DEGELO NO MUNDO

Cadê o gelo que estava aqui?: mudança climática derrete glaciares e altera a vida no planeta

Enquanto o mundo derrete, Donald Trump chamou a mudança climática de 'a maior fraude já perpetrada contra o mundo'

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Pedro Hauck na cordilheira dos Andes. As montanhas ao fundo eram cobertas de gelo, agora têm pedras que irradiam calor.
Pedro Hauck na cordilheira dos Andes. As montanhas ao fundo eram cobertas de gelo, agora têm pedras que irradiam calor | Crédito: Arquivo pessoal

Enquanto o mundo esquenta e derrete a nossa volta, o presidente dos Estados Unidos segue negando a realidade e os estudos existentes. Donald Trump, chamou a mudança climática de “a maior fraude já perpetrada contra o mundo” em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na última terça-feira (23), em Nova Iorque. Ele afirmou que o consenso científico foi “feito por pessoas estúpidas” e defendeu o carvão como fonte de energia, além de celebrar a saída dos EUA do Acordo de Paris, tratado internacional que estabelece metas globais para a redução dos gases que colaboram para o aquecimento do planeta.

A verdade é outra. “Cadê o gelo que estava aqui?” Pergunta o montanhista brasileiro Pedro Hauck, 44 anos, a cada vez que lidera uma expedição ao Aconcágua, no lado argentino da Cordilheira dos Andes, a maior montanha do ocidente e do hemisfério sul, com 6.961 metros de altitude. A Venezuela, que compartilha a cordilheira, há quatro anos se transformou no primeiro país do mundo a perder todos os seus glaciares.

Derretimento de glacial nos Andes. Crédito: Pedro Hauck

Foi justamente na Venezuela, país invadido por militares dos EUA para sequestrar o presidente Nicolas Maduro no dia três de janeiro deste ano, que o último glacial existente, o La Corona, derreteu. Com 4.916 metros de altitude, no Parque Nacional  de Sierra Nevada, o La Corona saiu de 4,5 km quadrados de campo de gelo sólido para apenas 0,02 km de gelo. Em entrevista por telefone, Pedro Hauck fala sobre sua experiência em alta montanha e as alterações que tem percebido em mais de duas décadas de escaladas. Os cientistas estimam que os próximos países a perderem seus glaciares sejam a Indonésia, o México e a Eslovênia, devido aos recordes de calor registrados recentemente.

Pedro Hauck, paulista de Itatiba, radicado há 17 anos em Curitiba, é geógrafo formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), pós graduado na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e guia de expedições de montanhismo. Ele já escalou mais de 170 montanhas acima de cinco mil metros de altitude e acabou de liderar uma escalada ao Kilimanjaro, na Tanzânia, a maior montanha do continente africano, com 5.895 metros. A escalada ao topo do Kilimanjaro, que é um vulcão, atravessa cinco biomas diferentes, desde a floresta tropical na sua base até o topo glacial.

Grupo de escaladores em montanha da Bolívia, onde antes havia gelo, agora há pedras. Crédito: Pedro Hauck

Nas tuas fotos é possível ver o degelo nas montanhas. Que leitura você faz sobre esse fenômeno?

Eu sou uma testemunha das mudanças climáticas globais. Em 2002, na minha primeira experiência no Aconcágua, a montanha era totalmente diferente de hoje. Em fevereiro, que é uma época em que o derretimento do gelo está mais avançado, mesmo assim eu escalava em gelo, isso na Plaza de Mulas, que é onde fica o acampamento base, a 4.300 metros de altitude. Atualmente, não tem nada de gelo. Zero gelo. Já escalei montanhas nos Andes cuja rota era somente pelo gelo, o gelo derreteu, como na montanha Rincon, com 5.590 metros de altitude. Era uma rota por uma canaleta de gelo e agora a escalada é em rocha pura. É muito perigoso, porque essas rochas estão soltas, elas estavam estáveis por conta do gelo, que funciona como cimento.

Com a alteração de temperatura, o que acontece com o clima da região?

Pedro Hauck: O clima é muito mais do que temperatura, o clima é precipitação, é vento, é irradiação. Todos esses elementos mudaram e nos Andes uma coisa que mudou muito é a precipitação, tem nevado cada vez menos, sem falar na temperatura que subiu muito. A média de temperatura no inverno nos Andes oscilava entre 14 graus centígrados negativos e zero. As rotas técnicas, com gelo, estão desaparecendo, assim como todos os glaciares, agora estão surgindo as rochas soltas. As estações de esqui estão fechando porque não há mais gelo.

A estação de esqui de Chacaltaya, na Bolívia, perto de La Paz, que era a estação de esqui mais alta do mundo, a 5.421 metros de altitude, fechou em 2009. Acabou o gelo por completo e a estação foi abandonada. Um amigo boliviano me disse que antigamente, a van do Clube Boliviano de Montanhismo passava na casa dos associados e eles iam para o cerro Chacaltaya e passavam o fim de semana esquiando no gelo. Com o fim da neve no cerro, acabou o Clube Boliviano, a estação de esqui, os empregos e a geração de renda oriunda dessas atividades.

Eu ministro um curso de alta montanha na Bolívia há algum tempo. São aulas práticas de técnica de escalada em gelo. Há três anos eu levava o grupo até 4.900 metros de altitude para praticarmos a escalada em gelo. Não tem mais gelo nessa altitude. Agora nós precisamos subir até 5.300 metros para encontrar gelo e praticar a técnica. Abaixo dessa altitude é tudo rocha exposta ao Sol e às variações climáticas. 

A estação de esqui Vallecitos, no cerro Cordon del Plata, a cerca de cinco mil metros de altitude, na Argentina, foi totalmente abandonada, não tem mais gelo. A estação de esqui de Penitentes, 4.350 metros de altitude, ao lado da Rota 7, que vai de Mendoza, na Argentina, a Santiago, no Chile, está parcialmente abandonada desde 2016 porque não é em todos os invernos que há neve suficiente para a prática do esporte. 

Derretimento de campo de gelo no Atacama, no Chile – Crédito: João Paulo Barbosa

Por conta do degelo, lugares que tinham abundância de água, agora não têm mais e as pessoas acabam abandonando suas terras e seu estilo de vida e migram para as cidades. Em agosto de 2023, a região dos Andes, no pé da cordilheira, registrou temperatura de 38,9 graus centígrados.  E agosto é um mês de inverno.

Qual a tua estratégia nas expedições para diminuir o impacto ao meio ambiente?

Nas minhas expedições faço de tudo pra zerar o impacto, não deixamos nada e ainda recolhemos o que é encontrado de lixo no caminho. Muitos dos locais que frequentamos são unidades de conservação e têm suas regras de controle e, por isso mesmo, não encontramos muitos resíduos. Tem ainda uma questão importante, que são as fezes, sempre levamos banheiros, não é químico, e as pessoas fazem suas necessidades dentro de um saquinho, e a gente traz de volta. As expedições ao monte Roraima, no Brasil, também adotam essa prática.

Lá na montanha não fica nada. Deveria haver uma estrutura local para transformar o resíduo biológico em algum tipo de nutriente. É necessário pensar em soluções para essa questão. A gente vê que nesses destinos de montanhismo existe cada vez mais uma consciência ambiental, mas ainda falta organização. 

Derretimento da baia Dorian, na Antártica. Crédito: João Paulo Barbosa

Kilimanjaro

Estudo realizado com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), mostrou que 13 mil hectares da mata da base do Kilimanjaro foram destruídos pela mudança climática a partir de 1976. Um dos maiores desafios que provocaram as perdas dos últimos 50 anos foram os incêndios florestais, consequência da elevação da temperatura na região. 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevê um aumento de 3,2°C na temperatura média anual da África Oriental até 2080. Em consequência, os glaciares da região deverão desaparecer completamente em algumas décadas. A massa de gelo que já foi perdida chega a 80%.

Derretimento da cordilheira Darwin – Crédito: João Paulo Barbosa

Uma das recomendações do estudo da ONU é o reflorestamento da montanha mais alta do continente africano para proteger o abastecimento de água que ameaça vastas áreas da região oriental. A água já perdida por conta do degelo poderia abastecer um milhão de pessoas durante um ano.

O relatório recomenda ao governo da Tanzânia que proteja a bacia hidrográfica, invista em sistemas de alerta e faça da adaptação climática uma prioridade. A proteção do ecossistema montanhoso é também uma forma de proteger o turismo, que contribui com mais de um terço da receita da Tanzânia.

Fotografia do degelo

O fotógrafo, historiador e expedicionário João Paulo Barbosa, 50 anos, está documentando o degelo no mundo. É o projeto N’Ice Planet​, que documenta zonas frias e as principais questões relacionadas ao gelo, como os dilemas populacionais​, as migrações por conta de mudanças climáticas e o risco de extinção dos povos árticos.

João Paulo explica que a documentação que realiza também mostra ativistas​ ambienta​is, que fazem alertas sobre os riscos que o planeta experimenta, conversas com cientistas e trabalhos de geoengenharia que eles desenvolvem, “e também procuro registrar o que está sendo feito para mitigar os efeitos do aquecimento global e consequente derretimento do gelo”. É um projeto inédito e relevante por sua proposta abrangente e de impacto social.

Degelo na Islândia exibe as pedras e favorece o aquecimento. Crédito: João Paulo Barbosa

Este ano, 2026, João Paulo fotografou geleiras do Nepal e, em 2025, retornou à Antártica para novos registros fotográficos de geleiras e de degelo, também esteve na Islândia e na cordilheira Branca, no Peru. No próximo ano, João Paulo irá para a cordilheira Ruvenzoni, em Uganda, na África, onde está a montanha Ngaliema, também chamada de Stanley, com 5.895 metros de altitude, e ainda pretende retornar ao Kilimanjaro, onde esteve há 30 anos, para registrar as alterações ocorridas com a mudança climática.

No roteiro de João Paulo, ainda consta uma ida à Groenlândia e à Nova Zelândia, porque ele quer mostrar as alterações havidas nos cinco continentes. Enquanto não conclui a documentação, João Paulo realiza conteúdos paralelos, como um filme sobre a cordilheira Branca, exposições em museus e escolas, palestras pelo mundo e um filme sobre a Antártica. O filme, de 2023, conta a origem dos nomes dados aos lugares da Antártica.

Montanha no Paquistão, pedras no lugar do gelo. Crédito: João Paulo Barbosa

“Documentar a urbanização das mais altas montanhas geladas do planeta é dos mais tristes temas que compõem a minha pesquisa sobre o gelo no Antropoceno (termo empregado pelo químico holandes Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de química de 1995, para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto do homem na Terra). Será que logo mais haverá um hotel sofisticado na montanha K2, no Himalaia, a exemplo do que já acontece no Aconcágua e no Everest?”, indaga João Paulo.

Apenas no verão de 2025, foram trinta mil refugiados do clima na região do Himalaia e, em agosto deste ano, com o colapso de uma geleira no Nepal, mais de uma mil pessoas morreram, cerca de quatro mil estão desaparecidas e milhares foram deslocadas.

Gelo dos polos

O glaciólogo gaúcho Jefferson Cardia Simões já participou de duas expedições ao Ártico e 27 à Antártica. Sua última expedição foi em 2025, quando o professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) deu adeus ao longo relacionamento que teve com o gelo. Este cientista estóico, como ele mesmo se considera, agora vai se dedicar às pesquisas em bancada e a escrever artigos científicos e livros.

A expedição realizada no ano passado tinha como objetivo principal obter informações sobre a movimentação do gelo nas bordas do continente antártico, porque este gelo pode estar dinamicamente instável. São milhares de toneladas que podem ter um deslocamento abrupto e provocar uma turbulência sem precedentes no mar, algo como um tsunami. O segundo objetivo foi averiguar o nível de salinidade do mar, porque ele está mais ácido.

Pinguim na Antártida. Crédito: João Paulo Barbosa

O professor explica que a pesquisa identificou que a água do oceano austral está mais ácida devido a concentração de CO2. Isto porque o gelo que cobria a água do mar derreteu. Esse gelo funcionava como um isolante térmico. Sem essa proteção, a água do mar absorveu o CO2 que existe na atmosfera, a maior parte dele produto da interferência humana. As regiões polares são mais sensíveis às mudanças climáticas e elas dão sinais claros do que está acontecendo. O derretimento das geleiras expõe as rochas e elas aquecem  a região porque propagam calor. “A ciência não é feita apoiada em narrativas  e sim em evidências”, afirma Simões.

As geleiras polares perderam 30% de sua área e as geleiras não polares, como as da Cordilheira dos Andes, por exemplo, perderam 40% de sua área, expondo pedras, gerando calor, provocando inundações no início do fenômeno e, agora, escassez hídrica para as comunidades que vivem na base da montanha. 

Editado por: Vivian Virissimo

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