ELEIÇÕES 2026

Jovens representam apenas 4% das candidaturas nas eleições de 2026 no RS

Levantamento revela baixa renovação geracional e mostra uma esquerda mais envelhecida diante de uma direita mais jovem

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A idade média dos candidatos e candidatas passou de 48,7 anos, em 2022, para 49,2 anos em 2026, segundo levantamento do Brasil de Fato RS feito a partir dos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
A idade média dos candidatos e candidatas passou de 48,7 anos, em 2022, para 49,2 anos em 2026, segundo levantamento do Brasil de Fato RS feito a partir dos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) | Crédito: Imagem gerada por IA

As candidaturas registradas para as eleições de 2026 no Rio Grande do Sul estão, em média, mais velhas do que as apresentadas quatro anos atrás. A idade média dos candidatos e candidatas passou de 48,7 anos, em 2022, para 49,2 anos em 2026, segundo levantamento do Brasil de Fato RS feito a partir dos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A mudança é acompanhada por uma redução na participação de jovens. Em 2022, 75 dos 1.437 candidatos tinham até 29 anos, o equivalente a 5,2% das candidaturas. Em 2026, são 43 entre 1.053, ou 4,1%.

A comparação também mostra recuo entre os candidatos de até 34 anos. Essa faixa representava 12,2% das candidaturas em 2022 e passou a 10,1% em 2026.

O cenário indica que a renovação geracional das candidaturas não avançou no estado entre os dois pleitos. A maior parte dos nomes que disputam as eleições continua concentrada nas faixas de meia-idade e mais altas.

Crédito: Tabela Brasil de Fato RS/Dados Abertos do TSE

Mais de 90% têm 35 anos ou mais

Dos 1.053 candidatos registrados em 2026, 57,3% têm entre 35 e 54 anos. Outros 32,7% têm 55 anos ou mais.

Somadas, essas duas faixas representam cerca de nove em cada dez candidaturas.

Já os candidatos de até 29 anos correspondem a pouco mais de 4% do total. Na prática, isso significa que há aproximadamente um candidato jovem a cada 25 candidaturas.

O levantamento considera jovem a pessoa de até 29 anos, conforme o Estatuto da Juventude (Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013). Também foi analisada uma faixa ampliada, de até 34 anos.

Missão se situa como o partido mais jovem 

De acordo com o levantamento, o Missão apresenta a menor média de idade entre os 27 partidos políticos analisados: 35 anos. Dos 22 candidatos do partido, oito têm até 29 anos. Outros dois têm entre 30 e 34 anos. Com isso, 45,5% dos candidatos do Missão têm até 34 anos.

A Unidade Popular (UP) aparece na sequência, com média de 38,8 anos. Dos 13 candidatos do partido, seis têm até 34 anos. 

Em números absolutos, o Missão também lidera entre os partidos políticos no número de candidatos de até 29 anos, com oito. O Pode tem seis; PSB e Novo, quatro cada; e UP, PT, PSDB e PL, três cada.

Quando a faixa considerada é de até 34 anos, Novo e Pode têm 14 candidatos cada, seguidos pelo Missão, com dez.

PCO representa a maior média de idade

Na outra ponta, o PCO tem a maior média de idade entre os partidos políticos analisados: 59,6 anos. Vale ressaltar que o partido possui apenas cinco candidatos, o que faz com que a média seja mais sensível à composição da candidatura.

Entre os partidos políticos com maior número de candidaturas, o PSTU tem média de 55,3 anos; o DC, de 54,3; e o Agir, de 53,9.

No PT, mais da metade dos candidatos tem 55 anos ou mais

O partido tem 66 candidatos no estado. Apenas três têm até 29 anos: Brunno Mattos, Eduardo Manique e Léo da Costa, todos com 28 anos.

Outros quatro estão na faixa entre 30 e 34 anos: Naiton Gama, Ericka Oliveira, Marina Bernardes e Laura Sito.

No total, são sete candidatos petistas com até 34 anos, ou 10,6% dos candidatos do partido.

Na outra ponta, 23 candidatos têm 60 anos ou mais, o equivalente a 34,9%. Outros 11 estão entre 55 e 59 anos.

Assim, 34 dos 66 candidatos do PT têm 55 anos ou mais, o que representa 51,5% dos candidatos do partido.

A média de idade no partido é de 52,1 anos, e a mediana é de 55 anos.

O que mudou em quatro anos

A comparação entre as eleições de 2022 e 2026 aponta para três movimentos principais.

O primeiro é o pequeno aumento da idade média dos candidatos, de 48,7 para 49,2 anos.

O segundo é a redução proporcional dos jovens. A parcela de candidatos de até 29 anos caiu de 5,2% para 4,1%. Entre aqueles com até 34 anos, o percentual passou de 12,2% para 10,1%.

O terceiro é a diferença entre os partidos políticos. Enquanto Missão e UP têm médias de idade abaixo dos 40 anos, partidos como PT, PDT, PSD e PSTU apresentam médias superiores a 50 anos.

Como foi feita a análise

O levantamento foi realizado pelo Brasil de Fato RS a partir dos dados disponíveis no Portal de Dados Abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Foram analisadas as candidaturas registradas no Rio Grande do Sul em 2022 e 2026. A apuração considerou idade, partido político e número total de candidaturas para calcular médias, medianas e a participação de diferentes faixas etárias.

Para a análise, foi considerada a faixa de até 29 anos como referência para juventude, conforme o Estatuto da Juventude. Também foi utilizada uma faixa ampliada, de até 34 anos.

Também foi considerado o recorte de idade dos candidatos aos cargos de deputado estadual e federal, uma vez que os demais cargos majoritários possuem idade mínima mais elevada: 30 anos para governador e 35 anos para senador e presidente. Dessa forma, a presença de candidatos a esses cargos pode elevar a média etária dos partidos.

Os dados de 2026 correspondem à base consultada durante a apuração e podem sofrer alterações em razão da atualização dos registros eleitorais.

Esquerda mais velha, direita mais jovem

No topo do ranking das idades dos partidos no RS em 2026, aparece o Missão, partido de direita fundado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), com a menor média de idade entre as candidaturas registradas. No outro extremo, na 23ª colocação, está o PT, partido da atual presidência do país e que possui uma trajetória histórica na esquerda brasileira.

Para o influenciador digital Thiago Palominio, de 26 anos, estudante de Direito e criador de conteúdos sobre filosofia e política, que reúne mais de 230 mil seguidores no TikTok e no Instagram, os dados sobre a idade das candidaturas ajudam a revelar um dos desafios enfrentados pela esquerda brasileira: a dificuldade de dialogar com o eleitorado mais jovem.

Influenciador digital Thiago Palominio, de 26 anos, estudante de Direito e criador de conteúdos sobre filosofia e política | Crédito: Arquivo pessoal

A desaprovação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os jovens de 16 a 24 anos atingiu o patamar de 61%, de acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada em 21 de setembro de 2026. O levantamento aponta que apenas 32% dessa faixa etária aprova a gestão atual, posicionando este grupo como um dos principais motores do descontentamento com o governo federal.

O resultado chama atenção porque ocorre mesmo diante de políticas voltadas à juventude. Entre as iniciativas estão programas como o Prouni e a ampliação do acesso ao ensino superior, implementados em governos anteriores de Lula, além do Pé-de-Meia, criado no atual mandato.

Para Palominio, porém, a existência de políticas públicas não é suficiente para estabelecer uma conexão política com esse público. “As pesquisas de opinião têm mostrado que não basta ser e fazer, é preciso parecer. É preciso comunicar e disputar narrativas”, afirma.

Na avaliação do influenciador, essa disputa acontece atualmente, em grande medida, nas redes sociais, por meio de conteúdos rápidos, diretos e dinâmicos. “São conteúdos feitos por jovens e para jovens”, resume.

Um exemplo citado por ele é o desempenho do candidato à presidência Renan Santos, do Partido Missão, entre eleitores de 16 a 24 anos. Em pesquisa AtlasIntel divulgada em maio, Santos apareceu com 36,1% das intenções de voto nesse recorte, contra 28,2% de Lula e 24,5% de Flávio Bolsonaro (PL). O levantamento, no entanto, se refere especificamente ao segmento de 16 a 24 anos e não representa o conjunto do eleitorado.

Palominio relaciona esse cenário também à composição etária das candidaturas. No PT, mais da metade dos candidatos analisados tem 55 anos ou mais. Para ele, a baixa presença de pessoas jovens pode dificultar a identificação desse segmento com o partido.

“Essa alta rejeição ao PT pode ter como causa um problema de falta de renovação e comunicação muito grande, ou melhor, a falta de uma comunicação clara, direta e nos moldes do século 21”, afirma.

A formação política e o domínio das redes

Na comparação com a estratégia adotada pelo MBL, Palominio destaca a combinação entre formação política e produção de conteúdo digital.

A Academia MBL oferece aulas, debates, mentorias, textos, apostilas e exercícios práticos, além da participação em ações do movimento. O próprio MBL apresenta a iniciativa como um espaço de formação política e intelectual.

Segundo Palominio, essa estrutura contribui para preparar militantes e políticos tanto para debates quanto para a comunicação nas redes. “Eles têm uma escola de formação de debates lá dentro, de debates e de políticos, e, por outro lado, dominam a comunicação digital”, afirma.

Ele cita como exemplo o uso de referências da cultura pop, memes e uma linguagem considerada por ele mais acessível para aproximar conteúdos políticos do público jovem. Também destaca o domínio de técnicas relacionadas à chamada economia da atenção, como retenção do público, edição e formatos de vídeo.

A Academia MBL foi criada em 2021 e, segundo informações divulgadas pelo próprio movimento, sua estrutura inclui diferentes frentes de formação, tendo como objetivo, inclusive, formar jovens políticos para ocupar cargos públicos.

Discurso antissistema e prática neoliberal

Palominio alerta, no entanto, que o MBL se apresenta muitas vezes como “antissistema”, o que atrai o sentimento comum entre jovens: frustração com política tradicional, com instituições, com promessas não cumpridas. A ideia de ser contra o sistema soa quase como sinônimo de autonomia, coragem, liberdade.

“Existe uma contradição importante aí: ao mesmo tempo em que esses partidos de extrema direita se posicionam como rebeldes para atrair os jovens, acabam por defender propostas que, na prática, reduzem proteções sociais, como a destruição dos direitos trabalhistas, a exemplo da demonização da CLT, uma lógica que vem se popularizando entre os jovens, a defesa pela permanência da escala 6×1, que reduz tempo de lazer dessa classe trabalhadora jovem. Ou seja, o jovem pode estar sendo capturado por uma narrativa de “antissistema”, mas que, concretamente, diminui garantias que afetam negativamente a sua própria vida”, enfatiza o influenciador.

De acordo com ele, o Missão é um desses partidos que ilustra perfeitamente essa ideia de “falso rebelde”. “Na realidade é um bloco organizado contra os direitos do povo brasileiro e que serve aos interesses das elites privilegiadas do Brasil”, alerta.

Editado por: Katia Marko

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