Tecnologia e eleição

Facebook fatura R$ 159 milhões na eleição e expõe dependência das campanhas em relação às Big Techs

Gigante estadunidense lidera ranking de fornecedores do pleito de 2026 e levanta debate sobre soberania

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Mark Zuckerberg, CEO da Meta, saindo do tribunal de Los Angeles após depor em julgamento sobre vício em redes sociais.
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, saindo do tribunal de Los Angeles após depor em julgamento sobre vício em redes sociais | Crédito: Apu Gomes/AFP

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que a Facebook Serviços Online do Brasil Ltda. é, isoladamente, a maior fornecedora das campanhas eleitorais deste ano. A gigante da tecnologia já faturou R$ 159,3 milhões em impulsionamentos e serviços prestados a candidatos e partidos, um montante que escancara a dependência do processo eleitoral em relação às chamadas “Big Techs“.

A verba destinada ao Facebook supera com folga fornecedores tradicionais de mídia, serviços gráficos e produtoras de publicidade. A destinação massiva de recursos públicos para uma corporação privada estadunidense coloca a soberania do pleito em risco e chama a atenção de Rodolfo Avelino, professor do Insper e conselheiro do Coletivo Digital, para quem o montante expressivo não chega a ser uma surpresa, mas dimensiona a gravidade do cenário.

“As grandes plataformas digitais se tornaram parte da infraestrutura das campanhas eleitorais. O crescimento disso torna mais visível o tamanho dessa dependência. Para mim, a princípio, a questão não é somente quanto está sendo gasto na Meta ou Facebook, mas o que esse movimento representa”, pontua.

O professor destaca a contradição de utilizar dinheiro público para fortalecer monopólios de comunicação de outros países, neste caso os Estados Unidos. “Uma parcela cada vez maior desses recursos destinados à comunicação política passa por empresas globalizadas. Elas controlam a infraestrutura, os meios de segmentação e, de certa forma, também o método da distribuição e circulação desses conteúdos. Além da questão econômica, esses são recursos públicos que acabam alimentando uma estrutura digital concentrada em pontos americanos. O problema que vejo é o investimento de campanha para comunicação vindo de fora”, critica.

A dependência das plataformas também gera fragilidade tática para as próprias candidaturas, em especial as progressistas. A Meta, controladora do Facebook e do Instagram, é comandada pelo bilionário Mark Zuckerberg, cujo alinhamento com a extrema-direita internacional e figuras como Donald Trump tem se consolidado por meio de acenos regulatórios e tolerância com discurso de ódio dentro da plataforma.

Entregar o controle do debate público brasileiro a uma corporação com agenda política própria e declarada publicamente coloca a integridade das eleições em xeque, alerta Avelino. “Vários candidatos aprenderam bastante a usar redes sociais, mas existe uma diferença em saber produzir conteúdo para uma rede e compreender a lógica da tecnologia que está por trás dela. Mas não podemos ignorar, para não sermos inocentes, que quem controla essa infraestrutura pode influenciar no movimento, no engajamento e no funcionamento, favorecendo um lado ou outro”, explica.

Avelino alerta que a concentração de estratégias digitais em uma única plataforma deixa a política à mercê de decisões corporativas unilaterais: “O problema é você investir toda a sua área digital numa empresa que, de uma hora para outra, pode mudar a forma de operar. O candidato que concentra a comunicação numa plataforma se vê refém das alterações dessa empresa”, finaliza.

Editado por: Rodrigo Gomes

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