Paulo Freire completaria 105 anos neste sábado (19). Nascido em 19 de setembro de 1921, no Recife (PE), o educador e filósofo se tornou um dos principais nomes do pensamento educacional brasileiro, com uma obra que atravessou fronteiras e colocou a educação como instrumento de leitura e transformação da realidade.
Declarado Patrono da Educação Brasileira em 2012, Freire desenvolveu uma concepção pedagógica baseada no diálogo, na autonomia e na participação ativa dos estudantes no processo de aprendizagem. Sua produção ultrapassou a discussão sobre métodos de alfabetização e abordou questões como desigualdade, colonialismo, democracia, cultura e participação popular.
Mais de duas décadas após a morte do educador, o pensamento freiriano continua presente em escolas, universidades e experiências de educação popular dentro e fora do Brasil. Entre elas estão iniciativas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que tem Paulo Freire como uma de suas referências pedagógicas na alfabetização de jovens e adultos e na formação realizada em assentamentos e acampamentos.
A relação de Freire com o movimento vem de longa data. Em 25 de maio de 1991, o educador participou do lançamento de um projeto de alfabetização de jovens e adultos no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra (RS). Diante dos trabalhadores sem terra, relacionou diretamente a alfabetização ao processo mais amplo de organização e luta social.
“Esta tarde é o começo de algo que já começou. Começou até o momento mesmo das primeiras posições de lutas que vocês assumiram, mas esta tarde marca o começo mais sistematizado de um novo processo ou de um desdobramento do primeiro, de um grande processo de luta, que é um processo político, que é um processo social e que também é um processo pedagógico”, afirmou Freire.
Na mesma fala, o educador relacionou esse processo ao acesso ao conhecimento: “Tem a ver exatamente com dois direitos fundamentais, entre outros, mas dois direitos fundamentais que poucos têm e pelos quais temos que brigar. O direito de conhecer, o conhecer o que já se conhece, e o direito a conhecer o que ainda não se conhece”.
A trajetória de Freire também foi marcada pelo exílio. Após o golpe militar de 1964, ele deixou o Brasil e passou pela Bolívia antes de seguir para o Chile, onde viveu até 1969. Foi no país que encontrou condições para desenvolver em maior escala experiências de educação popular ligadas ao campo e à reforma agrária.
No Chile, Freire atuou no Instituto Nacional de Desenvolvimento Agropecuário (Indap), em um período de mudanças profundas no meio rural. Segundo pesquisa da historiadora Joana Salém, cerca de 10 mil educadores foram formados para trabalhar com técnicas desenvolvidas pelo brasileiro. Entre 1967 e 1969, mais de 225 mil camponeses passaram a integrar sindicatos comunais e frequentaram cursos influenciados pela pedagogia freiriana.
“O que se pode dizer é que ele ofereceu ferramentas pedagógicas e políticas para esses educadores, no sentido de ampliar e acelerar o processo de politização camponesa”, explicou Salém em entrevista ao Brasil de Fato em 2023.
A pesquisadora ressalva que esse processo não pode ser atribuído individualmente a Freire. A organização dos trabalhadores rurais chilenos já estava em curso e se relacionava às disputas políticas e sociais do país. Ainda assim, segundo ela, o exílio abriu uma possibilidade que havia sido interrompida no Brasil pelo golpe.
“No Chile ele encontrou condições políticas para desenvolver de fato seu método em larga escala. É um processo de politização que é fomentado, acelerado e ativado por esse método”, afirmou.
Foi também no Chile que Freire finalizou “Educação como prática da liberdade” e escreveu “Pedagogia do oprimido”, duas de suas obras fundamentais.
Depois, já radicado em Genebra, na Suíça, o educador trabalhou em projetos em diferentes partes do mundo, inclusive em países africanos que haviam conquistado a independência do domínio colonial português.
Freire retornou definitivamente ao Brasil em 1980. Anos depois, entre 1989 e 1991, foi secretário municipal de Educação de São Paulo durante a gestão de Luiza Erundina. Morreu em 2 de maio de 1997, aos 75 anos.
Especialmente na última década, Paulo Freire se tornou alvo recorrente da extrema direita brasileira. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fez desses ataques parte de seu discurso político e, já na presidência, chegou a chamar o educador de “energúmeno”. Uma das críticas recorrentes desses grupos atribui a Freire responsabilidade pelos problemas da educação brasileira e acusa sua pedagogia de promover “doutrinação” política nas escolas.
A argumentação, porém, parte de uma premissa falsa: a pedagogia freiriana nunca foi adotada como método oficial ou hegemônico nas escolas brasileiras. Ao contrário da ideia de transmissão de uma visão pronta de mundo, Freire criticava justamente a educação em que o professor deposita conhecimentos no aluno e defendia uma aprendizagem baseada no diálogo, na autonomia e no desenvolvimento da capacidade crítica dos estudantes.
No aniversário de 105 anos do nascimento do educador, o Brasil de Fato selecionou cinco livros para quem quer conhecer algumas das principais ideias e experiências que marcaram sua trajetória.
Educação como prática da liberdade
Publicado em 1967 e escrito durante o exílio de Paulo Freire no Chile, “Educação como prática da liberdade” é uma das portas de entrada para o pensamento do educador.
No livro, Freire parte da realidade brasileira e das experiências de alfabetização de adultos desenvolvidas antes do golpe de 1964 para defender uma educação capaz de formar sujeitos críticos e participantes da vida política e social.
É nesse contexto que aparece a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte. Em 1963, cerca de 300 trabalhadores participaram do projeto de alfabetização que se tornaria uma das experiências mais conhecidas da trajetória de Freire. O trabalho serviria de referência para o Programa Nacional de Alfabetização do governo João Goulart, interrompido após o golpe militar.

O período chileno, porém, permitiu que as ideias que Freire vinha desenvolvendo no Brasil fossem experimentadas em outra escala. O educador trabalhou diretamente com programas destinados aos trabalhadores rurais em um momento no qual o país avançava na reforma agrária e na organização sindical no campo.
Segundo Joana Salém, esse contexto foi decisivo para o desenvolvimento do pensamento freiriano. “Ao conduzir pedagogias na reforma agrária chilena, o brasileiro encontrou terreno fértil para sua proposta conscientizadora, em um contexto favorável às mudanças estruturais”, escreveu a pesquisadora em estudo sobre a passagem do educador pelo país.
Pedagogia do oprimido
É a obra mais conhecida de Paulo Freire e uma das mais difundidas do pensamento educacional brasileiro. Escrita durante seu exílio no Chile, “Pedagogia do oprimido” foi publicada inicialmente em outros países e chegou ao Brasil em 1974, durante a ditadura militar.
No livro, Freire desenvolve sua crítica ao que chama de “educação bancária”, modelo no qual o professor é tratado como detentor do conhecimento e os estudantes como recipientes nos quais esse saber deve ser depositado.
Em oposição a essa lógica, propõe uma educação baseada no diálogo e na construção do conhecimento. Educadores e educandos ocupam posições diferentes no processo educativo, mas ambos participam da produção do saber.
A obra também amplia a reflexão para além da escola. Freire discute as relações entre opressores e oprimidos e sustenta que a transformação social não pode ocorrer sem a participação dos próprios sujeitos submetidos às estruturas de opressão. Diálogo, consciência crítica e ação transformadora aparecem, assim, como dimensões inseparáveis da educação.
Esses princípios ajudam a explicar a influência de Freire sobre movimentos populares como o MST. Nas práticas educacionais desenvolvidas pelo movimento, a alfabetização e a escolarização são articuladas à realidade dos territórios e às experiências dos trabalhadores do campo. A educação é entendida como parte da formação dos sujeitos que participam da organização coletiva de suas comunidades.
Cartas à Guiné-Bissau
“Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo” permite conhecer uma dimensão menos lembrada da trajetória de Paulo Freire: sua atuação com países africanos recém-independentes.
Publicado em 1977, o livro reúne registros da experiência iniciada após Freire e sua equipe serem convidados a colaborar com a construção de um programa de alfabetização de adultos na Guiné-Bissau, que havia conquistado sua independência de Portugal poucos anos antes.
O trabalho ocorreu em um momento em que o país buscava não apenas ampliar a alfabetização, mas construir um sistema educacional próprio após séculos de colonialismo. Freire trabalhou com integrantes do Instituto de Ação Cultural (Idac) em colaboração com autoridades e educadores guineenses.

As cartas registram justamente esse processo. Em vez de apresentar um modelo brasileiro pronto para ser transplantado para a África, Freire defende a necessidade de conhecer a realidade local e construir o projeto junto aos sujeitos envolvidos.
A experiência coloca em primeiro plano a relação entre educação, descolonização e reconstrução nacional. Para Freire, superar o colonialismo não significava apenas conquistar a independência política, mas enfrentar estruturas culturais e educacionais deixadas pela colonização.
Pedagogia da esperança
Publicado em 1992, “Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido” retoma, mais de duas décadas depois, questões desenvolvidas no livro mais conhecido de Paulo Freire.
Freire revisita episódios de sua própria trajetória e reflete sobre a circulação e as diferentes leituras de “Pedagogia do oprimido” em vários países. O livro combina memória, reflexão política e discussão pedagógica para atualizar questões que haviam marcado sua produção durante o exílio.
A esperança do título não aparece como expectativa passiva de que as condições sociais irão melhorar por conta própria. Para Freire, ela precisa estar vinculada à ação humana e à possibilidade de transformar uma realidade considerada injusta.
Pedagogia da autonomia
Publicado em 1996, “Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa” foi o último livro de Paulo Freire lançado em vida. Nele, o educador concentra a reflexão na prática cotidiana de ensinar e na relação entre educadores e educandos.
Freire discute os conhecimentos e as posturas que considera necessários à atividade docente e rejeita a ideia de que ensinar seja simplesmente transferir conteúdos de uma pessoa para outra.
A curiosidade, o respeito aos conhecimentos trazidos pelos estudantes, a pesquisa, a reflexão crítica sobre a própria prática e o reconhecimento da autonomia dos educandos aparecem como elementos fundamentais do trabalho de quem ensina.
É também uma das obras em que fica mais explícita a dimensão ética da pedagogia freiriana. Para Freire, a maneira como se ensina não pode ser dissociada da concepção de ser humano e de sociedade que orienta a educação.
Publicado poucos meses antes de sua morte, o livro funciona como uma síntese de ideias construídas durante décadas de atuação.

