O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) aparece na liderança da disputa pelo governo de Minas Gerais, mas o deputado federal Patrus Ananias (PT) aparece na segunda posição e chega a um cenário de empate técnico com o adversário em uma eventual disputa de segundo turno. É o que mostra a nova pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta segunda-feira (21).
No primeiro turno, Cleitinho registra 35% das intenções de voto, enquanto Patrus aparece com 19%. Alexandre Kalil (PDT) e Mateus Simões (PSD) têm 10% cada. Na rodada anterior do mesmo instituto, divulgada em 8 de setembro, Cleitinho tinha 31% e Patrus, 17%.

Já na simulação de segundo turno entre Cleitinho e Patrus, a diferença praticamente desaparece: o senador aparece com 43% e o petista com 42%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o resultado configura empate técnico. O levantamento ouviu 2 mil eleitores entre 16 e 19 de setembro, tem nível de confiança de 95% e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número MG-07331/2026.
O resultado coloca Patrus em uma posição diferente daquela observada na simulação de primeiro turno. Embora ainda exista uma distância de 16 pontos percentuais em relação a Cleitinho nessa etapa, o cenário de segundo turno indica uma disputa mais equilibrada entre os dois nomes.
A partir desse resultado, o Brasil de Fato MG analisou os planos de governo de Patrus e Cleitinho em cinco áreas que estão entre os principais desafios para Minas Gerais: saúde, educação, enfrentamento à violência contra as mulheres, segurança pública e mineração. A análise foi realizada com a cientista social Ana Carolina Vasconcelos, que também avaliou as diferenças entre as propostas e os desafios para transformar os programas em políticas públicas.
Saúde: fortalecimento do SUS ou ampliação da capacidade de atendimento
Na saúde, os dois programas colocam a redução das filas entre as prioridades, mas apresentam estratégias diferentes.

O plano de Patrus define o fortalecimento do SUS público como eixo central. Entre as propostas estão a ampliação da atenção primária, o fortalecimento das equipes multiprofissionais, a expansão da rede estadual de atendimento especializado e dos hospitais regionais e o fortalecimento dos consórcios intermunicipais.
O programa também propõe reorganizar a regulação estadual e regionalizar a gestão das filas, com o objetivo de reduzir a concentração da marcação de consultas, exames e internações em Belo Horizonte. A proposta prevê ainda ampliar a transparência sobre filas e disponibilidade de leitos.
Outro ponto é a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). O plano defende a manutenção do caráter público da fundação e a ampliação de sua atuação no interior, além da reversão da política de privatização dos hospitais.

Cleitinho, por sua vez, também coloca a redução das filas entre as prioridades. O programa prevê uma Tabela Mineira de Procedimentos Estratégicos, com complementação de recursos para ampliar exames, consultas especializadas e cirurgias eletivas. Também aparecem propostas de recuperação de leitos, abertura de hospitais regionais, telessaúde, integração entre estado e municípios e acompanhamento digital dos atendimentos.
Para Ana Carolina Vasconcelos, a diferença está principalmente na concepção de organização do sistema. Na avaliação da cientista política, o programa de Patrus parte do fortalecimento da estrutura pública e da regionalização do SUS, enquanto as propostas de Cleitinho dão maior ênfase à ampliação da capacidade de atendimento, gestão e ferramentas digitais.
“Cleitinho diz agora que irá abrir os hospitais regionais e essa mesma promessa foi feita por Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) . O resultado: eles não abriram nenhum hospital. O único que foi aberto foi aberto pelo governo Lula”, afirmou a especialista.
Educação: escola pública e valorização profissional x tecnologia e formação para o trabalho
Na educação, os programas convergem em alguns pontos, como a ampliação da educação integral, o combate à evasão, melhorias na infraestrutura e valorização dos profissionais.

Patrus propõe investimentos na rede estadual, redução das desigualdades regionais, ampliação da educação integral, combate à evasão e fortalecimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O programa também prevê integrar o ensino regular à formação técnica profissional.
Entre as propostas estão ainda a reestatização de escolas estaduais privatizadas e o encerramento da militarização das escolas. No ensino superior, o plano defende mais recursos, concursos e infraestrutura para a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e Universidade Estadual de Montes Claros ( Unimontes), além do respeito à autonomia universitária.

Cleitinho apresenta o eixo “Educação que prepara para o futuro”. O programa dá maior destaque à tecnologia, com propostas de aulas de programação, robótica e inteligência artificial na rede estadual.
O candidato também propõe reformular o Trilhas de Futuro, aproximando a formação técnica das características econômicas de cada região. O plano prevê ainda reformas em escolas, laboratórios, bibliotecas e quadras, além de videomonitoramento e protocolos de segurança.
Para Ana Carolina, as diferenças refletem duas prioridades distintas: de um lado, uma proposta que coloca a estrutura pública, os profissionais e a redução das desigualdades no centro; de outro, uma agenda que enfatiza tecnologia, formação profissional e aproximação entre educação e mercado de trabalho.
A cientista política avalia que a questão central para o eleitorado será observar como essas propostas respondem a problemas concretos, como evasão, aprendizagem, infraestrutura e desigualdade regional.
Violência contra as mulheres: prevenção e proteção social ou foco na estrutura de atendimento
A violência contra as mulheres também aparece nos dois programas, mas em espaços diferentes e com estratégias distintas.

No plano de Patrus, o tema está inserido no eixo de Promoção dos Direitos Humanos, da Cidadania e da Igualdade. O documento afirma que pretende ampliar a rede estadual de proteção e garantia de direitos, integrando ações para mulheres, crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência e população LGBTQIA+, com prioridade para o enfrentamento das violências e expansão das políticas de cuidado.

Já o programa de Cleitinho coloca o enfrentamento à violência contra as mulheres dentro do eixo de segurança pública. Entre as medidas estão a ampliação das Delegacias Especializadas, o fortalecimento da Patrulha de Proteção à Mulher e a ampliação do monitoramento eletrônico de agressores.
O programa também prevê ações educativas nas escolas, por meio do Programa Educacional de Proteção à Mulher, além da expansão de casas-abrigo, suporte psicológico, orientação jurídica e reserva de vagas de emprego para mulheres atendidas pela rede de proteção.
Na avaliação de Ana Carolina Vasconcelos, ampliar delegacias especializadas é uma medida importante, mas insuficiente para enfrentar a dimensão do problema.
“Isso mostra o desconhecimento do Cleitinho sobre como enfrentar o atual cenário. Nesse sentido, as propostas de Patrus são mais completas. Além de fortalecer e integrar a rede de atendimento, ao integrar a política de enfrentamento à violência contra as mulheres às políticas de direitos humanos e proteção social, o candidato propõe atuar na raiz do problema, prevenindo as violências, ao invés de o Estado atuar apenas quando esta já aconteceu”, afirma.
Para Ana Carolina, enfrentar a violência contra a mulher exige um amplo processo de reeducação da população, fortalecimento da autonomia feminina e avanço em políticas públicas de suporte às mulheres (nos campos da saúde, educação, assistência social, geração de empregos, etc).
Segurança pública: policiamento e inteligência ou abordagem integrada
Os dois candidatos também apresentam concepções diferentes sobre segurança pública.

Patrus utiliza o conceito de “Segurança Pública Cidadã”. A proposta está inserida em uma concepção mais ampla de política pública, com articulação entre segurança, direitos humanos, prevenção e participação social. O próprio plano apresenta como princípio a universalização do acesso a políticas como saúde, educação, assistência e segurança pública.
O programa também relaciona educação e segurança. Um exemplo está na proposta de um Programa Estadual de Boa Convivência nas Escolas, reunindo educação, saúde, assistência social, justiça e segurança pública para prevenir situações de violência e trabalhar a mediação de conflitos.

Cleitinho, por sua vez, apresenta o eixo “Segurança Pública forte e inteligente”. O programa prevê ampliação do policiamento ostensivo e territorial, reforço da atuação em regiões rurais, criação de um Comando de Inteligência e integração das bases de dados das forças de segurança.
Também estão entre as propostas o combate financeiro ao crime organizado, fortalecimento da perícia, redução do tempo de tramitação dos inquéritos, recomposição de efetivos e concursos periódicos.
Ana Carolina avalia que a segurança pública não deve ser tratada apenas pela ótica do encarceramento ou do policiamento ostensivo.
“Já está mais do que comprovado que não se combate a violência urbana com mais prisão ou mais policiamento ostensivo, como propõe Cleitinho. Para fortalecer a segurança pública é preciso avançar na inteligência, integrar a atuação das políticas, e, mais uma vez, como propõe Patrus, articular políticas públicas que ajudem na prevenção”, afirma.
Para a especialista, os altos índices de violência urbana estão relacionados aos índices de jovens fora da escola e da universidade, de desemprego, de falta de moradia, de falta de acesso a direitos básicos.
“Mais uma vez, as propostas de Cleitinho não ajudam a incidir na raiz do problema”, pondera.
Mineração: soberania mineral e participação social
A mineração é outro campo em que os programas apresentam diferenças importantes, embora os dois mencionem a necessidade de agregar valor aos minerais e aumentar a segurança da atividade.

Patrus apresenta uma política específica de “soberania mineral”. O programa defende que Minas deixe de atuar prioritariamente como exportadora de matérias-primas e avance na industrialização e no processamento dos minerais.
A proposta inclui utilizar a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) para diversificar a economia de municípios mineradores, financiar recuperação ambiental e ampliar investimentos em saúde, educação e infraestrutura.
O programa também propõe maior participação das comunidades atingidas nas decisões sobre novos empreendimentos, maior rigor na fiscalização e segurança de barragens e políticas específicas para minerais críticos e terras raras.
Para o lítio, a proposta prevê um Polo Mineiro de Industrialização, com beneficiamento e fabricação de componentes para baterias no estado.

Cleitinho concentra a proposta no eixo “Mineração do Futuro”. O programa defende o desenvolvimento de cadeias de maior valor agregado para terras raras e minerais estratégicos, incentivo à inovação e pesquisa, aproveitamento de rejeitos, maior segurança das estruturas e diversificação econômica das regiões mineradoras.
Para Ana Carolina, a principal diferença está na forma de tratar a relação entre mineração, desenvolvimento econômico e soberania.
“Nós estamos no estado rico em minerais estratégicos, como terras raras, lítio e nióbio, e existem diversas empresas privadas querendo pegar para si nossas riquezas. Esses minerais estão no centro da atual disputa global. Por isso, é muito importante quando Patrus assume o compromisso com a defesa da soberania mineral. É uma afirmação de que não entregaremos nossas riquezas de bandeja para o capital estrangeiro”, analisa.
Para a cientista política, hoje, no Brasil e em Minas Gerais, a mineração é voltada aos interesses externos, com pouca agregação de valor e baseada na exportação de matéria-prima.
“Essas características ajudam na manutenção do Brasil em condição de dependência dos países do Norte global”, afirma.
Para Ana Carolina, a principal diferença está na forma de tratar a relação entre mineração, desenvolvimento econômico e soberania.
“Por isso, as propostas de Patrus são bem completas: defende a soberania, propõe outra lógica para o setor minerário no estado, além de trazer as comunidades atingidas para o debate e garantir que os direitos delas não serão feridos, como vem acontecendo em nosso estado. Cleitinho fala de ‘mineração do futuro’, mas não apresenta nenhuma medida que modifique a forma predatória como a mineração atua em Minas Gerais”, finaliza.
A experiência de Patrus no governo federal e no Congresso
Patrus tem concentrado sua atuação legislativa recente em propostas de fortalecimento da educação e do desenvolvimento rural. O principal destaque de sua autoria com avanço no Congresso é o Projeto de Lei nº 5.102/2023, já aprovado no plenário do Senado, que propõe transformar os Centros Federais de Educação Tecnológica de Minas Gerais e do Rio de Janeiro (CEFETs) em universidades tecnológicas.
Na área do campo, o parlamentar idealizou o Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural (PL nº 9.263/2017), iniciativa desenhada para criar mecanismos que incentivem a permanência dos jovens na agricultura familiar e garantam a sustentabilidade da produção interna.
Outro elemento presente na trajetória de Patrus é sua passagem pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome durante os dois primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Patrus foi ministro entre 2004 e 2010 e participou da criação e implementação do Bolsa Família, segundo registro do próprio Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Durante sua gestão, o MDS reuniu políticas de transferência de renda, assistência social e segurança alimentar. Documentos oficiais do período registram a estruturação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e políticas de segurança alimentar que incluíam restaurantes populares, cozinhas comunitárias, bancos de alimentos e apoio à agricultura familiar.
Essa trajetória é utilizada atualmente pela candidatura de Patrus como parte da apresentação de seu histórico na formulação e execução de políticas públicas.
Para a cientista política Ana Carolina Vasconcelos, esse histórico também ajuda a explicar a presença do candidato na disputa. Ela relaciona o desempenho de Patrus nas pesquisas ao conhecimento prévio do eleitorado sobre sua trajetória política e à associação de seu nome a políticas sociais implementadas durante sua passagem pelo governo federal.
A atuação de Cleitinho no Senado
Durante seus mandatos, Cleitinho defendeu propostas antipopulares e se destacou ao tirar uma foto com a influenciadora Virgínia em meio à CPI das Bets, onde, na ocasião, a influenciadora foi indiciada por estelionato, envolvida com as casas de apostas.
No entanto, sua atuação parlamentar não se restringe a este evento. Cleitinho, enquanto senador, votou a favor de propostas que vão de encontro aos interesses do povo, como o PL da Devastação, que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental no país e permite a dispensa de licenças para uma série de atividades, especialmente no setor agropecuário e na mineração.
O senador também votou a favor do PL do Marco Temporal que estabelece a tese do marco temporal como critério para a demarcação de terras indígenas, ou seja, busca a inviabilização das novas demarcações de terras indígenas, além de barrar os processos demarcatórios em curso e abrir as terras já demarcadas para a exploração predatória.
O parlamentar defendeu ainda a aprovação de uma proposta de anistia para os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
Mais recentemente, Cleitinho afirmou ser contrário ao uso de câmeras corporais por policiais militares no estado. Ao falar sobre segurança pública, disse que, caso seja eleito, os agentes não utilizarão o equipamento nos uniformes.

