A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) avançou na cooperação com a estatal chinesa Sinomach Digital Technology Corporation ao assinar um Memorando de Entendimento (MdE) para criar o Centro de Cooperação Brasil-China para Aplicação de Inteligência Artificial na Agricultura, voltado à digitalização e mecanização da produção familiar.
“Essa cooperação Brasil-China é muito importante para adaptação de soluções tecnológicas na área de agricultura digital, automação, robótica e inteligência artificial, visando a produção de sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos”, disse ao Brasil de Fato a presidenta da Embrapa, Sílvia Massruhá, com exclusividade.
“A agricultura familiar ocupa uma posição central no sistema agrícola brasileiro. Ela constitui um pilar fundamental para assegurar o abastecimento alimentar nacional e a soberania alimentar”, disse Chen Yang, que faz parte da Unidade de Negócios de Agricultura Inteligente da SinomachDT, ao BdF. Para ela, o fato de que o MdE priorize o setor de agricultura familiar “reflete a visão compartilhada pelas cinco instituições parceiras”.
Além da Embrapa e da estatal chinesa, fazem parte do acordo a Universidade Agrícola de Nanjing (UAN), a Academia de Ciências Agrícolas de Jiangsu (Acaj) e a Associação Internacional para a Cooperação Popular (AICP), também conhecida como Baobab. O acordo foi firmado na segunda-feira (21), em Nanjing, capital da província de Jiangsu, onde fica a sede da Sinomach Digital.
O centro não terá uma sede física nem personalidade jurídica, será um programa de trabalho colaborativo de cinco anos, e envolve intercâmbios de pessoal de curta duração, criação de centros de demonstração de maquinário inteligente, pesquisa e desenvolvimento conjunto, e candidaturas conjuntas a financiamentos nos dois países.
Este memorando é a continuidade de um outro MdE assinado em julho do ano passado, também entre a Embrapa e a Sinomach Digital, em Brasília (DF). Ele foi incorporado ao memorando bilateral assinado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR) da China e pela Casa Civil da Presidência da República nos marcos da Cúpula do Brics.
Em novembro de 2024, a Sinomach Digital, a Universidade Agrícola da China (UAC) e a Universidade de Brasília (UnB) já haviam inaugurado um centro de ciência e tecnologia rural voltado à agricultura familiar na capital brasileira.
Agricultura familiar no centro
No discurso na cerimônia de assinatura, Massruhá disse que a parceria é muito importante para a inclusão digital dos 5 milhões de pequenos agricultores que o Brasil possui.
“Eu entendo essa cooperação como uma oportunidade de co-desenvolvimento, de um trabalho conjunto. Esta é uma parceria ganha-ganha para os dois países, e uma cooperação baseada em ciência”, disse a presidenta da Embrapa durante a cerimônia.
Nesse sentido, ela explicou que serão criados “centros de serviços de maquinário agrícola inteligente em áreas-piloto no Brasil, maquinário de pequeno/médio porte, sensores, internet das coisas e IA para monitoramento e gestão da produção”.
“Organizações de serviços de base coletiva serão criadas para que os agricultores familiares se beneficiem dos dividendos tecnológicos da agricultura inteligente. Capacitação e fortalecimento das cooperativas da agricultura familiar também estão previstos”, detalhou Chen.
Massruhá afirmou que as cooperativas locais terão papel de liderança na gestão da plataforma, “contribuindo para o fortalecimento da assistência técnica e extensão rural”. O memorando também prevê avaliar a integração das unidades demonstrativas ao Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pronater) e “promover sua replicação em outros assentamentos de agricultura familiar nos estados brasileiros”.
Segundo o texto do acordo, os dados gerados pelos centros “serão armazenados, processados e gerenciados sob a jurisdição do país onde foram gerados, respeitada a soberania digital e os direitos das respectivas autoridades públicas e titulares dos dados”.
Pesquisa conjunta e modelo de cooperação para o Sul Global
As pesquisas conjuntas deverão focar em maquinário agrícola inteligente, plataformas digitais agrícolas, modelos de culturas, entre outras áreas, segundo Chen. A cooperação prevê apoio a candidaturas conjuntas a programas de financiamento chineses, brasileiros e internacionais, “para resolver desafios concretos da agricultura por meio de tecnologias digitais e de inteligência artificial“, disse a integrante da Sinomach Digital.
Entre as metas colocadas para os cinco anos de duração do acordo estão: superar gargalos da produção familiar, aumentar a produtividade e aumentar a renda dos camponeses, segundo explica Chen.
“O acordo abre canais bidirecionais para o intercâmbio de talentos e tecnologia, facilitando o fluxo transfronteiriço de experiências e conhecimentos, contribui para fortalecer o capital humano da cooperação, elevar a qualidade e a eficácia da cooperação agrícola China-Brasil e funcionar como modelo demonstrativo de cooperação em ciência e tecnologia agrícola entre os países do Brics”, concluiu Chen Yang.


