A Marcha da Maconha ocupou o Eixão do Lazer, em Brasília, em defesa da legalização da cannabis, do autocultivo e da ampliação do acesso ao uso medicinal. Pela primeira vez desde que começou a ser realizada no Distrito Federal, há 18 anos, a manifestação deixou a Esplanada dos Ministérios, espaço tradicional de atos políticos na capital, para ocupar uma das principais áreas de circulação e lazer da cidade.
A mudança de local foi apresentada pelos organizadores como uma estratégia para aproximar a pauta de um público mais amplo. Ao longo da marcha, participantes defenderam uma política de drogas baseada em direitos humanos e saúde pública, em contraposição à chamada guerra às drogas.
Entre as palavras de ordem presentes no domingo (20) estavam “chega de guerra às drogas”, “viva a legalização” e “legalize já”. O cultivo livre, associativo e popular também esteve entre as reivindicações.
Para Desiree Calvis, museóloga que participa da organização da Marcha da Maconha em Brasília, o movimento atravessa um momento de reorganização. Segundo ela, a participação popular diminuiu nos últimos anos, e a organização busca fortalecer a articulação entre ativistas, associações e pessoas que atuam na defesa da cannabis medicinal.
“A gente está nesse movimento de unir e comunicar”, afirma.

Desiree conta que, neste ano, a organização também promoveu atividades fora do circuito tradicional da marcha, como uma roda de conversa em Taguatinga, região administrativa do Distrito Federal, realizada no espaço cultural Olho de Águia. A iniciativa buscou levar o debate sobre a cannabis e pesquisas científicas para além das universidades.
A aproximação com diferentes públicos também aparece na tentativa de criar novas formas de comunicação e mobilização, como podcasts e outras atividades ao longo do ano.
Autocultivo e cannabis medicinal
O acesso à cannabis medicinal foi um dos pontos centrais da marcha. Para os participantes, a discussão sobre a legalização envolve não apenas o acesso aos produtos, mas também as condições de cultivo e a atuação das associações de pacientes.
Desiree critica um modelo de regulamentação que, segundo ela, pode concentrar a produção e o acesso nas mãos de grandes empresas e dificultar o atendimento à população de baixa renda.
“A gente vê acontecer de uma maneira que só está sendo legislada para quem tem dinheiro”, afirma.
Para a ativista, o autocultivo e as associações são fundamentais para evitar que a cannabis medicinal fique restrita a quem pode pagar pelos tratamentos. “A gente defende que a medicina, desde o plantio, ela já é a terapia”, diz.
A mesma preocupação aparece na atuação do Instituto Bioser, associação de pacientes medicinais de Brasília. Presidente da entidade, Igor Avelini participou da marcha representando pacientes e organizações da sociedade civil que atuam pelo acesso à cannabis medicinal.
“As drogas não devem ser tratadas como uma política de guerra, mas sim como uma política de inclusão e promoção da saúde”, afirma.
Avelini destaca a mobilização de famílias, a partir de 2014, para garantir acesso ao tratamento com cannabis, especialmente em casos de epilepsia grave e de difícil controle, entre outras condições.
Para ele, a atuação das associações vai além da produção de medicamentos. “A gente atua na parte de cuidado, de acompanhamento, integração, diálogo, de construção de uma saúde realmente comunitária e acessível”, afirma.

“Mudou minha vida”
A experiência de pacientes também esteve presente na marcha. Gyzelle Almada integra a ala medicinal e é paciente de uma doença rara e crônica inflamatória da pele. Ela conta que o uso da cannabis mudou sua rotina e sua qualidade de vida.
“Eu não andava, não levantava o braço, não fazia as coisas normais. Eu não conseguia fazer. E o tratamento com a maconha mudou minha vida”, relata.
Gyzelle participa do movimento pela legalização há anos. Antes de integrar a mobilização em Brasília, acompanhava as Marchas da Maconha no Rio de Janeiro. Hoje, faz parte da Bioser e defende o direito ao cultivo e à organização coletiva de pacientes.
“Eu acredito que a maconha tem que ser uma planta livre. Você pode plantar, pode se associar”, afirma. Ela também relata que uma médica que a acompanha registrou melhora em seu quadro após o uso do óleo de cannabis.

Articulação entre Brasília e Goiânia
A marcha também aproximou movimentos de diferentes cidades. Larissa Ribeiro, do Coletivo Mente Sativa, participou da mobilização em Brasília representando a Marcha da Maconha de Goiânia.
O coletivo atua durante todo o ano com atividades culturais e musicais relacionadas à pauta da cannabis. Em março, por exemplo, realizou uma batalha de mulheres em Goiânia. A participação em Brasília fez parte da estratégia de fortalecer a aproximação entre as duas mobilizações e a articulação nacional das Marchas da Maconha.
Para Larissa, a legalização está diretamente relacionada aos impactos da política de proibição. “A legalização é nossa luta principal, parar a morte dos jovens pretos na periferia”, afirma.
Ela também defende que o debate sobre a cannabis não fique restrito ao uso medicinal ou às possibilidades industriais da planta. Para o coletivo, a discussão sobre o uso recreativo também faz parte da luta pela legalização.

Marcha em período eleitoral
Aos 18 anos, a Marcha da Maconha de Brasília segue reunindo diferentes atores em torno da defesa da legalização da cannabis, do autocultivo e do acesso à cannabis medicinal, além da crítica à política de guerra às drogas. A mudança da Esplanada para o Eixão marcou, neste ano, uma tentativa de levar essas pautas para mais perto do cotidiano da população que circula pelo espaço.
Realizada a pouco menos de duas semanas do primeiro turno das eleições de 2026, a Marcha da Maconha também reuniu candidaturas que disputam cargos no Distrito Federal.
Entre os candidatos a deputado distrital, estiveram Max Maciel (Psol), Gabriel Magno (PT), Michel Platini (Psol) e Raphael Sebba (PSB). Na disputa por uma vaga de deputado federal, participou Fábio Felix (Psol).
A presença de políticos acrescentou à mobilização uma dimensão eleitoral em um momento de debate sobre políticas públicas relacionadas às drogas, à saúde e à segurança pública.
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