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China e a construção do socialismo no Séc XXI: especialista comenta conflitos e perspectivas

Autor, pesquisador e ativista Carlos Martinez defende o caráter solicialista da China contemporânea

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Em passagem por Belo Horizonte, para participar do debate “A China e o Socialismo na Disputa Geopolítica Global”, o autor conversou com o Brasil de Fato MG. | Crédito: Brasil de Fato MG

Vivemos um dos momentos mais tensos da geopolítica global: desde a Segunda Guerra Mundial o planeta não registrava um período de tantos conflitos armados e guerras simultâneas. 

No centro desses desafios, há arbitrariedades militares, políticas econômicas impostas pela maior potência mundial — Estados Unidos — a diversos países; novas tecnologias representam desafios civilizatórios a todas as nações; o autoritarismo reconquista espaço erodindo as democracias; e os conflitos ameaçam produzir crises econômicas que gerariam miséria. 

Apesar deste cenário, a China segue despontando como nova potência econômica mundial, seguindo, ao que tudo indica, um caminho centrado na paz.  E a defesa do multilateralismo como solução para a crise toma força, principalmente no chamado Sul Global. Apesar disso, “há toda uma campanha de difamação, uma guerra de propaganda em uma tentativa de conquistar apoio público para políticas cada vez mais hostis à China, que, no momento, assumem a forma de uma Guerra Fria com tarifas, restrições a semicondutores, sanções e medidas coercitivas econômicas e unilaterais”, defende Carlos Martinez. 

Um dos co-editores do site Friends of Socialist China, autor, pesquisador e ativista, Martinez é autor dos livros The East Is Still Red: Chinese Socialism in the 21st Century (O Leste Ainda É Vermelho: O Socialismo Chinês no Século XXI) e The End of the Beginning: Lessons from the Soviet Collapse (O Fim do Começo: Lições do Colapso Soviético). Seu trabalho se concentra em desfazer o que ele considera um “enorme mal entendido em relação à China”. 

“Mesmo na esquerda, existe a suposição de que a China é apenas mais um país capitalista e que o conflito entre os EUA e a China é um exemplo de rivalidade imperialista ou da chamada ‘Armadilha de Tucídides’. Portanto, em meu trabalho, tento explicar a verdadeira natureza da China e do socialismo chinês e, ao mesmo tempo, rebater a propaganda anti chinesa”, explica ele.

Em passagem por Belo Horizonte, para participar do debate “A China e o Socialismo na Disputa Geopolítica Global”, o autor conversou com o Brasil de Fato MG. Na entrevista, abordamos os conflitos em curso no mundo, o papel do Brasil e das eleições deste ano, a disputa pela hegemonia global e o caminho do multilateralismo e da paz.  

“Será um processo longo e doloroso rumo ao nosso mundo pós-imperialista, mas acredito que, no fim, a humanidade chegará lá”, aponta Martinez.

Confira a entrevista na íntegra 

Brasil de Fato MG – Você é autor do livro ‘The East is Still Red – Chinese Socialism in the 21st Century’. E aqui em Belo Horizonte participou do debate “A China e o Socialismo na Disputa Geopolítica Global”. O que você aborda em seu livro e qual o conteúdo do debate?

Carlos Martinez- The East Is Still Red: a dica está no próprio título. A pergunta central que ele faz é: a China ainda é um país socialista? 

A maioria das pessoas aceita que, até a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, ou seja, nas primeiras três décadas de construção socialista, desde 1949, quando o Partido Comunista da China tomou o poder, até a morte de Mao e o início das reformas de mercado em 1978, a China era um país socialista. E é certamente verdade que foi provavelmente o país mais igualitário da história da humanidade e operava com base no que tradicionalmente consideramos princípios econômicos e políticos socialistas.

Com o lançamento do processo de reformas e a construção do que chamam de economia de mercado socialista a partir dos anos 1980, a China passou a apresentar características tanto do socialismo quanto do capitalismo. O livro é focado em explicar as características do socialismo chinês moderno e algumas das suas contradições.

O que eu concluo essencialmente é que: embora tenha havido vastas reformas de mercado, se tenha capital privado na China, haja exploração do trabalho e desigualdade, embora existam bolsas de valores e bilionários e apesar de haver marcas globais sediadas no ocidente, a estrutura básica da sociedade chinesa, de sua economia, do sistema político e democrático chinês é socialista.

A prova disso é que a China conseguiu alcançar o que outros países não conseguiram. O exemplo mais óbvio é que a China foi capaz de erradicar a extrema pobreza. Segundo dados do Banco Mundial (que não é uma organização pró-China ou pró-comunista), desde 1980, 800 milhões de pessoas foram tiradas da pobreza na China. No programa chinês de alívio direcionado da pobreza, iniciado em 2013, a meta era tirar os 100 milhões restantes da extrema pobreza, até 2021, que foi o centenário da fundação do Partido Comunista da China (PCC). E eles tiveram sucesso nisso.

Estar fora da extrema pobreza não significa apenas ter uma renda de pelo menos US$ 2 por dia ou qualquer que seja a linha de pobreza definida internacionalmente pelo FMI e pelo Banco Mundial. Inclui isso, mas também significa que você tem acesso confiável a alimentação digna, tem moradia, roupas no corpo, acesso à saúde, suas crianças vão à escola por pelo menos 10 anos de educação universal garantida, você tem água limpa encanada em casa e energia moderna (eletricidade e/ou gás) em sua residência. Preencher todas essas condições é a definição de estar fora da extrema pobreza. 

Se você vive em um país do Terceiro Mundo ou do Sul Global (meu pai era da Índia e a visitei muitas vezes, além de outros países da Ásia), ter sua própria casa, água encanada, eletricidade, filhos na escola e comida na mesa é a própria definição de ser de classe média. 

Para alcançar isso foram empregados esses recursos incríveis. Eles enviaram 3 milhões de quadros do PCC às aldeias na China para trabalhar com  comunidades, famílias e indivíduos para entender sua situação específica e localizar um caminho fora da pobreza para pessoas e comunidades. O que podia envolver construir um conjunto habitacional, um novo telhado para uma escola, ou criar um aplicativo para que comunidades rurais pudessem vender seus produtos para cidades próximas, há um milhão de técnicas diferentes que foram usadas.

Você consegue imaginar os recursos necessários para alcançar algo assim e de forma sustentável, ou seja, de modo que as pessoas não apenas saiam da pobreza, mas permaneçam fora da pobreza permanentemente e nunca mais voltem a ela? Eu argumento que apenas um Estado que opera em moldes socialistas, onde a classe trabalhadora, o campesinato e seus aliados são a classe dominante, e não a classe capitalista, consegue concentrar recursos dessa forma em projetos populares.

Acho que o Brasil é um ótimo contra–exemplo. O que o Brasil conseguiu alcançar sob os governos de Lula e Dilma no alívio da pobreza foi muito impressionante. Mas não se compara ao que foi alcançado na China. E a diferença não foi a vontade do governo, não foi se Lula e Dilma tinham boas propostas e bons planos, ou se havia apoio para esses planos na população. A diferença é a estrutura política básica do país: a classe dominante no Brasil ainda é a classe capitalista, enquanto a classe dominante na China, não.

Essa é a base para dizer que a China ainda é essencialmente e globalmente um país socialista, com uma economia planejada, voltada primordialmente para as necessidades gerais de desenvolvimento do país, e não para o enriquecimento de uma elite.

De maneira geral, os brasileiros não têm uma grande aproximação com a realidade ou a cultura da China. Por outro lado, a perspectiva que a mídia tradicional oferece é estereotipada, de um país autoritário onde a liberdade individual não existe. Como um estudioso da China, de que forma você interpreta a perspectiva da propaganda na mídia ocidental sobre o país? Ela condiz com a realidade? Como nós podemos nos aproximar de uma visão mais real do que é a vida na China hoje?

Precisamos começar discutindo o que entendemos por democracia. Sou da Grã-Bretanha, onde estamos acostumados a igualar a democracia e o sistema parlamentarista de Westminster (modelo de governo em que o Poder Executivo surge diretamente do Poder Legislativo e responde a ele), no qual o Partido Conservador e o Partido Trabalhista alternam o poder entre si. Temos uma mídia nominalmente independente (The Guardian, The Telegraph, Daily Mail, etc.) e um certo nível de liberdade de expressão.

No entanto, as pessoas raramente analisam as limitações desse conceito. Por exemplo, eu posso dizer o que quiser em apoio à Palestina, ao Irã, à China, à Rússia, à Venezuela ou a Cuba, mas não tenho voz pública. Não consigo publicar em um grande jornal nem aparecer na grande televisão, porque a chamada mídia independente pertence a bilionários. 

Enquanto isso, os principais partidos políticos votáveis são partidos capitalistas.Há uma grande variedade de opiniões expressas, mas dentro de um espectro muito estreito, ou seja, os limites do que é politicamente aceitável são apenas uma variação de capitalismo contra outra variação de capitalismo. E o resultado é que nada realmente muda e o poder permanece concentrado nas mãos de pessoas ricas. Temos uma correlação muito, muito forte entre riqueza e poder político. E o mesmo ocorre obviamente nos Estados Unidos, provavelmente ainda mais.

E o que estamos descobrindo é que, à medida que a situação econômica no capitalismo ocidental piora — nos EUA, na Grã-Bretanha, na Europa —, as pessoas ficam mais chateadas, começam a resistir, a reclamar, a se organizar. Vimos uma enorme reação popular contra, por exemplo, o genocídio em Gaza desde outubro de 2023. E o Estado responde a isso reprimindo as liberdades democráticas, a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.

Na Grã-Bretanha e, agora, nos Estados Unidos, o grupo de ação direta pacífica e não violenta Palestine Action foi rotulado como uma organização terrorista. Assim, expressar apoio a essa organização é considerado crime. Literalmente milhares de pessoas, a maioria idosas (incluindo pessoas com mais de 80 anos), foram presas e levadas a celas policiais por segurar um cartaz dizendo “Oponho-me ao genocídio, apoio o Palestine Action”.

Agora, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, que faz parte do exército iraniano, foi classificado como uma organização terrorista na Grã-Bretanha. Ou seja, você tem um país que está sofrendo com uma guerra ilegal e criminosa para a qual não há base legal alguma sob o direito internacional ou nos termos da Carta das Nações Unidas, que está se defendendo, e expressar apoio a essa defesa é cometer um crime na Grã-Bretanha. Esse é o real estado da democracia e da liberdade de expressão em um país como a Grã-Bretanha, ou o mesmo pode ser observado nos Estados Unidos.

A China tem um sistema político completamente diferente, que eles chamam de “democracia popular de processo inteiro”. Eles têm eleições, têm um sistema democrático e o sistema de Congressos Populares em cinco níveis. Em paralelo ao sistema de Congressos Populares, eles têm os congressos consultivos, voltados à democracia consultiva, que consiste essencialmente em ir até as pessoas em seus locais de trabalho, comunidades, organizações populares (de mulheres, de minorias étnicas, sindicatos etc.) e consultá-las para entender suas necessidades e desenvolver políticas em torno dessas necessidades.

Se você analisar um documento como o Plano Quinquenal chinês — a economia da China funciona com base em planos quinquenais; acabamos de iniciar o 15º Plano Quinquenal —, um documento desse tipo é debatido por dezenas de milhões de pessoas e passa por milhares de edições e revisões, refletindo discussões em núcleos do partido, comunidades, reuniões de vilarejo, locais de trabalho, sindicatos, organizações de mulheres etc., ao longo de pelo menos um ano. Você pode ter milhões dessas reuniões resultando em dezenas ou centenas de milhares de propostas que são sintetizadas no documento final.

A economia deles é incrivelmente democrática se comparada ao funcionamento nos países capitalistas, onde organizações gigantescas com donos muito ricos tomam decisões que afetam milhões de pessoas. Eu diria que o sistema chinês é profundamente diferente do que consideramos democracia no Ocidente, mas é seu próprio tipo de democracia socialista e, em muitos aspectos, é mais democrático.

Quanto ao autoritarismo na China, é verdade que existem limites para a liberdade de expressão. Mas há uma variedade enorme de opiniões políticas na China. Na verdade, acho que há muito mais variedade de opinião política na China do que na Grã-Bretanha. Por exemplo, eu não sou acadêmico atualmente, mas com as minhas visões e posicionamento político acharia extremamente difícil conseguir um emprego em uma universidade britânica. Conheço muitos acadêmicos de esquerda que realmente lutam, e apenas alguns chegam a ser professores com estabilidade.

Na China, se você é bom, tem opiniões fortes, consegue fundamentá-las, formular argumentos, escrever e ensinar, considera-se que você tem direito à voz: pode se expressar, aparecer na mídia, trabalhar como acadêmico etc. O leque real de opiniões aceitáveis é muito maior.

O que você não pode fazer é organizar um partido político da classe capitalista, nem atuar em prol do desmantelamento do socialismo e da construção de uma sociedade capitalista. Como capitalista, alguém que possui e aplica capital, você pode se filiar ao Partido Comunista ou a um dos outros oito ou nove partidos que fazem parte do sistema político chinês, se concordar com os objetivos deles. 

Na verdade, há muitos capitalistas conhecidos, incluindo bilionários na China, que concordam com os objetivos do Partido Comunista e trabalham para apoiá-los, mas não se pode organizar em prol do capitalismo. Esse é o limite mais importante à liberdade política e a principal forma como o autoritarismo se expressa.

Sobre os estereótipos ocidentais de que a China é um Estado policial ou um sistema autoritário, isso simplesmente não corresponde à realidade. Estive na China muitas vezes: em grandes cidades, cidades menores, vilarejos. Você quase não vê a polícia. A ideia de que a China é um Estado policial é bastante ridícula. As pessoas desfrutam de todas as liberdades pessoais esperadas e, muito importantemente, desfrutam da liberdade em relação à extrema pobreza, uma liberdade essencial frequentemente ignorada nos países capitalistas.

O que significa a liberdade de me expressar politicamente se estou passando fome, se meus filhos não podem ir à escola, se não tenho eletricidade ou se, como em grande parte do Sul da Ásia, estou preso em uma servidão por dívida intergeracional e a única saída é me mudar para uma favela periurbana na periferia de Mumbai, Délhi, Lagos, Dakar ou onde quer que seja?

Já não é segredo para ninguém que estamos vivenciando uma disputa pela hegemonia global, que envolve os Estados Unidos e a China. Como você enxerga essa disputa e o processo de transição que estamos vivenciando no planeta?

Os chineses usam uma expressão “mudanças nunca vistas em um século”. Se presume que isso se refere à Revolução de Outubro, o início da jornada da humanidade do capitalismo para o socialismo. Se essas são as mudanças não vistas neste século, então devem ter ocorrido mudanças bastante significativas e substanciais.

E a forma como eu vejo que isso deve ser concebido é em termos da mudança de um sistema imperialista, liderado pelos EUA, para um sistema multipolar onde todos os países têm igualdade, todas as nações desfrutam de sua soberania e têm voz nos assuntos internacionais. E onde realmente respeitamos e aderimos aos princípios da Carta das Nações Unidas e ao direito internacional, que são ideias belíssimas que surgiram das cinzas da Segunda Guerra Mundial, mas nunca foram devidamente colocadas em prática. 

O que tínhamos, essencialmente, era um sistema bipolar com a União Soviética e seus aliados de um lado, e os Estados Unidos e seus aliados do outro. A União Soviética estava avançando em direção a um futuro socialista e acabou sendo derrotada nesse sentido com o seu colapso e das democracias populares do Leste Europeu entre 1989 e 1991.

Por sua vez, os Estados Unidos, estão, desde então, empenhados em defender, recuperar e expandir o sistema imperialista e neocolonial. Ou seja, em substituir ao sistema colonial, imposto pelos britânicos, franceses, alemães, belgas, portugueses e espanhóis, contra o qual países da América Latina e da África haviam conquistado sua libertação. Substituindo isso por estruturas neocoloniais através de programas de ajustamento estrutural, armadilhas da dívida, práticas de empréstimo coercitivas e agressivas, e assim por diante.

Então, o que entendemos por multipolaridade é a transição para uma situação em que todos os países tenham sua independência, sua soberania e possam escolher seu próprio caminho de desenvolvimento. Essencialmente, trata-se de um sistema pós-imperialista. E já começamos a ver isso emergir na realidade.

O exemplo mais evidente é a ascensão da China, que passou de um dos países mais pobres do mundo para a segunda maior economia, se medida pelo PIB nominal, ou para a maior economia do mundo se medida pela Paridade do Poder de Compra (PPC). Ou ainda, como a tecnologia transformou a Rússia em uma superpotência científica e tecnológica, liderando o caminho nas telecomunicações, em energias renováveis, na exploração espacial, na indústria avançada e assim por diante. O que também se reflete na ascensão do Sul Global em geral e no ressurgimento da Rússia como uma grande potência independente.

Outro exemplo é a ascensão de um país como o Irã como uma grande potência independente. Que, apesar de enfrentar 47 anos de sanções brutais, provavelmente as mais abrangentes que qualquer país já enfrentou, atingiu um nível de progresso econômico e tecnológico que pode essencialmente derrotar os Estados Unidos, a potência militar mais sofisticada e elaborada da história, em uma guerra como a que os EUA e Israel iniciaram em 28 de fevereiro deste ano.

Vemos isso também na ascensão de potências soberanas na América Latina, sendo o Brasil uma delas. E no fato de que os países do BRICS, com suas economias, são agora substancialmente maiores do que as economias do G7, o que representa uma mudança enorme. Assim, cada vez mais, os países do Sul Global e os países em desenvolvimento estão em melhor posição para afirmar sua própria soberania e cooperar entre si. Não são mais dependentes como antes.

Essa é a trajetória rumo à soberania, à cooperação Sul-Sul, à capacidade dos países de escolherem seu próprio caminho de desenvolvimento, o que é muito importante. E como apontou o marxista egípcio Samir Amin, a multipolaridade se torna um degrau no caminho para o socialismo, porque se você tem a liberdade de escolher seu próprio caminho de desenvolvimento, então você tem a liberdade de escolher um caminho socialista de desenvolvimento. Portanto, do ponto de vista marxista, isso é muito importante.

Vários países da África, como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Zimbábue e Etiópia, buscaram um caminho de desenvolvimento socialista nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Países da América Latina, como a Nicarágua, sob o regime sandinista na década de 1980, também tentou seguir um caminho de desenvolvimento socialista.

E a resposta dos Estados Unidos e do ocidente a isso foi uma combinação de coerção econômica, sanções, empréstimos predatórios e, no caso de Angola e da Nicarágua, guerra literal para impedir que um país se afirmasse, escolhesse seu próprio caminho e trilhasse a rota rumo ao socialismo.

Nesse sentido, existe uma ligação muito importante entre a ideia de pluralidade e a ideia de socialismo, creio que essa é a trajetória das mudanças que estamos presenciando no mundo. Mas o que está muito claro é que os Estados Unidos e seus aliados não vão simplesmente aceitar essa trajetória, não vão se render sem lutar. 

E podemos ver a expressão disso na guerra no Irã, em grande parte devido ao reconhecimento de que o Irã faz parte do processo multipolar. O Irã é membro do BRICS, é membro da Organização de Cooperação de Xangai e é um ator fundamental na Iniciativa Cinturão e Rota. O Irã mantém uma parceria estratégica abrangente com a China, com investimentos acordados em torno de US$250 bilhões. E o Irã é um Estado resistente, ao contrário da maioria dos países do mundo árabe e da região da Ásia Ocidental. Não coopera com os Estados Unidos, nem com Israel.

Os Estados Unidos e seus aliados estão tentando mudar isso e eliminar um Irã resistente da equação. Cuba é outro país que faz parte do processo multipolar, que faz parte da trajetória socialista da humanidade, e como os Estados Unidos respondem a Cuba? Com um cerco energético genocida e tentativas de mudança de regime.

Como os Estados Unidos respondem à Venezuela, um país que tenta encontrar seu próprio caminho para o socialismo no século XXI? Inúmeras tentativas de golpe, décadas de sanções e agora o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cilia Flores, além da tomada de controle do petróleo venezuelano.

E não é coincidência, aliás, que a Venezuela seja o país da América Latina com laços mais estreitos com a China. Controlar esses pontos de estrangulamento energético na Venezuela, no Irã, no Golfo Pérsico, e as ameaças de anexação da Groenlândia e de controle do Círculo Polar Ártico, tudo isso, do ponto de vista estratégico, visa preparar-se para uma futura guerra contra a China, ou seja, impor um bloqueio energético à China.

E o Brasil é outro ótimo exemplo. O Brasil é um país que está encontrando seu próprio caminho de desenvolvimento, seu próprio tipo de socialismo, seu próprio tipo de política progressista centrada no povo, que coopera com a China, com a Venezuela, com Cuba, que tem boas relações com a Rússia e que também é membro fundador do BRICS.

E os Estados Unidos, especialmente sob esta administração Trump, dentro da estrutura desta nova doutrina Monroe, estão tentando impactar e subverter as eleições que ocorrerão em pouco tempo. Impondo essas sanções, fazendo tudo o que podem para apoiar a família Bolsonaro e restabelecer uma situação política no Brasil que seja favorável à hegemonia dos EUA.

Portanto, não será um caminho fácil, uma jornada tranquila, rumo à multipolaridade e a um mundo de igualdade, um sistema democrático de relações internacionais. Mas creio que essa é a verdadeira dicotomia: por mais poder militar e econômico que os Estados Unidos possuam, eles não conseguirão, de fato, alcançar o que desejam.

Portanto, não devemos imaginar que os Estados Unidos possam, simplesmente, em um passe de mágica, manter o sistema imperialista em vigor. Na verdade, o Irã é o melhor exemplo de todos, porque eles lançaram todos os recursos disponíveis contra o Irã e não conseguiram derrotá-lo. Portanto, será um processo longo e doloroso rumo ao nosso mundo pós-imperialista, mas acredito que, no fim, a humanidade chegará lá.

Outras nações latino americanas têm enfrentado interferências diretas, imposição de tarifas e até mesmo ações militares por parte dos EUA. Em nenhum destes casos, outras potências mundiais, como a Rússia, fizeram nenhum movimento concreto em defesa dessas nações. Mesmo a China apenas repudiou verbalmente os atos. No caso do Brasil, somos um dos membros fundadores dos BRICS e um estado estratégico no cenário global, ainda sim, na sua visão, podemos esperar algum apoio na defesa de nossa soberania que parece cada dia mais ameaçada por Washington?

Cada vez mais, na esquerda, encontramos pessoas dizendo: “A China agora é uma potência mundial, deveria estar fazendo mais para defender o direito internacional e a Carta das Nações Unidas, a soberania e os princípios da coexistência pacífica”. O problema é que, como disse o presidente Mao Tsé-Tung, “o poder nasce da ponta do fuzil”. E existe uma enorme disparidade militar entre a China e os Estados Unidos. Os Estados Unidos desfrutam de uma infraestrutura global de projeção de poder, com mais de 800 bases militares no exterior. Têm alianças militares como a OTAN. Possui dezenas de milhares de soldados estacionados no oeste  e leste da Ásia, no Pacífico e na América Latina, e seu orçamento militar ultrapassa US$1 trilhão por ano, o que, creio eu, é três ou quatro vezes maior que o da China. Sendo, per capita, mais de 20 vezes maior que o da China.

A China possui uma base militar no exterior, que é essencialmente um centro de operações logísticas e de apoio em Djibuti, utilizado não apenas pela China, mas por diversos países que realizam transporte marítimo comercial na região. Portanto, não se trata, em termos práticos, de uma base militar no mesmo sentido que as bases militares dos Estados Unidos. 

Portanto, a China não está realmente em posição de impor sua vontade militarmente da mesma forma que os Estados Unidos. Os Estados Unidos desfrutam de hegemonia real, baseada em uma realidade material, da sua superioridade militar e do fato de ter sido a polícia do mundo nos últimos 80 anos, particularmente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o que foi reforçado com o colapso da União Soviética e a ascensão dos Estados Unidos como a única superpotência mundial.

Nos disseram na década de 1980 que a vitória do Ocidente na Guerra Fria e o colapso da União Soviética trariam um dividendo de paz, mas, na verdade, trouxeram guerras intermináveis. Trouxeram a primeira e a segunda guerras do Iraque, a guerra no Afeganistão, na Iugoslávia, na Líbia, na Síria, no Iêmen, agora a guerra no Irã e assim por diante. Portanto, o que a China pode fazer em termos materiais é bastante limitado. 

Obviamente, em termos diplomáticos, ela faz o que pode no Conselho de Segurança das Nações Unidas e na Assembleia Geral. Em termos de assistência econômica, assistência diplomática e solidariedade, creio que ela faz o que pode. E está fazendo algumas coisas bastante importantes. Por exemplo, em relação a Cuba, a resposta da China ao cerco energético imposto pelos EUA, que tentam impedir a chegada de petróleo ao país, é desenvolver a soberania energética cubana por meio da energia solar. 

Assim, a China está construindo quase 100 parques solares em Cuba.Como resultado, Cuba está prestes a realizar a transição para energias renováveis mais rápida da história. E, como muitos já comentaram, não se pode bloquear o sol. Portanto, a transição de Cuba para um sistema de energia renovável, baseado em energia solar, resolverá, em última análise, esse problema do bloqueio energético.

Obviamente, isso levará alguns anos, mas, com base no que já está sendo instalado, consegue-se suprir cerca de 20% a 25% de suas necessidades energéticas. É capaz de abastecer hospitais, escolas, geladeiras residenciais, etc., por meio de energia solar. Portanto, essa é uma contribuição importante e está dentro dos limites do que a China realmente pode fazer.

É importante lembrar que a China não pode, de fato, enviar navios de guerra ao Caribe para defender a soberania de Cuba. E se o fizesse, isso poderia desencadear uma guerra total e um confronto com os Estados Unidos, algo que a China não deseja. Acima de tudo, o país é responsável perante sua própria população de 1,4 bilhão de pessoas, que querem continuar seu progresso, dar continuidade à existência da República Popular da China, desfrutar da paz e do desenvolvimento e continuar a aprimorar seu sistema democrático. Querem subir na hierarquia de necessidades, passando de “temos eletricidade, educação, comida, roupas e moradia”, para que todos possam desfrutar de um alto nível cultural, se engajar em um trabalho significativo e que lhes traga autorrealização, e assim por diante. Então, essa é a trajetória interna da China, e é muito importante para eles, obviamente, protegê-la.

Todo o desenvolvimento da China foi baseado na paz, e não há nada que os Estados Unidos deseje mais do que arrastar a China para uma guerra que interrompa seu desenvolvimento. É exatamente por isso que os Estados Unidos investem tanto capital no envio de armas para Taiwan apoiando o separatismo taiwanês, para conseguir encurralar a China em uma situação de guerra.

Dentro das limitações do que pode realisticamente fazer, a China está fazendo o que pode por Cuba, e pelo Irã, por exemplo, no nível diplomático. Além de, obviamente, condenar a guerra e exigir seu fim, a China tem se envolvido fortemente no nível das relações internacionais. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando o Bahrein apresentou uma resolução que visava abrir caminho para uma expansão da guerra e legitimar uma potencial invasão terrestre do Irã, a China e a Rússia se opuseram a isso e vetaram a resolução.

A China continuou comprando petróleo iraniano, o que tem sido muito importante para a sustentação da economia iraniana durante esse período. A China compra 90% do petróleo iraniano e, enquanto os Estados Unidos tentaram impor sanções às empresas chinesas que compram esse petróleo, a China –  esta é a primeira vez que um grande país faz isso – impôs sanções recíprocas e disse às suas empresas e às empresas que trabalham com a China que, se seguirem e aderirem a essas sanções dos Estados Unidos, serão sancionadas e penalizadas, sendo consideradas culpadas de atividade criminosa.

Trata-se de um feito histórico e uma forma importante da China se posicionar, primeiro, em defesa do Irã e, segundo, contra toda essa infraestrutura de sanções e coerção econômica implementada pelos Estados Unidos. Enquanto isso, a China continua a fazer negócios com o Irã, fornece sistemas de posicionamento GPS ao Irã e todo tipo de equipamento, o que, sem dúvida, ajuda o país a prosseguir com seus esforços de guerra. 

E há muitas outras formas pelas quais a China trabalha com Cuba, com a Venezuela, com o Irã e com a Palestina, que não são necessariamente de conhecimento público, ou seja, não temos conhecimento delas. Mas acho que, dentro das limitações do que a China e a Rússia podem fazer, na verdade, elas estão fazendo bastante coisa. Apesar das limitações que se baseiam no âmbito da realidade material, nas limitações e no fato de que os EUA, do ponto de vista militar, são a única superpotência. E, como eu disse antes, o poder nasce da ponta de uma arma. E os Estados Unidos têm muitas armas. 

Uma grande preocupação hoje é a escalada militar, principalmente em duas frentes: a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e o conflito entre Ucrânia e Rússia. Você acredita que estamos vendo o início de uma terceira guerra mundial?  De que forma a China está posicionada neste cenário? 

Não vou fazer previsões porque já as fiz no passado e elas geralmente se mostraram incorretas. Acho que os conflitos na Rússia e no Irã serviram para mostrar os limites do poder dos EUA. Na verdade, ambos se voltaram contra o Ocidente, em certa medida. 

O Ocidente vem pressionando a Rússia a entrar nesse conflito na Ucrânia há décadas, com o objetivo de usar a Ucrânia de uma forma muito cínica, para lutar contra a Rússia até o último ucraniano (como já foi inclusive verbalizado). E, infelizmente, centenas de milhares de ucranianos estão morrendo em uma guerra que, na verdade, não os ajuda em nada. 

Não há nenhuma boa razão para que a Rússia e a Ucrânia não sejam vizinhas amigáveis e não mantenham relações econômicas, políticas, diplomáticas e sociais perfeitamente boas, visto que seus países compartilham uma importante história. A grande maioria dos ucranianos também fala russo. Eles têm sua história em comum durante o período da União Soviética, vários dos principais líderes da União Soviética eram ucranianos.

Portanto, todo o conflito fomentado pelos Estados Unidos e pela Europa gira em torno de atrair a Rússia para uma guerra na qual a Europa e os EUA possam investir todos os seus recursos para a enfraquecer e desestabilizar. A fim de se livrar de um governo russo que não é bem-vindo nem popular no Ocidente, porque, independentemente do que se pense de Vladimir Putin, do partido político Rússia Unida ou do Estado russo em sua forma atual, ele está se opondo ao imperialismo. Está afirmando sua independência e sua soberania. 

Está afirmando seu direito de se desenvolver e de não se submeter aos ditames dos Estados Unidos.  Portanto, a ideia é enfraquecê-la e, em última instância, promover uma mudança de regime, idealmente, como um objetivo ambicioso: desmembrar a Rússia e transformá-la em três, quatro ou cinco estados diferentes que possam ser mais facilmente controlados pelo Ocidente.

Então, eles gastaram bilhões e bilhões de dólares nessa guerra. Enviaram todo tipo de armamento para a Ucrânia. Enviaram pessoal, assessores e, em muitos casos, tropas. E o fato é que eles não conseguem derrotar a Rússia. Que, do seu ponto de vista, está travando uma guerra existencial. Eles não podem aceitar a ideia de que a OTAN, uma organização militar que definiu a como inimiga, teria uma fronteira de 2.000 quilômetros com a Rússia e que a Ucrânia seria uma plataforma de lançamento para uma guerra, assim como a Ucrânia já foi no passado. Mais recentemente, em 1941, com o lançamento da Operação Barbarossa pelo exército nazista de Hitler. 

Portanto, a Rússia está muito perto de alcançar seus objetivos de guerra. Está muito perto de controlar toda Donetsk, toda Lugansk, ter uma ligação terrestre com a Crimeia e manter o controle da Crimeia. Apesar de tudo que o Ocidente lançou nesta guerra, a Rússia está prevalecendo. É um processo lento e árduo, mas, ainda assim, a trajetória aponta para algum tipo de solução negociada que reflita os objetivos da Rússia no conflito. 

Novamente, com o Irã, a ideia era assassinar o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e alguns cientistas, assassinar alguns políticos importantes, incluindo o presidente do parlamento, Ali Larijani, e bombardear uma escola em Minab, matando 165 meninas. Além disso, bombardear infraestruturas de energia, hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água contando que o povo iraniano sairia às ruas, derrubaria o governo e tomaria o poder.

Trump dizia no início que esperava que a guerra durasse três semanas. Aqui estamos, seis meses depois, em um impasse. E os EUA ficaram sem opções militares. Isso é reconhecido até mesmo pelo Financial Times, pelo The Guardian, pelo New York Times e pela CNN. Eles não conseguiram derrotar o Irã militarmente. A estratégia militar do Irã tem sido tão criativa, eficaz e brilhante que o resultado dessa pressão militar sobre o Irã foi o desmantelamento total da infraestrutura militar dos Estados Unidos na região.

Os Estados Unidos mantinham bases militares muito fortes e uma presença militar significativa no Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Catar, entre outros países. Essas bases tiveram que ser desmanteladas. Na verdade, não é mais viável manter um grande número de tropas e uma grande quantidade de infraestrutura militar no Golfo Pérsico.

E, em uma espécie de admissão de que foram derrotados militarmente, os Estados Unidos agora dizem: “Vamos partir para as sanções”. Scott Bessant afirmou que vão impor sanções semelhantes às do Dia D ao Irã. As sanções não vão funcionar, o Irã já está sob sanções e conseguiu desenvolver sua economia de forma adequada, e a Rússia não vai cumprir essas sanções, nem a China. Em suma, as sanções não terão nenhum impacto significativo além do impacto que já estão tendo. 

Portanto, acredito que, tanto no caso do Irã quanto no da Ucrânia, o que estamos vendo são os limites do poderio militar dos EUA. E essa é uma lição muito importante para o mundo. Isso ensina uma lição aos países da América Latina, do Caribe, da Ásia Central, da Ásia Meridional, da Ásia Oriental, da Ásia Ocidental e aos países do Pacífico: vocês podem resistir aos Estados Unidos. Vocês não precisam aceitar a dominação ou intimidação. Vocês não precisam aceitar a hegemonia. 

Como eu disse, os Estados Unidos e seus aliados não vão desistir sem lutar. Mas, cada vez mais, eles estão perdendo suas aventuras militares. E, cada vez mais, estamos vendo os limites de seu poder, estão se tornando, de fato, alienados. As outras potências imperialistas e os aliados tradicionais dos EUA entenderam, desde o início, que o Irã seria um osso duro de roer.

Se eles achassem que isso era possível, então a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e o Canadá teriam se envolvido, mas todos perceberam que isso não ia acontecer. Então, o que vimos foi que os Estados Unidos, por meio da guerra com o Irã e do seu apoio ao genocídio em Gaza, se tornaram mais alienados do que nunca.

Em parte isso é uma manifestação de Donald Trump e da sua personalidade específica que é tão grotesca e que não tem interesse em democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa e coisas pelas quais os Estados Unidos, pelo menos em parte, fingiam se interessar. Donald Trump não se interessa por nada disso. Mas isso, por si só, é um reflexo do declínio do imperialismo dos Estados Unidos. É um reflexo do fato de que o mundo está mudando.

Então, o que tudo isso representa é, na verdade, uma última tentativa desesperada de construir algo como um projeto estadunidense para o novo século. Mas, na realidade, o mundo não apoia isso. O Sul global não apoia isso. Mesmo o resto do Norte Global, a Europa, até certo ponto o Canadá, estão começando a perceber e a entender que, quer queiramos ou não, o mundo está se tornando multipolar, o chamado fim da história de Francis Fukuyama, da década de 1990, acabou. Estamos vivendo o período do fim do fim da história e entrando em uma nova fase das relações internacionais.

Os Estados Unidos serão o último país a aprender essa lição, mas, em última análise, terão que aprendê-la.

Editado por: Lucas Wilker

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