A última semana foi marcada pela volta das negociações sobre a guerra na Ucrânia ao centro da agenda diplomática. O movimento ficou evidente durante o encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, realizado à margem da Assembleia Geral da ONU, e as consequentes reações do Kremlin.
Mas, além das declarações sobre a retomada do diálogo, os ataques entre Moscou e Kiev continuam, a Europa eleva o tom das críticas à Rússia e o governo russo passa a contar com um novo resultado eleitoral para conduzir os próximos passos da guerra.
Esses acontecimentos não estão isolados. As eleições para a Duma Estatal, a câmara baixa do Parlamento russo, realizadas entre os dias 18 e 20 de setembro, tiveram repercussões que ultrapassam a política interna do país.
De um lado, a Ucrânia realizou um dos maiores ataques de drones contra Moscou desde o início da guerra. As autoridades russas relataram mais de 1.600 drones abatidos, incluindo os 450 que se dirigiam a Moscou. De outro, os resultados oficiais do pleito deram ao partido governista Rússia Unida uma ampla maioria na Duma. O resultado amplia a margem de manobra política do governo de Vladimir Putin para conduzir a guerra e as negociações, embora seus efeitos concretos sobre a estratégia russa ainda estejam por ser observados.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fabiano Mielniczuk, que esteve em Moscou como observador internacional das eleições russas, aponta que a estratégia russa não vem demonstrando alteração, independentemente das movimentações diplomáticas e declarações dos EUA e da Ucrânia. Segundo ele, a tendência é que, com o fim das eleições parlamentares, o Kremlin tenha mais autoridade para seguir alcançando os seus objetivos no conflito.
“Ainda está muito cedo para a gente avaliar isso. Mas o que me parece é que a Rússia não tem mudado a posição dela, não tem mudado a postura. Pelo que se sabe, nas negociações do Witkoff e do Kushner com o Putin, o que a Rússia falou em termos de condições para alcançar a paz. São as mesmas condições que já tinham sido dadas lá atrás. E foi essa mensagem que eles levaram para Kiev para falar com o Zelensky. E não parece que a Rússia está mudando a sua estratégia por conta disso. Agora vamos ver como é que vai ser depois do resultado das eleições aqui, que obviamente vai dar mais poder para o governo para tomar decisões”, argumenta.
Durante a reunião entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, às margens da Assembleia Geral da ONU, o presidente dos EUA defendeu uma trégua nos ataques contra infraestruturas energéticas entre Moscou e Kiev.
Ao comentar estas movimentações, o Kremlin demonstrou cautela. De acordo com o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, o contínuo fornecimento de armas da Europa à Ucrânia atrapalha o processo de negociações.
“De fato, a militarização da Ucrânia continua. Os estados europeus estão tentando encontrar cada vez mais dinheiro para comprar armas. […] Até o momento, não há pré-condições para a resolução dessa questão ou para o início de negociações de paz. Embora nós, Rússia, permaneçamos abertos a negociações de paz, ainda não há planos concretos para reuniões de alto nível”, declarou o porta-voz.
A declaração do Kremlin reforça uma posição conhecida da Rússia nas tratativas diplomáticas sobre o conflito. Enquanto, a Ucrânia demanda a adoção de um cessar-fogo imediato na guerra, Moscou aponta que primeiro as partes devem negociar os termos políticos, só depois assinar os termos de uma trégua. Enquanto isso, a Rússia afirma que continuará suas operações militares.
Em entrevista ao Brasil de Fato, a professora de Relações Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscou, Ana Lívia Esteves, aponta que a posição russa nas negociações está vinculada à busca por uma solução mais ampla para o conflito, que vá além de um cessar-fogo pontual. Segundo a analista, o Kremlin demanda que as negociações tratem das questões de segurança e das chamadas “causas subjacentes” da guerra.
“A ideia é que, como se diz no jargão do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, as ‘causas profundas’ do conflito sejam tratadas pelas partes antes de qualquer tipo de acordo. […] Por um lado, isso implica em negociações muito mais complicadas, negociações que vão demandar muito mais atores e muito mais temas. Mas, por outro, na visão dos russos, seriam essas negociações que atingiriam resultados mais duradouros justamente por tratar de todos os temas pendentes da agenda”, explica.
Neste contexto, um dos principais temas que vem sendo colocado em pauta é a possibilidade de um cessar-fogo sobre ataques contra infraestruturas energéticas entre Rússia e Ucrânia. A proposta busca interromper, de forma limitada, ataques contra instalações ligadas à geração e ao abastecimento de energia nos dois países.
A proposta ganhou força após o encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, durante a Assembleia Geral da ONU. Zelensky afirmou que Kiev estaria disposta a interromper os ataques contra instalações de energia, desde que a medida fosse bilateral. Segundo o secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, tanto Rússia quanto Ucrânia demonstraram interesse em algum tipo de cessar-fogo limitado para energia e outros setores.
A pesquisadora Ana Lívia Esteves avalia que uma trégua restrita ao setor energético dificilmente seria suficiente para destravar as negociações, porque Moscou continua defendendo uma discussão mais ampla sobre as condições para encerrar o conflito.
“Não me parece que um cessar-fogo estritamente no setor energético seja uma possibilidade viável para a Rússia, que vai insistir na manutenção da agenda do conflito, da regulação do conflito ucraniano, da solução do conflito ucraniano como uma agenda ampla que trate, como eles dizem, das causas subjacentes do conflito”, aponta a especialista.
A posição de cautela e ceticismo por parte de Moscou reflete as limitações das propostas sobre trégua energética e retomada das negociações. No dia seguinte ao encontro entre Trump e Zelensky, o Kremlin afirmou que ainda não existem condições para uma conclusão pacífica do conflito e defendeu que um eventual encontro de alto nível seja precedido por trabalho diplomático e técnico.
“Atualmente, não existem pré-condições para que as negociações cheguem a uma conclusão pacífica. No entanto, nós, como Rússia, permanecemos abertos a negociações de paz”, declarou o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov.
Ao mesmo tempo em que os canais diplomáticos voltam a ganhar espaço, a dinâmica militar não dá sinais de interrupção. Rússia e Ucrânia continuam realizando ataques sistemáticos, enquanto governos europeus anunciam novos apoios militares a Kiev. Neste contexto, Kremlin aponta o fornecimento de armas ocidentais como um dos fatores que dificultam o avanço de uma trégua.
Para o professor Fabiano Mielniczuk, há um sinal claro de escalada de tensão entre Rússia e o Ocidente. De acordo com ele, a retórica das autoridades europeias sobre uma narrativa de ameaça russa reflete, na verdade, um processo de deterioração de legitimidade das potências europeias.
“Estou surpreso com a posição dos líderes ocidentais. Ao mesmo tempo que eles vão perdendo legitimidade, você vê na Alemanha a extrema direita ganhando cargos, ganhando eleições regionais e perdendo a credibilidade do governo central, do Partido da Democracia Cristã. Você vê na França o presidente sem legitimidade. Ao mesmo tempo que está diminuindo a legitimidade dos líderes, estão aumentando a temperatura das críticas da Rússia e da ameaça da Rússia, a ponto do ministro das Relações Exteriores da Polônia dizer que, no conflito entre Polônia e Rússia, a Polônia ganharia da Rússia, o que é uma coisa totalmente fora da realidade em termos de capacidades militares”, analisa.
Putin no G20?
Apesar dos obstáculos colocados, os canais diplomáticos entre Moscou e Washington continuam funcionando. Nesta semana, o secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, reuniu-se com o chanceler russo, Sergei Lavrov, e confirmou que a Casa Branca convidou o presidente Vladimir Putin para participar da próxima cúpula do G20, em dezembro, em Miami.
A reunião entre Rubio e Lavrov foi o quinto encontro entre os dois desde 2025. O último havia ocorrido em julho, em Manila, e o novo contato ocorre justamente em um momento em que Washington tenta reabrir canais para discutir uma possível solução para o conflito.
A pesquisadora Ana Lívia Esteves aponta que a retomada desse contato entre os diplomatas e do envolvimento de diferentes órgãos dos governos russo e estadunidense nas negociações é um sinal positivo.
“O que eu vejo com bastante bons olhos é esse engajamento plural de vários ministérios e órgãos do poder, tanto da Rússia quanto dos Estados Unidos, no processo. É uma indicação de que o debate está voltando para os diplomatas profissionais, pelo menos do lado russo”, completa.
O convite para Putin também abre possibilidade de um novo encontro entre os presidentes russo e estadunidense. Desde o início da guerra, Trump e Putin se encontraram pessoalmente apenas uma vez, em agosto de 2025, no Alasca. A reunião, porém, terminou sem resultados concretos.
Ao mesmo tempo, o próprio secretário de Estado estadunidense reconhece que uma eventual trégua energética não resolveria a guerra. Segundo Rubio, Rússia e Ucrânia demonstraram interesse em uma medida limitada envolvendo energia e grãos, mas ela teria como objetivo apenas reduzir parte das tensões, e não encerrar o conflito.
