O DONO DO MUNDO

‘Ao vencedor, os espólios’: na ONU, Donald Trump assume saque de riquezas da Venezuela

Estadunidense ameaçou a América Latina e disse que ‘usará a força para preservar os interesses dos EUA’ na região

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Donald Trump durante discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22).
Donald Trump durante discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22) | Crédito: Brendan Smialowski/Pool/AFP

Em discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (22), o chefe do Executivo estadunidense, Donald Trump, assumiu publicamente que pratica espoliação, ou seja, o roubo, do petróleo venezuelano. Após celebrar a operação militar e “a prisão” do presidente Nicolás Maduro no dia 3 de janeiro deste ano, o presidente dos Estados Unidos afirmou que Washington, com a junção das reservas estadunidenses e venezuelanas, representa mais de 60% do petróleo mundial.  

“Estamos trabalhando com os líderes da Venezuela para construir um futuro melhor para a população local. No mês passado, assinamos o maior acordo petroleiro da história, envolvendo 65 bilhões de barris de petróleo, o que beneficiará os Estados Unidos e reduzirá o custo de energia no mundo todo. As maiores empresas de petróleo do mundo estão entrando no projeto com números incríveis”, declarou o líder republicano diante da delegação venezuelana, liderada pela presidenta em exercício, Delcy Rodríguez. 

“Somando os Estados Unidos e a Venezuela, detemos mais de 60% das reservas de petróleo do mundo. Este é talvez o maior acordo já feito e, ao vencedor, pertence o espólio”, agregou, passando a desafiar qualquer país que “ameace” os interesses dos Estados Unidos.

“Nossas ações na Venezuela comprovam que os Estados Unidos não permitirão que ameaças tenham bases de apoio no Hemisfério Ocidental. Se for necessário, usaremos nossa incomparável força militar para preservar os interesses vitais dos Estados Unidos”, afirmou Trump, que, durante vários trechos do discurso, ressaltou a suposta incapacidade dos países latino-americanos de reagirem a uma agressão militar estadunidense.

“A Venezuela possuía uma das estruturas militares mais fortes da vizinhança, mas isso não funcionou”, ressaltou. “Estamos reafirmando o poder americano e militar em nossa região e no mundo para criar um futuro mais seguro”, completou o magnata estadunidense. 

Combate ao ‘narcoterrorismo’: a desculpa perfeita

“Por décadas, governos anteriores permitiram que a região fosse dominada por gangues e cartéis sedentos de sangue, que desestabilizaram a área e promoveram a infiltração de adversários hostis nos Estados Unidos, mas isso não acontece mais”, declarou Donald Trump ainda em relação à América Latina. 

“Ao assumir o cargo, designei os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e desencadeei uma operação armada para eliminá-los. Os cartéis são o câncer do hemisfério ocidental, inimigos em guerra contra a civilização que usam assassinato, estupro e tortura como instrumentos de terror. Assim como o Estado Islâmico, eles devem ser mortos, exilados ou presos como combatentes inimigos, sem possibilidade de soltura. Com esse objetivo, os Estados Unidos realizaram dezenas de ataques contra embarcações de cartéis, reduzindo em 97% a entrada de drogas pelo mar e pelo oceano”, afirmou Trump, mencionando, portanto, o bombardeio estadunidense a embarcações civis, sobre as quais há relatos de mais de 150 mortos, sem qualquer comprovação de vínculo com o narcotráfico.

O chefe do Executivo dos EUA se referiu à suposta eliminação do chamado “Trem de Aragua”, apontada por ele como “a principal gangue da Venezuela”, e disse que o “México agora é o epicentro dessa ação”. “É intolerável para os Estados Unidos ter fronteiras dominadas por cartéis inimigos. O México precisa retomar o controle do seu território das mãos dos inimigos da humanidade”, declarou. 

Em seguida, Trump passou a referir-se a Cuba, país sobre o qual os Estados Unidos mantêm, há mais de 60 anos, um bloqueio econômico, acirrado nos últimos meses pelo cerco naval ao comércio cubano. O estadunidense confessou que trabalha para uma “mudança de regime” na ilha. 

“Nosso governo também atua para uma mudança radical em Cuba, onde o regime comunista enfrenta uma pressão sem precedentes. Trata-se de um estado absolutamente falido que vai cair. Marco Rubio está profundamente envolvido nas negociações com os cubanos, e não permitiremos um porto seguro do terrorismo à nossa porta”, apontou.

“O regime cubano passou décadas coordenando ações com redes comunistas nos Estados Unidos, cultivando ligações com o Partido Comunista dos Estados Unidos, a Antifa e os Socialistas Democráticos da América. O comunismo jamais entrará nos Estados Unidos, mas a liberdade chegará a Cuba, assim como a segurança chegará ao México”, afirmou Trump, ponderando em seguida que possui uma “ótima relação com o governo mexicano”. 

Lula sobre a Venezuela

Antes do discurso de Trump, foi a vez do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subir ao púlpito da Assembleia Geral da ONU. Em sua intervenção, o presidente do Brasil fez críticas indiretas à política externa dos Estados Unidos e mencionou a ingerência sobre a Venezuela. 

“A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos. O povo venezuelano merece definir o próprio destino”, declarou Lula.

O líder brasileiro afirmou ainda que a região voltou a “presenciar a ingerência externa em processos eleitorais“ e defendeu que a diplomacia é o único caminho para resolver as disputas regionais. 

“A diplomacia é a única opção. Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo”, afirmou o presidente. “Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas”, agregou, rejeitando, portanto, o papel de subserviência aos interesses de qualquer potência. 

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos”, disse o presidente brasileiro.

Editado por: Rafaella Coury

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