Medida provisória

‘É o pobre que joga, é o pobre que fica doente’, diz Lula ao prometer fim das bets

Presidente reuniu ministros no Alvorada na quarta (23) sem fechar desenho da MP; clubes falam em 'fim do futebol'

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Lula reúne artistas em ato durante o ato 'Cultura com Lula', na Fundição Progresso, Rio de Janeiro
Lula reúne artistas em ato durante o ato ‘Cultura com Lula’, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a prometer, nesta quarta-feira (23), o fim das casas de apostas online no Brasil. Em ato de campanha com artistas no Rio de Janeiro (RJ), ele rebateu os clubes de futebol que se opõem a restrições ao setor. “Essa não é uma guerra, é uma decisão: nós vamos acabar com as bets”, afirmou.

“Eu terei o imenso prazer em acabar com as bets. Eu terei o imenso prazer em regular as plataformas”, disse. Ele comparou a medida à aprovação do ECA Digital e afirmou que não pode deixar a ludopatia, o vício em jogos de azar e apostas, tomar conta do povo brasileiro.

“A minha preocupação é que hoje tem uma parte da juventude atrelada aos algoritmos. E se a gente não fizer essa luta, os algoritmos vão ganhar”, declarou.

O presidente também considerou triste o argumento dos dirigentes de que o fim das apostas levaria ao fim dos clubes. Para contestar essa tese, lembrou títulos conquistados sem patrocínio de casas de apostas. Citou o Santos, que chamou de “um dos melhores times que o mundo já conheceu”, bicampeão mundial, e o Flamengo, campeão do mundo em 1981. Mencionou ainda os mundiais de Corinthians, Internacional, Grêmio e São Paulo — todos conquistados sem bets.

“Acho uma insensatez. Se tiver algum dirigente de clube me ouvindo agora, pelo amor de Deus, reflita. O torcedor pobre vai no campo, compra uma camisa do time e paga pela propaganda que está lá. […] Agora chegam as bets, que não oferecem entretenimento para ninguém, e ficam financiando os clubes com o dinheiro do pobre”, disse.

“É o pobre que joga, é o pobre que fica doente, é o pobre que se mata. Então, seguinte, gente, nós vamos acabar com as bets. E os times que aprendam a virar times de empresários”, completou, endurecendo o recado depois: “Em nome da boa política, da sociedade brasileira, a gente vai acabar com isso. E os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro”.

O evento reuniu artistas como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Marieta Severo e Russo Passapusso.

A declaração repete o tom adotado por Lula na semana passada, quando, em ato em Guarulhos (SP), afirmou: “Eu vou acabar com as bets”. Na terça-feira (22), em discurso na Assembleia Geral da ONU, ele voltou a criticar o setor.

Reunião sem desfecho

Mais cedo, Lula recebeu no Palácio da Alvorada os ministros Dario Durigan (Fazenda), Miriam Belchior (Casa Civil), Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento), Wellington César (Justiça e Segurança Pública) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social), além do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. De acordo com participantes ouvidos pelo g1, o encontro terminou sem conclusão.

A mudança deve ser feita por medida provisória e o presidente escolherá entre duas propostas: uma que proíbe cassinos virtuais como o “Jogo do Tigrinho” e outra que bane as apostas online. A versão inicial do texto previa apenas restrições à publicidade.

Segundo a CNN Brasil, assessores do Planalto avaliam que Lula deve optar pela proibição total e enviar ao Congresso um texto mais duro, deixando aos parlamentares a decisão de flexibilizá-lo. O governo considera o peso da chamada “bancada das bets” no Legislativo. Ainda de acordo com a emissora, o anúncio oficial pode ficar para a última semana antes do primeiro turno, em 4 de outubro.

Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na quarta mostra que 75% dos entrevistados defendem a proibição das bets. O mesmo levantamento aponta que 36% atribuem a Lula a responsabilidade pela disseminação das apostas no país. No governo, a expansão das plataformas é associada ao aumento do endividamento das famílias e dos casos de ludopatia.

Clubes reagem

Na semana passada, clubes e federações estaduais divulgaram manifesto em defesa do mercado regulado de apostas. A mobilização começou em São Paulo e se estendeu a Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. O documento alerta que a medida pode representar o “fim do futebol brasileiro” e sustenta que o patrocínio das empresas autorizadas se tornou uma das principais receitas do esporte, chegando também a equipes menores e divisões de acesso.

Nos últimos anos, as bets passaram a ser as principais patrocinadoras dos times do país. A ofensiva contra o setor integra uma guinada na campanha de Lula, que na última semana também anunciou reajuste do Bolsa Família.

Editado por: Rafaella Coury

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