração de financiamento em lideranças consolidadas se constitui em barreira poderosa contra a renovação”, finaliza.

Editado por: Marcelo Ferreira

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