damarismo

Partidos conservadores se aproveitam de redes formadas por mulheres evangélicas, explica antropóloga

Estudo revela como articulação territorial de bases religiosas supera força de perfis digitais com milhões de seguidores

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Damares Alves defende Michelle Bolsonaro, reafirma apoio a Flávio Bolsonaro e critica ataques dentro da direita. (Foto: Valdenio Vieira/Arquivo Presidência República)
Damares Alves defende Michelle Bolsonaro, reafirma apoio a Flávio Bolsonaro e critica ataques dentro da direita. | Crédito: (Foto: Valdenio Vieira/Arquivo Presidência República)

A pesquisa “Mulheres evangélicas conservadoras nas eleições”, realizada pelo Lab-CRE (Laboratório Cristãos nas Redes) – Casa Galileia, identifica a infraestrutura política de mulheres conservadoras e indica que, quando se organizam no território, têm um alcance e uma capacidade de mobilizar maior do que qualquer perfil em redes sociais com milhões de seguidores.

O estudo mapeia as 60 candidaturas de mulheres conservadoras para esse pleito e traça uma espécie de linha do tempo, colocando como um importante ponto de virada o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Dois anos depois, já com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no poder, Damares Alves (Republicanos-DF) é empossada ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, indicando, como expõe o relatório, “uma reorganização do campo político com ampliação da participação de atores religiosos e conservadores”.

O estudo usa a expressão “damarismo” para definir o aprofundamento desses processos de mobilização e formação de lideranças, em clara referência à senadora Damares. Atualmente, a senadora e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro são apontadas como as lideranças dessa infraestrutura de mobilização de mulheres conservadoras.

A antropóloga e pesquisadora da Casa Galileia, Lorena Mochel, explica, ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, que a motivação da pesquisa foi entender como a profissionalização partidária dessas mulheres vem acontecendo a partir de influências que elas vivem em seus próprios territórios e das referências que passam a considerar a partir de lideranças espirituais. 

“A gente buscou explicar como é que os métodos utilizados por elas para se eleger têm gerado impactos dentro do campo dessas eleições atuais. A gente mostra como os partidos não moldaram essas lideranças do zero”, explica, destacando que o movimento parte de uma certa organicidade da própria atividade e funções religiosas de uma mulher evangélica dentro de uma comunidade em que está inserida. Ou seja, as igrejas acabaram se aproveitando dessas redes já construídas para ativá-las politicamente.

“Essas mulheres já constroem laços de confiança entre si, nas suas comunidades de fé. Na prática, fazem parte de uma igreja e são conduzidas dentro da igreja a participar de outros grupos de mulheres a partir de eventos, a partir de práticas que se chamam discipulado, ensino bíblico, intercessão. A maneira como isso se organiza a partir do gênero acaba conformando uma formação de novas lideranças e participação conjunta a partir de referências espirituais que elas constroem entre si”, destaca Mochel.

A pesquisadora explica que essas mulheres promovem eventos que são chamados “muitas vezes de chás, encontros, conferências, congressos e, dentro desses eventos, a gente consegue entender como é que essa articulação vai para a política partidária”.

Lorena Mochel pondera que esse fenômeno, embora esteja acontecendo há quase dez anos, começou a chamar a atenção das pessoas que não estão inseridas nesse contexto mais recentemente. Para ela, o vídeo de Michelle foi um dos pontos de atenção para isso.

“Houve uma grande explosão de possibilidade de tentar entender o que estava acontecendo no campo das mulheres evangélicas conservadoras. No relatório, a gente dá um passo atrás e tenta entender como é que essa inspiração veio, na verdade, de uma relação de amadrinhamento político-pastoral que acontece entre Damares e Michele, a partir de um movimento que elas lançam juntas em 2024, que se chama ‘Mulheres Conservadoras'”, avalia.

Segundo a antropóloga, há um leque bastante amplo de pautas que as mulheres debatem nesses encontros, mas a maioria delas diz respeito à rotina delas próprias. “Uma pauta que elas costumam falar muito a partir da atuação da Damares Alves é a pauta da defesa da vida. [Da perspectiva delas], a defesa da vida é ser contra o aborto, né? Isso é uma pauta fundamental, mas, ao mesmo tempo, essas pautas são articuladas a partir de uma imagem de uma mulher que precisa ser uma ‘mulher de bem'”, aponta, levantando questionamentos sobre o que é ser, afinal, “uma mulher de bem”.

Para ouvir e assistir

Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h25 às 8h25 da manhã, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM, na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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