‘Bets são uma doença permitida pelos governos Temer e Bolsonaro’, avalia cientista político

Cientistas políticos avaliam impacto de decisão de proibição de bets anunciado por Lula na disputa eleitoral

No audio source provided.

Movimentos fazem manifestações contra as bets
Movimentos fazem manifestações contra as bets | Crédito: MTST

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, nesta sexta-feira (25), a proibição das bets, incluindo medidas de punição para quem continuar operando as apostas online ou fizer publicidade. A decisão foi tomada a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições, diante de um cenário de endividamento das famílias e adoecimento mental de pessoas que acabam se viciando nos jogos.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Francisco Fonseca, professor de Ciência Política na PUC-SP e na FGV-SP, define o tema como “sensível” e reconhece a urgência do debate. Ele destaca que as pessoas estão endividadas e, mesmo com os indicadores econômicos positivos, diminuíram seu poder de consumo, e isso tem a ver com as bets. “É uma doença permitida pelos governos Temer e Bolsonaro”, afirma.

Contudo, considera que o impacto da proibição imediata pode ser drástico. “Ela precisa ser calibrada eleitoralmente e também politicamente”, pontua. Ele avalia que há uma dependência dos clubes de futebol com as casas de aposta e também pondera a arrecadação do governo. “Na minha avaliação, o ideal seria uma proibição parcial, em um primeiro momento, a começar pela propaganda, e estabelecer um prazo para ir tomando medidas mais duras até o fechamento total desse tipo de jogo, que é um jogo de azar, de dependência, de destruição psicológica e econômica”, afirma.

Já o advogado e cientista político Jorge Folena considera que a decisão de Lula foi um grande acerto porque ataca uma situação que tem causado muitos prejuízos para as famílias e para a economia. “É uma medida para ser saudada. É um dia para que famílias saúdem o que Lula fez ao Brasil. E cabe destacar: as mulheres são as que mais sofrem com isso”, avalia, lembrando que muitas das famílias são chefiadas por mulheres, que são também o grupo majoritário do eleitorado: 53%.

Nesse sentido, Francisco Fonseca concorda ao destacar que, apesar de o Brasil ainda ser um país machista, “90% da titularidade do Bolsa Família é das mulheres”. “As mulheres, em particular, eu diria, desejam muito que essa praga [bets] fosse terminada, e elas têm um papel importante na decisão das eleições”, avalia.

Folena também observa que, apesar do momento crítico da tomada de decisão de Lula e das eventuais repercussões que isso possa ter, o presidente assume para si um debate premente na sociedade. “Lula tem um poder de agenda ao mexer nas bets. Porque ele antecipa o debate, assume a agenda, não deixa para a oposição. Não adianta fazer programas como o Desenrola e manter os jogos. Foi uma medida responsável do presidente Lula”, elogia.

Grupo de eleitores do ‘nem-nem’

O cientista político e professor Francisco Fonseca avalia que, nessa reta final de campanha, além da importância do eleitorado feminino, o foco precisa ser no grupo que não se alinha nem a Lula nem a Bolsonaro. Nesse aspecto, Fonseca defende que é preciso que a campanha foque em explicar a essa parcela do eleitorado o que está em jogo. “É preciso trabalhar a ideia de uma sociedade que está doente por causa das bets para sensibilizar essa parcela do eleitorado”, afirma. Além disso, ele defende que Lula trabalhe a mensagem direta de que “caso o candidato de direita vença, estamos abertos a um caminho de ditadura”.

“Vai ser uma série de impeachment, a começar pelo Supremo Tribunal Federal”, aponta. O analista também destaca a proximidade de Flávio Bolsonaro com o presidente estadunidense Donald Trump, que tem feito movimento de interferência no processo eleitoral brasileiro. “O governo Trump é um governo inconstitucional e eles [bolsonaristas] querem reproduzir isso aqui. Existem dois projetos em disputa hoje no país: o de democracia política, social e soberania e um projeto de destruição da soberania, democracia e dos projetos sociais. A equipe econômica de Flavio já falou sobre os cortes. É um misto de Milei com El Salvador”, argumenta.

Fonseca também avalia que o ideal seria aumentar para aproximadamente 220 o número de deputados federais para tornar os dias de Lula menos complicados na presidência. “A outra coisa é evitar que o Senado não caia nas mãos da extrema direita”, alerta.

Sobre a afirmação de que o segundo turno é uma nova eleição, Fonseca concorda em partes. “O eleitor vai novamente votar; é uma nova mobilização de campanha, novos apoios, você tem novos fatos políticos que podem acontecer, mas é tudo muito relativo. O que me parece mais preocupante é a questão externa, ou seja, o governo Trump”, conclui.

Para ouvir e assistir

Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira das 12h25 às 14h, e a segunda, sem alteração, a partir das 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter