Checagem

Flávio Bolsonaro contou ao menos 43 mentiras para se afastar do caso Banco Master, aponta levantamento

Em sete meses, senador acumula dezenas de declarações enganosas para blindar sua imagem enquanto é alvo de investigações

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Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro | Crédito: Geraldo Magela/Agência Senado

Um levantamento publicado pela agência de checagem Aos Fatos indica que o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acumulou ao menos 43 declarações enganosas ao longo dos últimos sete meses para tentar desvincular sua imagem do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e das investigações sobre o Banco Master.

A apuração mapeou cinco estratégias de desinformação adotadas pelo parlamentar, que variam da negação inicial sobre a existência de conversas com o empresário até contradições sobre viagens em aeronaves vinculadas a sócios do banco.

A cobertura do Brasil de Fato acompanhou os desdobramentos do caso em diversas reportagens, detalhando as apurações da Polícia Federal (PF) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que envolvem a captação de recursos para o filme “Dark Horse”, o uso de emendas parlamentares e a atuação do senador como interlocutor de Vorcaro.

Da gargalhada inicial ao ‘filho buscando investimento‘

A mudança de discurso sobre o relacionamento com o dono do Banco Master é um dos pontos centrais apontados pelo Aos Fatos. Em 13 de maio, ao ser questionado por jornalistas sobre mensagens trocadas com o banqueiro para negociar R$ 134 milhões para a produção do filme “Dark Horse”, Flávio reagiu com uma gargalhada, chamou o repórter do veículo Intercept Brasil de “militante” e declarou se tratar de mentira.

Horas depois, contudo, o senador divulgou um vídeo nas redes sociais confirmando a autenticidade dos diálogos. Na gravação, passou a alegar que a conversa registrava apenas “um filho buscando investimento privado para o filme do pai” e sustentou que não havia suspeitas contra Vorcaro na época dos contatos.

Conforme noticiado pelo Brasil de Fato, relatórios da PF e trocas de mensagens apreendidas desmontaram a versão de distanciamento. Nos diálogos, o parlamentar chamava o banqueiro de “irmão” e “irmãozão”.

Além disso, mensagens interceptadas pela Polícia Federal mostram que o intermediário do esquema relatava a Vorcaro que recebia cobranças diretas de Flávio Bolsonaro e de Neymar da Silva Santos, pai do jogador Neymar Jr., para o envio de verbas.

Documentos da PF revelaram ainda que o senador tentou contato telefônico com o ex-banqueiro em todos os quatro dias anteriores à prisão do empresário.

‘Ausência de verba pública‘

Outro ponto do levantamento refere-se às declarações do senador sobre a origem dos recursos investidos na cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Em entrevistas à imprensa, como na sabatina do “Jornal Nacional”, da TV Globo, Flávio afirmou que uma perícia teria comprovado a ausência de dinheiro público na produção.

A auditoria citada pelo parlamentar, no entanto, foi contratada e paga pela própria produtora do filme. Em depoimento e relatórios enviados à Justiça, o perito responsável admitiu que não teve acesso a 70% das movimentações financeiras realizadas em contas nos Estados Unidos.

O Brasil de Fato mostrou em reportagens que a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) apuram a destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares do ex-deputado Mário Frias (PL-SP) a institutos geridos pela empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora de “Dark Horse”.

A investigação, sob relatoria do ministro Flávio Dino no STF, apura se verbas públicas do Orçamento da União foram desviadas para financiar o filme e custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no exterior.

Narrativa sobre o governo atual

A agência de checagem também destacou as declarações em que Flávio Bolsonaro tentou atribuir a crise do Banco Master ao governo federal atual, criando o slogan “o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula” e afirmando que a conta do banco estava “longe da direita”.

Apesar da narrativa política, investigações da PF e do Ministério Público Federal (MPF) mostram que as irregularidades na instituição financeira vêm sendo apuradas desde gestões anteriores, envolvendo servidores do Banco Central (BC) nomeados no governo Bolsonaro e diretores do Banco de Brasília (BRB) indicados pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).

Além de causar um prejuízo estimado em R$ 8 bilhões ao BRB, a derrocada do Banco Master afetou fundos de previdência estaduais e municipais geridos por governadores aliados da oposição ao governo federal. É o caso do Rioprevidência, no Rio de Janeiro, gerido pela gestão de Cláudio Castro (PL), e do fundo estadual do Amazonas, sob o governo de Wilson Lima (União Brasil).

Contradição sobre voos em jatinho

Em fase mais recente de sua defesa, Flávio Bolsonaro passou a direcionar críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, afirmando que o magistrado teria utilizado uma aeronave ligada a empresas de Vorcaro.

Documentos da Polícia Federal revelados nesta quinta-feira (24), no entanto, demonstraram que o próprio senador viajou no mesmo jatinho, de modelo Gulfstream G200, em um voo realizado entre os Estados Unidos e o Brasil. A aeronave pertence à empresa Prime You, da qual Daniel Vorcaro detinha um terço das cotas acionárias.

Ao ser confrontado sobre o voo, Flávio declarou que a aeronave pertenceria a um advogado e não ao banqueiro, omitindo a participação societária do empresário no bem. A declaração contraria manifestações anteriores do senador, nas quais assegurava jamais ter entrado em aviões de propriedade de Vorcaro.

Outros pontos desmentidos

A checagem do Aos Fatos reúne ainda outras divergências no discurso de Flávio Bolsonaro sobre o caso:

  • Foto com mercenário: ao ter divulgada uma imagem ao lado de um investigado conhecido como Sicário, ligado ao entorno de Vorcaro, o senador alegou tratar-se de montagem feita por Inteligência Artificial (IA), afirmação desprovida de comprovação técnica.
  • Apoio à CPI: O parlamentar declarou repetidas vezes que apoiava a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master no Senado. No entanto, assinou apenas dois dos cinco requerimentos apresentados sobre o tema na Casa.
  • Contatos telefônicos: Em março, ao ter o número de telefone identificado na agenda do celular de Vorcaro apreendido pela CPI do INSS, Flávio afirmou que não conhecia o empresário, versão abandonada dois meses depois com a divulgação dos áudios e mensagens entre ambos.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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