ENTRE FRONTEIRAS

‘O nosso norte é o Sul’: Daniel Drexler destaca potencial pouco explorado entre RS e Uruguai

Após show com Vitor Ramil em Porto Alegre, cantautor fala sobre templadismo, território e conexões culturais

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Daniel Drexler volta à Capital no dia 28 de novembro, no Chisme Festival
Daniel Drexler volta à Capital no dia 28 de novembro, no Chisme Festival | Crédito: Rafael Rosa

“Eu acho que ainda os gaúchos e os uruguaios não estamos aproveitando mesmo a possibilidade que essa região tem.” A avaliação é do cantautor uruguaio Daniel Drexler, que se apresentou ao lado de Vitor Ramil nesta quarta-feira (23), em Porto Alegre, no show de inauguração do Teatro Bancários RS.

Para o artista, a aproximação cultural entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e outros países da Ibero-América revela uma possibilidade ainda pouco explorada. “A gente não está na periferia, a gente está no centro de uma nova realidade”, afirma.

Filho de médicos e irmão do também músico e compositor Jorge Drexler, Daniel construiu uma trajetória que transita entre a medicina, a pesquisa na área da audição e a música. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, ele fala sobre o conceito de templadismo, desenvolvido a partir de reflexões sobre a música produzida nas regiões de clima temperado do Sul da América Latina e em diálogo com a Estética do Frio, de Ramil.

Na conversa, o músico fala ainda sobre a relação entre a prática médica, a pesquisa sobre zumbido e sua trajetória artística. Ao lembrar o cantor e compositor uruguaio Rubén Rada, morto recentemente, recupera a importância do artista em sua formação e no cenário cultural do Uruguai.

Ele também aborda como a aproximação com o Rio Grande do Sul transformou sua relação com o território e ampliou seu universo de relações para além da fronteira. Fala ainda sobre a influência da paisagem e do lugar no modo de cantar. Defende que a região formada pelo Uruguai e pelo Rio Grande do Sul se reconheça como centro de novas conexões culturais. “O nosso norte é o sul”, resume.

Daniel Drexler volta à capital no dia 28 de novembro, no Chisme Festival.

Vitor Ramil (esquerda) e Daniel Drexler  | Crédito: Vinicius Angeli

Brasil de Fato RS: Daniel, eu queria que tu falasses sobre o templadismo e sobre como ele se relaciona com a Estética do Frio.

Daniel Drexler: Quando eu era pequeno, em casa, minha mãe tinha alguns discos de música brasileira e a gente ouvia muito esses discos. Discos de Dorival Caymmi, discos de Jobim, alguns outros discos também de Cartola, de Chico Buarque. E nossa relação com a música brasileira é uma relação de consumo. A gente consumia muita música brasileira, mas principalmente música do eixo Rio-São Paulo-Salvador-Minas Gerais.

No ano de 2003, a gente estava fazendo uma turnê de imprensa em Buenos Aires, e eu me lembro que a menina que levava a imprensa, eu estava com o Jorge, num carro na Avenida 9 de Julho, aquela avenida enorme que tem em Buenos Aires, e ela disse: “Vocês têm que ouvir um músico novo que eu tenho aqui, que eu estou trabalhando com ele”.

E ela botou música no aparelho do carro e apareceu a música “Não É Céu”, do Vitor. E foi muito engraçado para nós, porque foi como começar a descobrir um universo musical que estava bem perto de nós, mas, ao mesmo tempo, a gente não tinha contato com ele. A gente tinha contato com o que acontecia mais longe.

E, a partir daí, a gente já estava desenvolvendo aquela ideia de que a música que é feita na região tem muitas características dos climas temperados. Tem muitas características também de ser uma região de transição climática, transição demográfica, transição topográfica e, ao mesmo tempo, ter três fronteiras políticas e uma fronteira linguística entre o espanhol e o português, mas, desde o ponto de vista cultural, funcionar de um jeito muito unificado.

Aí começamos a falar do templadismo. A princípio, foi quase uma brincadeira, mas depois a gente terminou escrevendo alguns textos e também refletindo sobre aquilo com o Vitor, com o livro dele, a Estética do Frio. E foi muito interessante porque isso me ajudou muito a entender onde eu estava parado no mundo, qual era o potencial de morar nessa região, de ser a única região que tem um contato fluido e real entre a América lusoparlante e a América hispanoparlante.

E é interessante porque também essa desconexão acontece na Península Ibérica, entre a Espanha e Portugal. Tem uma desconexão total. Espanha e Portugal vivem de costas. Eu venho fazendo turnês desde 2006 na Espanha e ainda não consegui me apresentar em Lisboa. São dois mundos bem afastados.

Somente acontece uma conexão entre a Galícia e o norte de Portugal, mas o resto… E a mesma coisa acontece aqui no Sul. E o potencial que tem dessa interação entre o mundo lusoparlante e o hispanoparlante, que acontece particularmente aqui, entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai, é enorme.

Então, eu acho que, de algum jeito, a gente botou o dedo num botão muito importante e, a partir daí, começaram a acontecer muitas coisas.

Eu me lembro que tinha um amigo, agora um parceiro, Lucas Panitz (geógrafo, mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — UFRGS), que estava fazendo sua tese de mestrado. E, até para a demonstração dele, tomava uma música minha, uma música do Vitor, uma música do Jorge e acho que também uma música do Kevin Johansen. E ele tentava demonstrar como a paisagem ficava refletida nas músicas, como a paisagem influía sobre o jeito que a gente escrevia as músicas.

Eu depois voltei para Porto Alegre, uns cinco ou seis anos depois, e ele me disse: “Agora estou trabalhando o inverso. Estou tentando entender como a criação artística gera espaço”.

Eu não sei, mas, quando comecei a refletir naquilo, minha vida mudou muito. Minha vida mudou muito. Eu agora sinto que, na etapa prévia ao descobrimento do Vitor e ao descobrimento do universo aqui do Rio Grande do Sul, eu morava como todos os uruguaios, de um jeito hemiplégico. Sempre olhando para a Argentina e para o resto da América Latina.

E, na hora que a gente começou a pensar nisso e que começou a fazer shows aqui no Rio Grande, eu me lembro do primeiro show que fiz na Reitoria da UFRGS, foi como que se abriu uma nova dimensão espacial também.

E eu agora sinto que minha vida acontece de um jeito muito mais amplo. Eu não somente venho aqui para fazer shows. Eu venho aqui para casamentos de amigos, venho aqui para comemorar aniversários. Minha vida se ampliou, o espaço da minha vida se ampliou.

E isso foi interessante. Foi o que falava justamente Lucas: primeiro está a ideia, depois está o espaço.

‘Eu respiro esse espaço, eu respiro esse clima ‘ | Crédito: Rafael Rosa

E como o clima e o espaço aparecem nas tuas músicas? Como eles influem no teu trabalho?

Eu acho que não tem jeito de saber. Isso é uma coisa tão forte que não tem jeito de que aquilo não esteja dentro das minhas músicas.

Eu respiro esse espaço, eu respiro esse clima e, de algum jeito, quando começo a escrever ou quando começo a tocar o violão ou a procurar harmonias, o sotaque desse espaço, desse clima, dessa demografia, dessa topografia, está permanentemente aí.

Eu não conseguiria fazer de um jeito diferente.

Em uma entrevista que fizemos com a Liliana Herrero, ela afirmou que “cantar é um território”. Como tu vês isso?

Acho que tem a ver também com aquilo que falamos do sotaque, não? O entorno, o território se reflete no jeito que cada um canta. Não acontece sempre, mas eu gosto de pensar que o jeito que o Vitor canta tem a ver com o território, né?

E eu gosto também de pensar que o jeito que eu canto tem a ver com isso.

O que é o Sul para ti?

O Sul é meu norte. Eu queria dizer também que, para mim, o Sul ficou completo no momento que eu comecei a ter esse relacionamento com o Rio Grande do Sul, porque, na verdade, como falava antes, no início meu relacionamento era principalmente com a Argentina, e isso acontece para qualquer músico, inclusive para qualquer pessoa no Uruguai.

E, no momento que eu senti que comecei a me relacionar com uma região inteira, aí o Sul começou a ter um peso próprio.

E também aquela ideia que eu, em um momento da minha vida, pensei: nessa ideia de ir morar, sei lá, em Madrid como foi o Jorge ou de ir morar nos Estados Unidos ou no México. Quando eu senti que aqui tinha muita coisa para acontecer em todo o entorno, aí o Sul começou a ficar completo.

Tu poderias falar um pouco do Festival La Serena (evento musical ibero-americano realizado anualmente em La Paloma, Uruguai)? Como esses festivais e as cenas latino-americanas são importantes para essa conexão?

La Serena também tem muito a ver com tudo isso que a gente está falando. Eu praticamente me criei em La Paloma, que é a parte do Uruguai que está mais perto do Brasil, no Sul. La Paloma fica a 100 quilômetros da fronteira.

Eu nasci no dia 9 de janeiro, então, quando eu era criança, sempre meu aniversário caía nas férias. Então era horrível, porque eu sempre estava com as tias e os primos, mas eu não conseguia ver os parceiros da aula.

No entorno dos meus 30 anos, eu me dei conta de que poderia fazer uma vingança daquela situação que tive na infância. Porque, na verdade, quando a gente está de férias, perto do Réveillon, todo mundo tem tempo.

E, estando ali em La Paloma, comecei a alugar uma casa com uns músicos parceiros. Eu estava gravando o disco Vacio naquela época, músicos argentinos. E comecei a levantar o telefone e ligar para a gente: gente de Córdoba, gente de Paysandú, de Santos, gente de Porto Alegre, de Pelotas, Uruguaiana.

E todo mundo veio, porque aquela situação geográfica que tem nesse ponto, sem querer, começou a acontecer uma coisa que, no início, era simplesmente um encontro. E segue sendo um encontro, só que agora somos 800.

A dimensão é bem interessante. Mas justamente eu acho que La Serena é uma manifestação da potencialidade que tem a nossa região.

E, novamente, a sensação é que você bota o dedo num botão e aquele botão faz uma expressão muito mais grande que o ato que você fez simplesmente pressionando o botão.

La Serena agora virou um caso muito singular de conexão natural entre o Brasil e o resto da Ibero-América e também de conexão entre Portugal e Espanha.

Casualmente, também muita gente de Portugal e Espanha está se conhecendo aqui em La Serena. Eu venho percorrendo a Ibero-América inteira faz muito tempo já e tem muitos projetos, principalmente feitos desde os governos, os ministérios de Cultura, tentando fazer essa conexão e sempre, sempre dão errado.

E lá em La Serena está acontecendo. E La Serena já tem quase 20 anos, e tem muita música que foi escrita ali, muita música que foi escrita em português, metade em espanhol ou em português, diretamente.

E a sensação de naturalidade com que a gente se encontra lá é um reflexo do potencial que tem essa região em particular.

Falando em festival, tu vais voltar para Porto Alegre, para o Chisme Festival em novembro…

O Chisme é mais um capítulo dessa questão, porque está começando a acontecer em muitos planos ao mesmo tempo. E, ao mesmo tempo, todos os diferentes planos têm uma interação entre eles que potencializa cada um dos planos individualmente.

Então, o que está acontecendo no Chisme, o que está acontecendo com o Festival A caminho, o que acontece no Festival Akará (Santa Catarina), agora também La Serena está tendo muita força dentro de São Paulo. Tudo isso está fazendo com que eu esteja muito feliz pela clarividência naquele momento que eu nem suspeitava o que ia acontecer. Mas, no momento em que a gente começou a pensar naquilo, foi como derrubar uma parede e aí começou a acontecer.

‘Quando eu senti que aqui tinha muita coisa para acontecer em todo o entorno, aí o Sul começou a ficar completo’ | Crédito: Vinicius Angeli

Tu tens formação em medicina e também fazes pesquisas na área da audição. Como a medicina conversa com esse teu lado de músico e compositor?

Muito mal, porque os dias têm 24 horas. Eu já tentei forçar aquilo, mas não tem jeito de mudar aquilo.

Mas, ao mesmo tempo, o fato de eu estar trabalhando com a música e estar trabalhando com o som, teve um efeito muito forte no jeito que eu trabalho na medicina e no tipo de pesquisa que eu desenvolvo.

A ideia para o tratamento do zumbido que a gente desenvolveu todos esses anos surgiu num estúdio de gravação, quando eu estava fazendo a mixagem do meu primeiro disco, “La Llave en la Puerta”.

E, ao mesmo tempo, tem muita coisa que acontece do jeito que eu trabalho como médico que tem a ver com as coisas que eu aprendi na música.

Na verdade, dos 20 até os 40 anos, eu achava que aqueles dois universos não tinham nenhuma relação entre eles e que ia ser muito difícil conseguir conciliar os dois, que eu ia ter que tomar uma decisão em alguma direção. Como se fala em espanhol, eu acho que o português também, “queimar as naves” (ir de tudo ou nada). Mas eu não queimei nenhuma. Eu continuo até hoje navegando no meio.

Agora, eu estou já com 57 anos. Eu acho que um dos grandes desafios que a gente tem nesse momento é continuar achando motivações, coisas novas e coisas novidosas que despertem a curiosidade.

Então, eu agora sinto que estou numa espécie de encruzilhada maravilhosa, como a encruzilhada na que eu estou parado.

E nunca me aconteceu, até agora, por exemplo, na música, de eu ficar em branco. Nunca me deu um branco. Eu sempre tenho muitas coisas para escrever.

E, às vezes, as coisas têm a ver com coisas que eu vejo lá na medicina, como da “La voz de la diosa Entropía” (música com a participação de Kevin Johansen). Estava falando de entropia justamente na pesquisa que estavam fazendo sobre zumbido. Ou da propriedade física do vazio.

Então tem uma conexão muito forte. E eu sinto que, daqui para frente na minha vida, estar em contato com uma situação onde tem tanta novidade é uma coisa muito boa.

Então, tu continuas praticando medicina?

Eu continuo praticando medicina de um jeito um pouco estranho, mas continuo, sim.

A gente tem um projeto de tratamento de zumbido do ouvido que cresceu muito. Agora temos quatro patentes nos Estados Unidos, duas habilitações da FDA. Então estamos atendendo este monte de pacientes em 12 países em toda a América do Sul, América Central, Estados Unidos e também alguns pacientes da Espanha.

A gente perdeu recentemente o Rubén Rada. E tu fizeste um post sobre ele e o candombe. Eu queria que tu falasses sobre o Rada, sobre os cantores que te influenciaram e sobre como tu começaste na música.

Na verdade, eu não sei como comecei na música. Foi quase sem pensar naquilo. Eu ouvia muita música em casa. Meus pais eram médicos, os dois, mas eles davam muita importância para a arte. Eles pensavam que, para ser bom médico, a gente tinha que dar importância à arte.

E não que fosse acontecer o que aconteceu. Afinal, o Jorge, meu irmão mais velho, meu irmão caçula, o Diego também, minha irmã Paula é DJ. Então, eu acho que eles fizeram uma overdose de estimulação artística com a gente. E aí aconteceu o que aconteceu.

Particularmente com o Rubén Rada, ele foi um cara tão importante em nossa vida que a grande surpresa agora que ele faleceu é que todos, não estou falando somente pelos músicos, a sensação que eu tenho no Uruguai é que todo mundo ficou como sendo: “Como é que o Rada não está mais?”. Porque ele era uma presença que sempre estava ali, sempre.

Você ouvia a música dele na rua, ouvia a música dele na televisão, ele estava nos botecos de Montevidéu. Era muito comum sair em um boteco e encontrar o Rada sentado ali, falar comigo: “Ah, tudo bem”.

Além disso, nos últimos anos, eu recebi muito ele no consultório. Estava trabalhando com o problema auditivo que ele tinha. Então, eu me aproximei muito dele no último tempo.

Eu já conhecia fazia muito tempo, de compartilhar palco, mas a sensação agora é uma sensação de orfandade. O chão se moveu, foi um terremoto para todos.

Para fechar, que mensagem tu gostarias de deixar?

Eu acho que ainda os gaúchos e os uruguaios não estamos aproveitando mesmo a possibilidade que essa região tem.

E, na hora que nós começarmos a pensar desse jeito, de entender que a gente não está na periferia, a gente está no centro de uma nova realidade, nosso jeito de desenvolver qualquer tipo de projeto, se é um projeto musical, um projeto industrial, um projeto científico, o potencial é enorme. O nosso norte é o Sul.

Editado por: Marcelo Ferreira

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