Ingerência

Abin alerta governo e TSE para nível ‘crítico’ de interferência dos EUA nas eleições brasileiras

Relatório aponta que Washington busca reduzir influência da China e ampliar controle sobre a América Latina

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Boneco gigante de Donald Trump e bandeiras dos Estados Unidos apareceram entre os manifestantes durante o ato bolsonarista de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo.
Boneco gigante de Donald Trump e bandeiras dos Estados Unidos apareceram entre os manifestantes durante o ato bolsonarista de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo (SP). | Crédito: Lucas Salum/Brasil de Fato

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou para um “nível de criticidade” o risco de influência e interferência externa dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. Em relatório reservado enviado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, o órgão aponta uma escalada das pressões do governo de Donald Trump sobre o Brasil e relaciona a atuação de Washington a uma estratégia mais ampla para reorientar politicamente a América Latina.

O documento, intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, foi encaminhado às autoridades no fim de agosto e teve seu conteúdo revelado neste sábado (19) pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

Segundo o relatório, há uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”, ainda que dentro de um padrão histórico de influência estadunidense sobre a região.

A avaliação não aponta manipulação das urnas ou alteração do resultado eleitoral. O alerta da Abin trata da possibilidade de pressões políticas, econômicas e diplomáticas interferirem no ambiente institucional e no debate público durante o processo eleitoral.

A agência situa essas ações dentro da estratégia adotada pelo segundo governo Trump para reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina.

De acordo com a análise, documentos estratégicos divulgados pelo governo estadunidense entre novembro de 2025 e maio deste ano apontam como objetivos reduzir a influência de potências consideradas rivais e impedir seu acesso a “ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas” da região.

A Abin identifica a China como um dos principais alvos dessa política. Na avaliação da agência, Washington busca ampliar seu controle direto ou indireto sobre esses recursos, seja por meio do governo estadunidense, seja pelo capital privado do país.

Apoio a governos conservadores

O relatório dedica atenção especial à atuação do secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos EUA, Marco Rubio. Segundo a Abin, sua política para a América Latina tem um componente ideológico e busca “influenciar e reorientar a política externa dos países da região”.

Essa estratégia incluiria, segundo o documento, afastar os países latino-americanos da China e promover uma reorientação política interna “por meio de apoio à ascensão de governos conservadores”.

A agência cita uma audiência de Rubio no Senado estadunidense, em junho, na qual o secretário relacionou a recuperação da hegemonia dos Estados Unidos na América Latina à presença de governos alinhados a Washington.

Na ocasião, Rubio afirmou que a região havia passado a contar com diversos governos “amigáveis” aos Estados Unidos durante o segundo mandato de Trump, apontando Brasil, Colômbia, Cuba, Nicarágua e Venezuela como exceções.

O documento também registra declarações nas quais Rubio responsabilizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, sob a alegação de que o Brasil não teria negociado “de boa-fé”.

Para a Abin, essa abordagem atribui caráter pessoal às pressões sobre o país e tem potencial para repercutir no debate público brasileiro durante o período eleitoral.

Brasil seria alvo por defender autonomia, diz Abin

Na avaliação da agência, o Brasil ocupa posição particular na estratégia dos Estados Unidos por ter um governo com “maior disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica” diante das pressões de Washington por concessões e realinhamento geopolítico.

O relatório afirma que, mesmo após momentos de distensão nas relações entre Lula e Trump, as ações adotadas pelos Estados Unidos desde maio indicam uma tendência de aumento das pressões.

Entre os episódios mencionados estão a tentativa de enquadrar organizações criminosas brasileiras como terroristas e as sanções anunciadas em julho contra dois brasileiros e empresas sediadas no Brasil e em Portugal, acusados pelo governo estadunidense de vínculos com redes de lavagem de dinheiro relacionadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Para a Abin, essas sanções representaram uma “mudança de fase” porque fizeram a pressão dos Estados Unidos produzir efeitos concretos sobre pessoas e empresas brasileiras.

“Com isso, a ação de interferência externa dos EUA passa a incidir diretamente sobre relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar, operações internacionais e exposição de terceiros a riscos de sanções secundárias”, diz trecho do relatório divulgado pela Folha de S. Paulo.

Segundo a análise, a estratégia ocorre de forma “gradual, combinada e adaptativa”, com a associação de organizações brasileiras a ameaças à segurança nacional estadunidense seguida de medidas capazes de produzir efeitos sobre empresas, bancos e outras instituições do país.

A agência alerta que esse tipo de sanção pode levar agentes econômicos brasileiros e estrangeiros a alterar decisões por receio de perder acesso ao sistema financeiro estadunidense ou de serem atingidos por sanções secundárias.

EUA fizeram exigências sobre eleição brasileira

O relatório também se insere em um contexto de atritos entre Brasília e Washington relacionados diretamente às eleições de 2026.

Em negociações realizadas em 2025, o governo Trump apresentou ao Brasil uma minuta de declaração conjunta que previa um compromisso brasileiro de não deter, prender ou limitar “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral.

A proposta dizia que o Brasil deveria se comprometer a realizar eleições “livres e justas” e garantir a participação dessas pessoas no pleito.

Nesta quinta-feira (17), Lula afirmou em entrevista à rádio Itatiaia que a proposta se tornou “arquivo morto” para o governo brasileiro. O presidente também rejeitou a possibilidade de conceder aos Estados Unidos tratamento prioritário no acesso às riquezas minerais do país.

O relatório reservado aprofunda uma preocupação que já havia aparecido em análises públicas da Abin. Em documento divulgado neste ano sobre os desafios de inteligência para 2026, a agência apontou a interferência externa como risco à soberania e alertou que a combinação de dependência tecnológica, desinformação, espionagem e coerção pode permitir que atores estrangeiros influenciem o debate público e processos decisórios no Brasil.

Editado por: Geisa Marques

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