O ex-embaixador cubano em Caracas, Germán Sánchez Otero, conhece como poucos a história das relações entre Cuba e Venezuela. Ainda nos anos 1970, foi um dos principais nomes na articulação feita pela Revolução Cubana para dar continuidade ao compromisso de solidariedade com os povos da América Latina. Por décadas, esteve próximo de nomes como Fidel Castro e Hugo Chávez, com quem aprendeu a lição de que as relações de força da política estão em permanente transformação. Por isso, não hesita em reconhecer que o governo Delcy Rodríguez, frente ao sequestro feito pelos Estados Unidos do presidente Nicolás Maduro, no último 3 de janeiro, tinha duas opções. A primeira seria um enfrentamento mais direto a Washington, baseado nos princípios bolivarianos que sustentaram a Venezuela; a segunda, ceder à pressão vinda da Casa Branca. “É humilhante que levem o presidente e sua esposa da forma como ocorreu. Quem sou eu para julgá-la? A História vai julgá-la”, diz, referindo-se à atual mandatária venezuelana, em conversa com o Brasil de Fato.
“É muito duro, é muito difícil para um bolivariano chavista entender essas decisões que foram adotadas. Qual era a outra opção? O petróleo. Vocês querem o petróleo? Venham buscá-lo”, reflete. O principal problema, para Otero, é que a opção de um embate com o governo Donald Trump “não foi testada, simplesmente foi evitada desde o primeiro momento e, portanto, ninguém pode dizer que esse caminho não era certeiro”.
O contraste com Chávez aparece no diagnóstico feito pelo ex-embaixador. Ele lembra o discurso do ex-presidente na ONU, em que chamou George W. Bush de “diabo”, há vinte anos. Pouco tempo antes, em 1999, o próprio Chávez negou um pedido de Bill Clinton para que aviões estadunidenses sobrevoassem a Venezuela em operação antidrogas.
O intrincado jogo de xadrez entre Venezuela e EUA
Agora, Washington e Caracas assinaram um acordo que prevê a entrega aos EUA do “controle majoritário” de 17 campos petrolíferos venezuelanos. O montante corresponde a cerca de 65 bilhões de barris de petróleo, ou pouco mais de 21% de todas as reservas comprovadas venezuelanas. O acerto estabelece que a exploração seja feita pela North American Blue Energy Partners (Napeb), uma empresa registrada em Barbados, sem histórico de participação em operações em outros países. Gigantes como a ExxonMobil e ConocoPhillips ficaram de fora do negócio, e a Chevron, a única petroleira estadunidense que atua na Venezuela, limitou-se a assinar um acordo paralelo que prevê a ampliação da sua produção.
Para Otero, o plano de Washington é elementar: primeiro, estabilizar a Venezuela sob a gramática estadunidense; depois, criar condições para uma eleição. Esse eventual pleito, que Otero considera que deve acontecer no médio prazo, não terá outra finalidade, senão garantir aos EUA “de maneira definitiva o controle da Venezuela, em termos de protetorado”. Delcy afirma que o país irá às urnas quando estiver preparado. Desde agosto, o governo interino negocia com a oposição, em conversas patrocinadas pelos EUA. Segundo Otero, os EUA não se incomodam com o governo atual, uma vez que Caracas, na prática, já teria disponibilizado o que os EUA buscavam.
O governo Rodríguez tem uma justificativa que pesa no seu cálculo de sobrevivência. Um eventual conflito militar com os Estados Unidos poderia custar a vida de milhares de venezuelanos, colocando em sério risco a própria base material do país. Outra nuance importante tem a ver com o fato de que, ao se aproximar dos EUA, o governo Delcy se vê diante da chance de abrir canais com países e organizações anteriormente contrários aos rumos de Caracas. Nesta quarta-feira (29), por exemplo, a presidenta venezuelana foi à Assembleia Geral da ONU, tendo se reunido com Trump. Enquanto isso, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, defendeu a volta da Venezuela ao Mercosul.
Otero não ignora o fato de que o governo interino tem seus motivos para transitar no tabuleiro geopolítico da maneira como lhe é possível, neste momento histórico, mas descreve o resultado como uma acomodação: “O governo existente se adequou a essa partitura, a esse roteiro, e não pôs em risco o objetivo fundamental dos Estados Unidos, que era se apropriar do petróleo. Por isso, gera-se um cenário de conciliações, de aceitações recíprocas, com seus limites”, avalia.
EUA tentam estrangular Cuba
O caso cubano é especialmente dramático. O país vive uma das piores crises humanitárias da sua história, impulsionada pela escalada da guerra econômica promovida pelos EUA, agora sob a batuta de Trump. Na última semana, Washington aprovou medidas contra o setor de mineração de níquel e entidades vinculadas ao complexo militar-industrial cubano.
Dadas as sanções, milhares de contêineres com alimentos, medicamentos e outros produtos com destino a Cuba estão retidos em vários pontos do Caribe. As empresas responsáveis pelas entregas temem a possibilidade de serem alvos do governo Trump. Nem mesmo a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem sido capaz de ajudar o país caribenho, e o país enfrenta o aumento da fome.
Otero diz que Havana mantém a disposição de negociar com os Estados Unidos, partido “do respeito à autodeterminação e à soberania, sem condições prévias”. Trump, por outro lado, tem sido explícito na ideia de promover uma “transformação fundamental na situação de Cuba”, conforme disse no discurso feito na terça-feira (22) na ONU. Para Washington, não há receio de admitir que a ideia é derrubar o governo cubano. Atualmente, Cuba é considerada uma “ameaça incomum e extraordinária” aos EUA, conforme uma ordem executiva assinada em janeiro.
“Cuba é um grande obstáculo para o conceito de segurança nacional”, diz Otero, confluindo na ideia de que, fundamentalmente, Trump vê nas empreitadas contra o governo cubano uma forma de pôr fim ao principal eixo de resistência ao ímpeto imperialista dos EUA.
“Neste momento, querem simplesmente que o povo cubano, em meio a tanta escassez, diante de tantas agressões econômicas, de tantos atos criminais, se levante e provoque uma insubordinação para gerar um pretexto para uma mudança de governo. Esse é um caminho óbvio”, denuncia. Mas Cuba, segundo Otero, “não vai mendigar”. “Cuba não anda como mendigo pelo mundo. Cuba sempre será digna”, aponta.

