REPERCUSSÃO

A foto, o gesto e a crítica: nas redes, venezuelanos reagem a encontro de Delcy Rodríguez e Donald Trump

Nenhuma das principais lideranças chavistas respostou a imagem, apenas celebraram a 'diplomacia de paz'

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Encontro entre Donald Trump e a presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, na noite de terça-feira (23).
Encontro entre Donald Trump e a presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, na noite de terça-feira (23). | Crédito: Prensa Presidencial VE

O dia em que Donald Trump distribuiu ameaças ao mundo e especialmente à América Latina no púlpito da Organização das Nações Unidas (ONU) terminou com um encontro inusitado: a presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, se reuniu com o chefe do Executivo estadunidense, na noite da terça-feira (22), e a imagem circulou imediatamente o mundo. 

Em seu perfil na rede social X, Rodríguez chamou a reunião com Trump de “histórica”. “Realizamos uma histórica reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem conversamos sobre o fortalecimento da relação bilateral entre nossos países e o avanço de uma agenda de cooperação em áreas estratégicas como energia, mineração, segurança”, publicou a presidenta, com a foto em que ambos aparecem sorrindo.

Alguns chavistas comemoraram o que chamaram de “sucesso da diplomacia de paz”. O ministro das Comunicações, Miguel Ángel Pérez Pirella, qualificou a imagem como “a foto do dia”. No entanto, até a manhã desta quarta-feira (23), nenhuma das principais lideranças vinculadas ao governo em exercício repostou a fotografia, que nas redes da presidenta teve pouco mais de 46 mil curtidas nas primeiras dez horas. 

O encontro é o primeiro após a agressão militar estadunidense à Venezuela no dia 3 de janeiro deste ano, que deixou mais de uma centena de mortos e resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, a deputada Cilia Flores

Uma enxurrada de memes invadiu as redes venezuelanas; alguns celebrativos, outros críticos, uns quantos envergonhados, outros quantos orgulhosos. Fato é que o assunto virou a pauta e, tamanha foi a repercussão, que as forças chavistas convocaram uma manifestação nesta quarta para “respaldar a presidenta” no dia em que ela falará no plenário da Assembleia Geral da ONU. 

À esquerda, cartaz convoca ato em respaldo à presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, publicado na conta oficial o Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv); à direita, cartaz publicado pela conta oficial de Nicolás Maduro, com a contagem dos dias em que permanece na prisão.
À esquerda, cartaz convoca ato em respaldo à presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, publicado na conta oficial o Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv); à direita, cartaz publicado pela conta oficial de Nicolás Maduro, com a contagem dos dias em que permanece na prisão. | Crédito: Fonte: Instagram

A ‘humilhação’ e a defesa da soberania

O cientista político venezuelano William Serafino estabelece paralelos históricos com a tentativa imperial de domínio sobre o país sul-americano, em uma análise publicada nas redes após o encontro entre Delcy e Trump. 

“Do ponto de vista histórico, existe uma ligação profunda entre a Venezuela e o lançamento de dispositivos imperiais norte-americanos na região, codificados sob a atualização da Doutrina Monroe. O bloqueio naval de potências europeias contra o país em 1902-1903 foi o ventre do Corolário Roosevelt, consagrado finalmente com a queda de Cipriano Castro em 1908, o inimigo público número um do Tio Sam”, comenta.

“Mais de cem anos depois, uma intervenção militar direta desenhada para domar e realinhar a Venezuela na órbita norte-americana seria a colocação em marcha oficial do Corolário Trump. A Venezuela, em seu dramático pêndulo entre a fratura e a recomposição de ordens imperiais, entre a vontade de transcendência e o castigo dos poderosos”, completa.

Em outra publicação, Serafino se refere à “humilhação” como um “produto histórico” das elites contra a soberania dos países não-alinhados. 

“A humilhação é, poderíamos dizer, um produto histórico, o resultado estrondoso de erros compartilhados por elites de visão limitada e com baixíssimo senso de responsabilidade pública, ao avaliar os custos e benefícios de suas aspirações políticas e geopolíticas”, argumenta o cientista político.

“O problema não é a cena diplomática em que se concretiza a ofensa à dignidade, mas onde esse fato tem suas raízes. Se não se começar por compreender o duplo esvaziamento da noção de soberania vivenciado pelo país, dificilmente se conseguirá encontrar o caminho de volta a uma posição de maior força”, aponta Serafino.

O gesto e a crítica ácida

Para os analistas semióticos das redes sociais, não passou despercebido o gesto da presidenta em exercício ao lado de Trump, em uma das fotos publicadas pela Presidência venezuelana. Com a mão esquerda, faz um “V”, e com a mão direita, o punho fechado. O sinal chegou a ser associado ao mesmo que fez Maduro quando desembarcou em Nova York, após ser sequestrado em Caracas pelas forças estadunidenses. 

O vice-ministro de Políticas Antibloqueio do Ministério de Economia e Finanças, William Castillo Bollé, publicou a foto ao lado da imagem recém-divulgada do presidente Nicolás Maduro na prisão, com a frase: “Onde eu vi esse gesto antes?”

Alguns internautas seguiram na mesma linha. “Embora nem esse gesto nem o punho que o acompanha tenham surgido com essa corrente política venezuelana, são símbolos fortemente incorporados à identidade chavista”, publicou um internauta na rede Threads

“Houve um detalhe que também não passou despercebido: o gesto de suas mãos. A política venezuelana acaba de dar outra guinada inesperada”, anunciou outro, sem detalhar de qual guinada se referia, se à esquerda ou à direita.

Por outro lado, o apresentador de televisão e ex-deputado constituinte Mario Silva, que tem sido um crítico ácido do governo em exercício, arremeteu mais uma vez contra a presidenta por causa da foto. 

“Eu pensei que fosse inteligência artificial ou algo do tipo, mas é um surrealismo total. Quando vemos a presidenta interina reunida com quem nos bombardeou e matou mais de 100 compatriotas, incluindo 32 cubanos, e fazendo o sinal de ‘V’ da vitória, não conseguimos entender isso”, comentou o apresentador em um vídeo publicado na manhã desta quarta-feira. 

“O que farão com todos os venezuelanos que neste momento estão indignados com isso, ao verem o governo ao lado de um genocida, o mesmo que nos atacou no dia 3 de janeiro, tirando foto e publicando na própria conta da Presidência?”, questionou Silva. 

Editado por: Gia Matheus Almeida

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