VENEZUELA NA ONU

Na ONU, Delcy Rodríguez não menciona Nicolás Maduro e chama agressão militar de ‘confrontação agudizada com os Estados Unidos’

Em pronunciamento, mandatária agradeceu ao governo de Donald Trump e destacou reformas recentes

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A presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante discurso na Assembleia Geral da ONU.
A presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante discurso na Assembleia Geral da ONU. | Crédito: Prensa Presidencial VE

A presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, discursou na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, nesta quarta-feira (23). Em sua intervenção, a chefe do Executivo venezuelano não mencionou o presidente Nicolás Maduro, que segue sequestrado em uma prisão estadunidense, e chamou agressão militar do dia 3 de janeiro de “confrontação agudizada com os Estados Unidos”. 

“Em 2026, a Venezuela viveu duas grandes e dolorosas provações na sua vida como nação: uma derivada do estrangulamento da sua vida política interna e da confrontação agudizada com os Estados Unidos da América; outra proveniente da ferocidade da natureza, o duplo terremoto de 24 de junho. Apesar destes golpes da vida tão fortes, como diria o poeta César Vallejo, para os venezuelanos e venezuelanas, hoje a Venezuela renasce”, disse a presidenta em exercício, repetindo o slogan da campanha de reconstrução do país após a tragédia. 

Rodríguez mencionou o recente acordo firmado com os Estados Unidos para a exploração de petróleo por empresas estrangeiras no país e agradeceu a Donald Trump, com quem se reuniu em Nova York na noite de terça (22), para tratar de parcerias estratégicas nas áreas de energia, mineração e combate ao crime transnacional.

“Destaco o recente acordo binacional entre os Estados Unidos e a Venezuela como um dos maiores já escritos, que contribuirá para o equilíbrio energético do hemisfério e da economia internacional. Menção à parte a inteligência artificial, que supõe uma verdadeira revolução tecnológica”, disse a presidenta em um discurso lido.

“Quero, nesta 81ª Assembleia Geral da ONU, agradecer ao presidente Donald Trump e ao seu governo pela sua disposição de retomar o caminho das relações diplomáticas e de cooperação com a Venezuela. A última vez em que dois presidentes da Venezuela e dos Estados Unidos se reuniram foi no ano de 2009. Hoje trabalhamos seriamente para dirimir, por meio do diálogo, as diferenças existentes, mas principalmente para preparar os caminhos para o relacionamento energético, a promoção da segurança, a luta comum contra o crime transnacional e a cooperação econômica em benefício de ambos os povos e do nosso continente”, declarou Rodríguez.

Sanções e reconstrução

A chefe do Executivo venezuelano agradeceu à comunidade internacional pela solidariedade diante do duplo terremoto de 24 de junho e defendeu o fim das sanções econômicas, sem mencionar o principal aplicador dessas medidas, os Estados Unidos.

Rodríguez defendeu que o renascimento nacional do país passa pelo diálogo, pela diplomacia e pelo respeito à soberania para a superação dos conflitos políticos.

“Sabemos que as sanções minam as liberdades econômicas e financeiras e retardam o desenvolvimento humano”, afirmou. “Da mesma forma, o fracasso institucional do comércio global é evidente, porque nenhuma nação pode prosperar sob esquemas supranacionais que não promovam a indústria nacional e premiem a deslocalização. A estabilidade internacional exige resolver o trilema energético: garantir simultaneamente a segurança no fornecimento, preços acessíveis e sustentabilidade ambiental”, agregou a presidenta em exercício.

‘Haverá eleições’

Ao tratar da política doméstica, a governante anunciou o início de um processo de transformação democrática e institucional. O plano prevê uma reforma do sistema de justiça para assegurar garantias jurídicas a cidadãos e investidores, além da promoção de diálogo político com setores da oposição, visando à realização de futuras eleições transparentes e inclusivas.

“A democracia não se mede pela existência de eleições. A democracia mede-se pela qualidade da competição que precede essas eleições”, declarou Rodríguez, que, por outro lado, afirmou que “haverá eleições” no país.

“Uma eleição deve ser uma solução, não um gerador de conflitos irreconciliáveis. Quero dizê-lo muito claramente nesta Assembleia Geral: na Venezuela haverá eleições e, nessa direção, iniciamos um diálogo político com setores da oposição que conduza a um processo em igualdade de condições para todos”, disse a governante.

De outro modo, voltou a afirmar que espera realizar eleições “em um que não esteja submetido a restrições econômicas”.

“O povo venezuelano, com a sua sabedoria ancestral, determinará o momento correto e as suas instituições estarão preparadas para garantir esse processo inclusivo e transparente em um país que não esteja submetido a restrições econômicas de nenhum tipo para que se garanta o seu direito ao desenvolvimento”, disse a presidenta, que, pela primeira vez, falou em “transição democrática”, ao defender que os temas internos devem ser resolvidos internamente.

“A história nos ensinou que algumas das transições democráticas mais sólidas do mundo contemporâneo não nasceram da ruptura, mas da transformação conduzida com firmeza a partir das próprias instituições. Essa é a inspiração”, afirmou Delcy Rodríguez.

Apelo à comunidade internacional

A presidenta em exercício fez um apelo à comunidade internacional para apoiar as mudanças que têm sido conduzidas no país, e exortou pelo fim do isolamento diplomático ao qual a Venezuela foi submetida nos últimos anos. 

“Peço o acompanhamento da comunidade internacional para que apoie de boa vontade as mudanças de que a Venezuela precisa, a partir do respeito à autodeterminação do meu país. A Venezuela quer respirar livre, exercer os seus direitos como nação soberana, sem nenhum tipo de intromissão; uma Venezuela admirada e respeitada.” 

A presidenta em exercício disse “assumir uma responsabilidade histórica” de conduzir a Venezuela “de uma etapa de incerteza e conflito para uma etapa de democracia plena, reconhecida pelo seu próprio povo e pelo mundo”. 

“Ao meu amado povo digo: este não é o fim de um discurso, é o começo de um compromisso. À comunidade internacional digo: a Venezuela está pronta para caminhar de mãos dadas com quem acreditar numa relação internacional respeitosa, sem intromissões, nem pré-julgamentos”, apontou.

Guyana Esequiba: disputa territorial

A líder venezuelana também reiterou os direitos históricos do país sobre a região da Guayana Esequiba, defendendo a resolução do litígio territorial com a Guiana por meio de negociações bilaterais.

“Não posso deixar de mencionar neste espaço, sede da legalidade internacional, a nossa reafirmação dos históricos direitos da Venezuela sobre a Guiana Essequiba e o apelo à República Cooperativa da Guiana para resolver e voltar às negociações, tal como ordena o Acordo de Genebra. Os acordos que mais duram são os que provêm de negociações bilaterais por cima de organismos externos”, declarou a presidenta.

A Corte Internacional de Justiça (CIJ) julga um processo, movido pelo governo guianês em 2018, para resolver a disputa territorial pela via judicial. Por sua vez, a Venezuela não reconhece a competência da CIJ para julgar o caso e reivindica a validade do chamado “Acordo de Genebra”, assinado em 1966, que prevê a solução do conflito de forma “prática, pacífica e satisfatória para as partes”. 

Editado por: Rodrigo Gomes

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