RETOMADA INDÍGENA

Curitiba recebe adaptação teatral de livro de Ailton Krenak

Em cartaz entre setembro e outubro, “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” reflete sobre ancestralidade e crise climática

No audio source provided.

Espetáculo está em cartaz entre 24 de setembro e 4 de outubro, na Caixa Cultural Curitiba.
Espetáculo está em cartaz entre 24 de setembro e 4 de outubro, na Caixa Cultural Curitiba. | Crédito: Natália Tupi

O espetáculo apresenta a história de Yumo Apurinã – que interpreta a si mesmo na obra. Na trama, Apurinã é um homem que foi evangelizado quando criança e perdeu a conexão com sua ancestralidade, seguindo em uma jornada de retomada em reflexo a processos vividos pelos povos originários no Brasil.

A peça teatral estará em exibição entre as quintas e sábados, de 24 de setembro a 4 de outubro, na Caixa Cultural, em Curitiba (PR). Os ingressos para assistir à obra podem ser adquiridos na bilheteria do espaço ou pela plataforma online Bilheteria Digital.

“A peça destaca a violência fundadora do Estado brasileiro, marcada pela distinção entre corpos considerados civilizados e aqueles historicamente destinados ao apagamento, à expropriação e à morte”, explica João Bernardo Caldeira, diretor do espetáculo.

O protagonista pergunta, no palco: “Somos mesmo uma humanidade?” O ator interpreta a si mesmo, um indivíduo do povo Apurinã que tenta buscar sua ancestralidade após ser evangelizado na infância.

A revolução na figura do indígena

Líder indígena, ambientalista e escritor, Ailton Krenak é imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Mineira de Letras. Durante a Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, subiu à tribuna e pintou o rosto de preto, em protesto contra os retrocessos nos direitos indígenas. O ato ficou marcado na história do processo político que deu origem à Constituição Federal de 1988.

Conhecida como Constituição Cidadã, a carta reconheceu os direitos originários dos povos indígenas. A mudança rompeu com a política de tutela, que acompanhava o apagamento de culturas.

“A presença de Ailton Krenak na Assembleia Constituinte é um momento fundamental do espetáculo, porque ali não estava em disputa apenas um conjunto de direitos, mas a própria possibilidade de os povos indígenas continuarem existindo enquanto povos indígenas. O indígena era pensado como alguém que, em algum momento, deveria deixar de sê-lo para integrar plenamente a sociedade nacional”, comenta Caldeira.

A trajetória de Apurinã, na peça, revela estereótipos que ainda recaem sobre os povos e indivíduos indígenas, como explica o ator: “Você é índio de verdade? Come carne de macaco? Por que não está na sua aldeia? Essas são algumas das perguntas que acabo lidando diariamente”, relata. 

Yumo Apurinã interpreta a si mesmo na peça “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”. | Crédito: Natália Tupi

Segundo ele, desde que se mudou para a cidade, as pessoas não indígenas o enxergam com uma “lupa de verificação”, conta. “De até que ponto eu sou indígena ou não, se eu mereço estar aqui, se eu devo estar aqui”, explica. Para Caldeira, com espetáculos e obras em que pessoas indígenas são protagonistas das próprias histórias, esse preconceito de verificação possa ser enfrentado.

A história de Apurinã se aproxima à trajetória de Krenak. “Quando se fala do pensamento do Krenak, eu sempre o enxergo como um porta-voz, como uma ponte de muitos seres e de muitas histórias. Isso parte desde o povo Krenak, claro, mas também passa pelas montanhas, pelos rios, por outros povos, por outros territórios, por outros modos de pensar e de existir”, descreve. O ator também reflete um sentimento semelhante: “Eu sou feito de muitas histórias, de muitas pessoas, de muitos seres e de muitos territórios”, conta Apurinã.

Para o diretor, a peça é um convite ao público a ampliar o horizonte e procurar experimentar o mundo à nossa volta de outras maneiras. “Talvez reflorestar nossos imaginários seja também recuperar nossa capacidade de nos espantarmos com o mundo e, a partir daí, inventar outras formas de habitá-lo”, diz Caldeira.

“O teatro pode nomear e preencher ideias que estão se esvaziando, como ‘crise climática’ e ‘colonização’, até perdermos a relação com essas catástrofes. Não há floresta sem os povos que nela habitam”, finaliza.

Na sinopse, o espetáculo alerta a humanidade: “Num planeta em crise, devastado por tiro, boi, cimento e cruz, um indígena nascido na Aldeia Mawanaty, na Amazônia, busca as raízes de seu povo sabotadas pela colonização. Ao revisitar sua própria história e a de seu povo, ele confronta as narrativas que moldaram o Brasil e lança uma pergunta fundamental: somos mesmo uma humanidade?”

Mais informações sobre a peça podem ser conferidas no site oficial da Caixa Cultural Curitiba.

Serviço

“Ideias para Adiar o Fim do Mundo”
Local: CAIXA Cultural Curitiba – Rua Conselheiro Laurindo, 280, Centro
Data: de 24 de setembro a 4 de outubro de 2026
Horário: quinta-feira a sábado, às 20h | domingo, às 19h
Sessões com intérprete de Libras: 25 de setembro e 3 de outubro de 2026


Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (clientes CAIXA e casos previstos em lei)
Vendas: bilheteria da CAIXA Cultural Curitiba e Bilheteria Digital
Classificação indicativa: 12 anos

*Estagiário sob supervisão de Murilo Bernardon.

Editado por: Murilo Bernardon

|

Newsletter