O presidente chinês, Xi Jinping, iniciou nesta quarta-feira (23) uma visita oficial aos Estados Unidos, a convite do presidente Donald Trump. O principal compromisso da viagem será o encontro entre os dois líderes, previsto para quinta-feira (24), em Washington. A visita ocorre quatro meses depois de Trump ter viajado à China, em maio, em um momento de esforços dos dois governos para administrar as tensões e preservar a estabilidade na relação bilateral.
As relações entre as duas maiores economias do mundo continuam marcadas por disputas em áreas como tarifas e comércio, tecnologia, inteligência artificial, terras raras e outros minerais críticos. Taiwan também permanece como uma das principais questões estratégicas da relação entre Beijing e Washington. Ao mesmo tempo, os dois governos têm buscado manter canais de negociação e evitar uma nova escalada.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, realizada em Pequim na véspera do encontro, o professor Zhao Hai, diretor de Estudos Políticos Internacionais do National Institute for Global Strategy, da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), analisa as perspectivas para a reunião e os principais desafios da relação China-EUA.
Especialista em relações China-EUA e questões estratégicas da Ásia-Pacífico, Zhao fala sobre o significado do encontro, as disputas comerciais e tecnológicas, Taiwan, o impacto da relação bilateral para o Sul Global, o papel da China na ordem internacional e a possibilidade de uma atuação chinesa nas negociações envolvendo Irã e Estados Unidos.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Qual é a importância do encontro entre Xi Jinping e Donald Trump para as relações entre China e Estados Unidos?
Zhao Hai: O presidente Xi acaba de deixar a China e está a caminho de Washington, D.C., nos Estados Unidos. Esta visita é extremamente importante em um momento muito significativo da história mundial, porque o presidente Trump visitou a China há apenas alguns meses, em maio.
Os dois lados concordaram em estabelecer uma relação de estabilidade estratégica construtiva, o que é muito importante, porque foi a primeira vez que ambos concordaram sobre como definir a relação bilateral. Além disso, os dois lados concordaram em manter a paz, a estabilidade e uma coexistência pacífica entre si.
Isso é muito importante porque, na realidade, há pessoas nos Estados Unidos pressionando para reprimir o desenvolvimento da China e tentando conter o país, assim como ocorreu durante a Guerra Fria contra a União Soviética. A China se posicionou contra a pressão dos Estados Unidos, lutou por sua própria soberania e defendeu seus próprios interesses. E teve muito sucesso em fazer frente ao imperialismo estadunidense.
Portanto, esse é o sucesso, na minha opinião. A visita do presidente Xi aos Estados Unidos demonstra que a China foi bem-sucedida em lidar com a estratégia estadunidense.
Daqui para frente, acho que o próximo passo, naturalmente, é garantir que a estabilidade continue e assegurar que os Estados Unidos não adotem outras medidas contra a China. Por isso, a negociação e a comunicação entre os dois principais líderes são muito importantes neste momento.
As disputas comerciais deram lugar, em grande medida, a uma competição tecnológica entre China e Estados Unidos. Qual é o peso de temas como tarifas, inteligência artificial, terras raras e minerais críticos no encontro?
Aparentemente, o primeiro governo Trump iniciou a guerra comercial com a China. Então, a primeira etapa da fricção foi sobre tarifas e barreiras comerciais. No entanto, acho que agora estamos entrando em uma segunda etapa, em que a competição tecnológica está se tornando mais importante.
Aparentemente, os estadunidenses estão muito preocupados com o avanço da China em inteligência artificial e estão usando todo tipo de medida, incluindo controles de exportação e agora também medidas de importação, para conter o desenvolvimento chinês.
A China tem usado contramedidas para reagir, incluindo terras raras e outras medidas contra empresas estadunidenses. E agora acho que estamos chegando a um impasse, uma espécie de equilíbrio.
É por isso que os dois lados concordam em manter a estabilidade neste momento, para garantir que a China não use terras raras e outras contramedidas para interromper as cadeias de abastecimento estadunidenses e que os Estados Unidos também não cortem as cadeias de abastecimento da China. Então, agora é uma espécie de situação de cessar-fogo.
O senhor espera alguma mudança substancial na relação entre os dois países depois do encontro?
Não haverá uma mudança substancial na relação bilateral. Não haverá um desvio significativo da trajetória atual.
Voltemos um pouco, porque acho que o principal objetivo da China neste momento é manter a estabilidade. Anteriormente, havia uma espiral descendente na relação bilateral. A situação estava piorando e havia o risco de os dois lados entrarem em algum tipo de conflito. Agora, a situação está melhorando, o que significa que os dois lados estão evitando avançar em direção a uma escalada ou a um conflito direto entre si.
Seja em relação ao comércio e às tarifas, à tecnologia, às terras raras, aos minerais críticos ou à geopolítica e a muitas outras questões, acho que todos concordamos que, neste momento, pelo bem dos dois países e também pela paz e estabilidade globais, precisamos chegar a um acordo. É por isso que a visita do presidente Xi aos Estados Unidos neste momento é muito importante.
Olhando para os últimos meses, muitas coisas aconteceram no mundo, certo? Muitas turbulências, situações caóticas e guerras eclodindo. Então, acho que os dois maiores países, as duas maiores economias, manterem a estabilidade terá um papel fundamental para garantir que a paz seja mantida em uma escala mais ampla ao redor do mundo.
Taiwan é outro dos temas mais sensíveis da relação China-EUA. O que o senhor espera que Xi Jinping diga a Trump sobre a questão?
Bem, existe uma história muito longa e complexa envolvendo Taiwan. Mas, antes de tudo, Taiwan é uma questão interna da China. Existe uma guerra civil que, até agora, não terminou.
Acho que a situação básica é que os Estados Unidos e o mundo, a grande maioria dos países do mundo, reconhecem que Taiwan faz parte da China, e a China está agora buscando a reunificação definitiva com Taiwan. Na última visita de Trump a Beijing, acho que o presidente Xi lhe deu uma explicação sobre a história de Taiwan, a posição da China sobre a questão de Taiwan e a oposição da China à continuidade e ao aumento das vendas de armas dos Estados Unidos para Taiwan.
Daqui para frente, acho que, desta vez, quando o presidente Xi visitar os Estados Unidos, ele continuará enfatizando a importância de os Estados Unidos cumprirem os três comunicados conjuntos assinados entre os Estados Unidos e a China. Ele também continuará alertando para as graves consequências da venda de armas dos Estados Unidos para Taiwan, especialmente armas ofensivas.
E também dirá ao presidente Trump que a China continuará buscando o objetivo da reunificação, e que os Estados Unidos não devem e não podem impedir esse eventual desfecho.
A questão é que a China buscará isso de forma pacífica. Acho que esse é um ponto que os dois lados precisam compreender melhor.
Além da relação bilateral, que impacto uma maior estabilidade entre China e Estados Unidos pode ter para a paz internacional e para o Sul Global?
Primeiro, a China é agora um país global. Tem interesses globais. A China é o principal parceiro comercial de mais de 120 países e tem investimentos em todo o mundo. Então, é claro que a China está muito preocupada com a paz, a estabilidade e a prosperidade globais. Isso atende tanto aos nossos próprios interesses quanto aos interesses de nossos parceiros em todo o mundo.
Em segundo lugar, acho que a China precisa assumir responsabilidades e quer oferecer bens públicos ao mundo. Porque agora, se pensarmos no Oriente Médio, na África e até na América Latina, ainda existem conflitos em andamento, além de repressão e exploração.
De muitas maneiras, a China quer usar sua própria história de desenvolvimento para mostrar a outros países que eles podem aprender com a história, a cultura e a experiência chinesas e desenvolver seus próprios países. Dessa forma, podemos avançar juntos. Então, o Sul Global deve trabalhar em conjunto para melhorar as condições de vida de suas populações.
Além disso, durante centenas de anos, o Ocidente foi dominante, e a ordem global foi estabelecida sem uma verdadeira consulta ao Sul Global. Agora, acho que a China, como membro do Brics, da Organização para a Cooperação de Xangai e de muitas outras parcerias do Sul Global, quer promover a voz do Sul Global e também assumir a responsabilidade de desempenhar um papel construtivo, ajudando todos os outros países a se desenvolverem juntos.
É por isso que o presidente Xi apresentou quatro iniciativas globais, incluindo desenvolvimento, segurança, civilização e governança global. E, se analisarmos essas iniciativas, a China realmente quer apresentar sua própria história e sua própria experiência a muitos países em desenvolvimento e ajudá-los a crescer juntos.
O senhor também vê contradições na estratégia dos Estados Unidos. Como a China interpreta o papel de Washington na ordem internacional e na América Latina?
Acho que existem muitas contradições na estratégia dos Estados Unidos. Por um lado, os estadunidenses dizem: “O mundo não é problema nosso. Os Estados Unidos primeiro.” Por isso, querem transferir certas responsabilidades para seus parceiros e aliados.
Ao mesmo tempo, estão aplicando a chamada Doutrina Monroe, tentando dominar a América Latina e o hemisfério ocidental. Por isso, continuam com sua ingerência interna e sua exploração econômica.
Acho que a mensagem da China ao mundo, assim como aos líderes e ao povo dos Estados Unidos, é que os Estados Unidos devem ser um Estado normal no mundo, e não um país que possa dominar e tentar reprimir outros países. Todos os países devem ser iguais em termos de soberania.
Por isso, é muito importante que, nesta semana, se reúna a Assembleia Geral das Nações Unidas e que líderes de todo o mundo estejam presentes. É, basicamente, uma mensagem direta aos Estados Unidos e, posteriormente, por meio dos canais bilaterais, de que o poder estadunidense tem limites. Os Estados Unidos já não podem dominar outras partes do mundo.
Acho que, quanto mais rapidamente os Estados Unidos se adaptarem ao seu novo papel, melhor.
O senhor mencionou conflitos internacionais. A questão do Irã pode aparecer na conversa entre Xi Jinping e Donald Trump? E qual poderia ser o papel da China?
Bem, em primeiro lugar, em princípio, a China sempre defende uma solução pacífica por meio de um acordo político. Por isso, da perspectiva chinesa, a negociação deve ser sempre a primeira e a única opção para resolver qualquer conflito.
Mas, especificamente no caso do Irã, os Estados Unidos tentaram bombardear o Irã e usar meios militares para submeter o país, mas fracassaram. E, até agora, devido a esse fracasso, o Estreito de Ormuz continua fechado, e o mercado mundial e a comunidade internacional, incluindo o povo estadunidense, estão sofrendo com os efeitos dos preços mais altos da energia.
É claro que a China quer defender a paz. E, neste momento, acho que a negociação política e uma solução pacífica também são a única opção para os Estados Unidos. Se quiserem reiniciar a guerra e utilizar mais meios militares para resolver a situação, as coisas só vão piorar, e outros países do Golfo e países vizinhos também sofrerão as consequências do conflito militar.
Por isso, acho que a única forma eficaz é por meio de negociações, seja diretamente entre os dois lados ou com a mediação do Paquistão, do Catar e de outros países. E a China desempenhará um papel muito construtivo para aproximar os dois lados e alcançar o objetivo final da paz.
A China já fez isso antes. Lembremos que, alguns anos atrás, havia o JCPOA, o acordo entre os cinco países mais um. Naquela época, a China desempenhou um papel muito construtivo nos bastidores, ajudando os dois lados a chegar a um acordo. Agora acho que a China pode fazer isso novamente.


