A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, participou nesta quinta-feira (24), em Porto Alegre, da aula magna do Curso de Agentes de Promoção da Saúde da População Negra, promovido pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Sob o lema “Valorizar pessoas. Criar um ambiente antirracista”, o evento reuniu comunidade, funcionários, especialistas e imprensa no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no Centro Administrativo do GHC.
O curso é voltado a trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) e agentes sociais, com o objetivo de promover a equidade racial no atendimento público de saúde.
A aula magna foi conduzida pela ministra, que destacou a urgência de consolidar um sistema de saúde universal, equitativo e estruturalmente antirracista. Segundo ela, o racismo atua como uma barreira histórica e um determinante social que afeta quem adoece, quem precisa dos cuidados e quem é menos escutado.
“A existência de uma saúde plena e democrática não acontece quando o racismo é o vetor que determina quem adoece, quem tem dificuldade de acessar o cuidado e quem é menos escutado. Precisamos fazer com que a pessoa negra não seja revitimizada no atendimento, que encontre acolhimento, seja compreendida e que as suas questões sejam consideradas”, disse a ministra.
Barros convocou os profissionais a utilizar a formação contínua oferecida pelo GHC como um motor de empatia e de melhoria no acolhimento e nos atendimentos aos usuários do sistema público de saúde.
“Fortalecer o SUS é torná-lo cada vez mais antirracista. É assim que o princípio da universalidade se sustenta. Temos a oportunidade de transformar conhecimento em prática, prática em mudança institucional e mudança institucional em garantia de direitos”, disse.
‘Não partimos do mesmo lugar’
A diretora de Inovação, Gestão do Trabalho e Educação do GHC, Quelen Tanize Alves da Silva, celebrou o desenvolvimento do SUS como uma conquista solidária e universal, capaz de oferecer atendimento integral que respeita as diferenças e enxerga a saúde para além da ausência de doenças. Por fim, ressaltou a importância do fortalecimento e do financiamento do SUS para a defesa da vida e o amparo da população negra.
Fernanda Vargas, presidente da Comissão Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Ceppir) do GHC, destacou o trabalho realizado na instituição em prol da equidade racial. “Nós estamos fazendo não somente uma reparação histórica, mas garantindo acesso a todas as pessoas”, afirmou. Ela enfatizou a dimensão humana e afetiva do cuidado prestado, recordando que tratar de um paciente é cuidar “do amor de alguém”, ao mesmo tempo que celebrou conquistas institucionais nas últimas décadas.
A mesa de apresentação também contou com falas de Valquíria Inês Pacheco Martins, gerente da Unidade Pronto Atendimento (UPA) Moacyr Scliar, e João Constantino Pavani Motta, diretor Administrativo e Financeiro do GHC.

Ativismo, racismo e saúde mental
Um dos momentos marcantes foi a apresentação de Lisane Vieira dos Santos, chefe de Gabinete da Diretoria do GHC, que compartilhou resultados de sua dissertação de mestrado sobre as repercussões psicossociais da atuação de mulheres negras ativistas. Lisane relatou sua trajetória como primeira aluna cotista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e explicou como o ativismo, embora fortaleça a causa, também pode adoecer devido ao acúmulo de violências e frustrações com as falhas do Estado.
“O racismo aparece como uma experiência repetida e naturalizada, mas seus efeitos não são naturais nem individuais. É um sofrimento por uma estrutura social. Precisamos aprender a escutar em vez de silenciar e, sobretudo, precisamos agir nesse assunto”, disse Lisane.
Também participou do evento Elaine Oliveira Soares, enfermeira e servidora da prefeitura de Porto Alegre, que falou sobre o trabalho de promotores e promotoras em saúde da população negra da capital gaúcha. Cândida Fernanda da Silva Rosa Bergqvist, inspetora da Polícia Civil, e Vinícius Nahan dos Santos, delegado da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância de Porto Alegre, encerraram a manhã com discussões sobre o racismo no trabalho policial no Rio Grande do Sul.
Sobre o curso
O Curso de Agentes de Promoção da Saúde da População Negra qualifica trabalhadores e agentes sociais — entre médicos, enfermeiros, agentes comunitários, lideranças de movimentos sociais e conselheiros de saúde — para a promoção da equidade racial no SUS.
Com aulas no GHC, em Porto Alegre, até dezembro, a iniciativa aborda temas relacionados à saúde da população negra, como racismo institucional, religioso e ambiental, epidemiologia do racismo, práticas antirracistas no SUS e participação social. Foram oferecidas 40 vagas a trabalhadores do GHC e do SUS, agentes comunitários, lideranças e integrantes de movimentos sociais.

